Dá para ser um cord-cutter no Brasil?

Os custos e os percalços de fugir da TV paga e dos velhos modelos por aqui

Marcos Kalil Filho
Nov 5, 2015 · 10 min read

O lançamento do Globo Play, realizado hoje (03/11/2015) pelo Grupo Globo, sinaliza uma nova fase da transmissão de conteúdo de som e imagem no país. A queda acentuada na audiência das TVs abertas e o crescimento de dois dígitos das TVs fechadas, ao longo dos últimos 10 anos, mudaram o cenário da reprodução doméstica de conteúdo audiovisual no Brasil.

No entanto, a popularização da internet e o aumento das velocidades serão os fatores da verdadeira disrupção desse mercado no curto e médio prazos. Nos EUA, ao menos, é o que vem acontecendo lentamente ao longo dos últimos três anos. Assim, surgiram os cord-cutters, “cortadores de fios”, em tradução livre, ou até mesmo cord-nevers, aqueles que nunca tiveram TV por assinatura e, muitas vezes, nem TV.

Na terra do Obama, outro fator vem criando essa tendência. Os jovens adultos, envolvidos com os altos custos para pagar o ensino superior norte-americano, mesmo após se formarem, e conseguir pagar os aluguéis nas cidades altamente gentrificadas estão fazendo opções menos consumistas. Entre um computador e uma TV, essas pessoas acabam optando pelo primeiro.

Ainda que seja um movimento minoritário, o surgimento desse novo comportamento incomoda as empresas difusoras. A queda na base de usuários forçou um aumento maior do que o usual nas mensalidades. Ao mesmo tempo, Netflix, Hulu Plus e Amazon Video ganham força e relevância.

O que é um cord-cutter, afinal? Trata-se da combinação de internet de banda larga e algum (ou vários) desses serviços: IPTV, gravadores de vídeo digital e TV gratuita por terra ou ar. No fundo, é uma contestação dos modelos de negócio tradicionais, que forçam o consumidor a pagar por um pacote amplo de canais que ele dificilmente usufruirá de forma integral, além de não ter acesso fácil às novas tecnologias de portabilidade e gravação, desenvolvidas recentemente. Ao contrário do Brasil, cuja predominância da TV aberta gratuita sempre foi uma marca do nosso mercado, nos EUA, as TVs por assinatura dominam o cenário e os cord-cutters ganham uma conotação maior de liberdade.

O que você precisa para ser um cord-cutter?

Mesmo que não abandone sua TV, você pode ser um cord-cutter. Vamos ver os aparelhos necessários para aderir a essa tendência. Vale lembrar, porém, que o básico é ter uma conexão relativamente rápida de internet. Para conteúdos em 720p (HD) ou em menor resolução, os planos de 10MB e 15MB são suficientes. Para vídeos mais pesados, em 1080p (Full HD) e 4K, uma conexão mínima de 20MB ou 25MB é essencial.

Smart TVs

Pros: Reúnem aplicativos e funções em uma interface usualmente amigável e na conveniência de um mesmo aparelho no centro da sala.

Contras: São lentas, raramente atualizadas e com poucas opções de apps.

Veredito: Um verdadeiro cord cutter raramente depende de uma Smart TV.

Chromecast, Roku, Apple TV e Amazon TV

Pros: Transformam qualquer TV com entrada HDMI em uma Smart TV atualizada e flexível. São mais baratos e acessíveis.

Contras: A disponibilidade e o suporte no Brasil são limitados (inexistente, no caso de algumas marcas como Amazon e Roku). Dependem de um celular, tablet ou computador para transmitir o conteúdo. Apesar de serem baratos nos EUA (um Chromecast custa 35 dólares por lá), tem um preço mais salgado no Brasil (R$ 249 oficialmente por aqui).

Veredito: Como as TVs estão presentes em praticamente todos os domicílios brasileiros e os smartphones se espalham de forma voraz pelo país, o Chromecast tem se tornado essencial para quem quer “cortar os fios”.

Consoles

Pros: A conveniência de fazer do seu videogame uma central de mídia, aproveitando o poder de processamento dele.

Contras: Dependendo do console, não há todas as opções de aplicativos. A interface nem sempre é acessível para pais e avós, assustados com o uso do controle cheio de botões e alavancas.

Veredito: É uma boa opção para um cord cutter, ainda que seja limitada em alguns casos.

Chromebox, small-factor PCs e media-centre PCs

Pros: Há os que fogem da interface do PC na TV da sala, mas uma abordagem muito popular e útil é justamente levar todas as funcionalidades e as possibilidades de um PC para o centro do cômodo de entretenimento da casa. PCs menos potentes, vendidos em caixas pequenas que cabem perfeitamente nas prateleiras da sala, podem servir como hubs de mídia e ainda permitir acesso a programas e outras funções que não são encontradas nas demais opções.

Contra: Necessita a compra de um couch keyboard, um teclado como este ou similar, para facilitar o uso do mouse e das teclas de digitação, sentado no sofá. A resolução das interfaces do Windows e outros sistemas operacionais nem sempre está adaptada para uso em TVs grandes. Por isso, os textos acabam ficando pequenos. A instalação não é tão prática quanto a do Chromecast, por exemplo.

Veredito: Uma boa opção, mas vai depender das suas necessidades e de quem vai usar na sua casa. Há pouca variedade de produtos nessa linha no Brasil.

Desktop PC e Laptop

Pros: Todo mundo tem um e normalmente possuem a versatilidade e o poder necessários para fazer tudo o que um cord cutter precisa.

Contras: Sua tela pode não ser grande o bastante para agradar a todos, ainda que se possa conectar em uma tela maior pela saída VGA ou HDMI. Podem ainda ser pesados e grandes. Por fim, o som pode ser insatisfatório.

Veredito: Poderá até não ser seu centro de mídia, mas certamente terá um papel nesse movimento, como veremos mais a frente.

Como é e quanto se paga nos EUA?

De olho na tendência de cord cutting, as empresas norte-americanas já fizeram a transição total do sinal pelo ar para o streaming pela internet. Todos os canais possuem algum serviço de transmissão pela internet: seja individual, como a HBO, seja em conjunto, como o Sling TV. Um pacote básico de TV por assinatura nos EUA custa por volta de US$ 70. Para assinar todos os canais por serviços de streaming, você desembolsaria US$ 127. O equivalente seria muito mais caro. No entanto, a Liga NFL ainda não está totalmente disponível nesse novo modelo. Imagine a importância do pay-per-view de futebol no Brasil e entenda, a partir daí, que a transição ainda não está completa. Neste link, você pode conferir os custos e os canais que cada serviço oferece. Vamos entender melhor:

Netflix

Preço: entre US$8 e US$12 por mês

O que oferece: Um catálogo relativamente amplo de filmes, desenhos e seriados antigos. Tem ganhado mais relevância com a produção de séries próprias, como ‘House of Cards’ e ‘Orange is the New Black’. Globalmente, é sinônimo dessa nova forma de assistir TV, conhecida como on-demand. Você escolhe quando, o quê e onde assistir.

Hulu

Preço: gratuito ou US$8 por mês

O que oferece: propriedade das três maiores redes de TV dos EUA, é o lugar para assistir vídeos da ABC, NBC e Fox no dia seguinte a sua veiculação. Outros conteúdos exclusivos: SyFy, Cartoon Network, Seinfeld, CSI, Showtime etc. Para assistir em consoles, celulares e Chromecast, você precisar pagar a assinatura.

Amazon Prime Instant Video

Preço: parte da assinatura anual do Amazon Prime (US$99)

O que oferece: possui um catálogo muito semelhante ao do Netflix, um acordo com a HBO para transmitir parte do conteúdo deles (nada de ‘Game of Thrones’) e algumas séries originais.

CBS All Access

Preço: US$6 por mês

O que oferece: A rede de TV mais popular dos Estados Unidos se dá ao luxo de ter seu próprio serviço de streaming. Com ele, você pode assistir a ‘The Big Bang Theory’, ‘Mom’, ‘The Good Wife’, ‘CSI’, 17 temporadas de ‘Big Brother’, ‘Star Trek’ etc.

Sling TV

Preço: US$ 20 por mês

O que oferece: É o serviço mais completo: HGTV, TBS, Food Network, TNT, Travel Channel, Cartoon Network (incluindo Adult Swim), Disney, CNN, Bloomberg, AMC, ESPN e ESPN2. Funciona como uma TV a cabo, não tendo muito conteúdo a la carte, mas transmitindo ao vivo.

HBO Now

Preço: US$ 15 por mês

O que oferece: Assinantes da HBO por meio de algum pacote de TV fechada, podem assistir ao canal e todo seu conteúdo anterior através do HBO Go de graça. Para quem não é assinante da TV a cabo, surgiu recentemente o HBO Now com todos os episódios e vídeos das produções do canal, como ‘Game of Thrones’.

Showtime

Preço: US$ 11 por mês

O que oferece: Ray Donovan, Happyish, House of Lies, Homeland, Penny Dreadful, Master of Sex, Shameless, Episodes, Nurse Jackie e o revival de Twin Peaks, em 2016.

Outros serviços de menor relevância: Crackle e Chrunchyroll.

Como é e quanto se paga no Brasil?

O Brasil ainda está começando a entrar nessa onda. O controle das teles sobre as agências de regulação e o mercado em geral ainda é muito grande. Fragmentar o modelo de negócio de vender pacotes de TV fechada para o público é um desafio tanto nos EUA, quanto no Brasil. Por aqui, pouco foi feito para quebrar esse monopólio. Vamos ver quem já aderiu e de que forma:

Globo (Globo Play)

Preço: gratuito ou R$ 12,90 por mês

O que oferece: Para assistir ao conteúdo da Globo (canal aberto), basta baixar o aplicativo no celular, acessar o site no navegador ou instalar o app na sua Smart TV compatível. O streaming ao vivo e uma parcela dos vídeos antigos são gratuitos, bastando cadastrar-se. Há uma assinatura para ter acesso ao enorme catálogo de produtos da Globo. Ainda sem suporte ao Chromecast.

Record (R7 Play)

Preço: R$ 10,90 por mês

O que oferece: Não há meio de assistir a Record ao vivo de graça — nem por aplicativos oficiais, nem pelo navegador. A emissora oferece o R7 Play, um canal pago no Youtube com todo seu conteúdo passado e a programação ao vivo. Tem suporte ao Chromecast.

Band

Não há planos pagos, nem uma plataforma dedicada. O aplicativo permite você assistir a programação ao vivo no celular ou tablet, mas não tem suporte ao Chromecast. No navegador, não há forma de assistir oficialmente a Bandeirantes ao vivo.

SBT

Não há planos pagos, nem uma plataforma dedicada. O aplicativo permite você assistir a programação ao vivo no celular ou tablet, mas não tem suporte ao Chromecast. No navegador, há a possibilidade de ver ao vivo a programação do canal.

RedeTV!

Não há planos pagos, nem uma plataforma dedicada. O aplicativo permite você assistir a programação ao vivo no celular ou tablet, mas não tem suporte ao Chromecast. No navegador, há a possibilidade de ver ao vivo a programação do canal.

HBO Now

Preço: A ser anunciado

O que oferece: recentemente confirmado para a América Latina, o serviço chegará primeiro na Colômbia e, posteriormente, ao Brasil. Isso significa que, em um futuro próximo, você poderá assinar a HBO sem precisar pagar um pacote das TVs fechadas.

Esporte Interativo

Preço: R$ 9,99 por mês

O que oferece: O grande diferencial é a exclusividade de mais de 140 jogos da Champion’s League. Seu modelo descentralizado de transmissão levou a recusa da Sky e outras operadoras de oferecerem o canal no cardápio de opções.

Netflix

Preço: de R$ 17,90 a R$ 26,90 por mês

O que oferece: Um catálogo relativamente amplo de filmes, desenhos e seriados antigos. Tem ganhado mais relevância com a produção de séries próprias, como ‘House of Cards’ e ‘Orange is the New Black’. Globalmente, é sinônimo dessa nova forma de assistir TV, conhecida como on-demand. Você escolhe quando, o quê e onde assistir.

Outros serviços: Crackle, Crunchyroll etc

O que ainda falta acontecer no país?

A maioria dos canais a cabo, como Fox, Telecine, Sony e Globosat (Multishow, Globonews, Sportv, GNT etc), só pode ser adquirida via assinatura das grandes operadoras, como Sky, Net, entre outras. Essas marcas até disponibilizam serviços streaming via celular, tablet e computador — comumente chamados de Play — para seus assinantes, mas isso vai de encontro às premissas do cord cutting. Você precisa ser um assinante da TV fechada para ter acesso.

Alternativas para ser um verdadeiro cord cutter no Brasil

Plex

Preço: gratuito ou US$ 4,99

O que oferece: O Plex organiza todas as suas mídias (filmes, vídeos, músicas e fotos) em uma interface incrível e acessível de qualquer lugar com suporte para Chromecast. Se você baixa muitos torrents, é uma excelente forma de colocá-los disponíveis para os seus pais e amigos (e você mesmo, oras). O plano gratuito é suficiente para a maioria das pessoas. A oferta premium adiciona algumas poucas novidades e serve mais para apoiar a iniciativa dos desenvolvedores.

Slingbox

Preço: R$ 699 (aparelho), sem mensalidade, R$ 35 (aplicativo para celular)

O que oferece: Uma das coisas que você pode fazer para economizar nos pacotes de TV a cabo é pegar somente um ponto e comprar uma Slingbox. A caixinha é instalada entre sua TV e seu receiver do sinal de TV fechada. Assim, você pode acessar seus canais de qualquer lugar. Tem suporte ao Chromecast.

Youtube

Preço: gratuito (em breve, plano pago chamado ‘Red’)

O que oferece: Se você ainda enxerga o Youtube como uma plataforma para memes e vídeos sem graça da Porta dos Fundos, deveria explorar mais as possibilidades do YT. Atualmente, há uma infinidade de canais dos mais diversos assuntos, os quais você pode seguir, se informar e se divertir. TV aberta é tãão 1970.

Popcorn Time

Preço: gratuito

O que oferece: Uma plataforma pirata que disponibiliza os torrents de filmes e seriados sem a necessidade de baixá-los para o seu PC. Recentemente, saiu do ar por pressões externas e disputas internas. Nem sempre funciona bem, mas a proposta e a interface são muito boas. Tem suporte para Chromecast.

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Marcos Kalil Filho

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Mestre e Doutorando em Semiótica, Advogado e Jornalista. Direitos Humanos, Política e Tecnologia são áreas de interesse.

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