Da importância do revisitar
Faz alguns anos que em uma disciplina na faculdade um professor mencionou que estava revisitando um texto. Na época, eu considerei tal atitude estranha. Pensei que talvez ele não havia compreendido o texto pela primeira vez, mostrando um certo tipo de desleixo ou indiferença para com o texto antes lido. Uma ingenuidade minha, admito. Entretanto, alguns semestres passaram e eu ainda não havia experienciado o que o professor havia feito. O que dificultava ainda mais o meu entendimento de tal atitude.
Pois é. Um aluno é um aluno e um mestre é um mestre. E aqui você pode entrar em um mundo de discussão sobre o aprendizado, o saber, o autoaprender. Pois um mestre também é um aluno. Se não o fosse, não seria um mestre. Mas eu não quero me aprofundar muito nesta discussão. O ponto é que eu não conseguia entender o motivo de um professor revisitar um texto. Para falar a verdade, o próprio conceito de revisitar não estava muito claro na minha cabeça. No caso, ele revisitou o texto e disse que o estava lendo sobre um novo olhar. Uma nova perspectiva. Ou seja, ele, enquanto mestre, aprendeu algo novo durante a sua trajetória de mestre. Seja estudando para nos ensinar, ou aprendendo com aqueles que ele ensinava. O mestre era um aluno. Eu, enquanto aluno, mas não enquanto mestre, continuei a minha trajetória de aprendizagem.
Em um outro semestre qualquer, durante o curso de Epistemologia, dei início a uma disciplina chamada Filosofia da Ciência. Uma disciplina deveras teórica. No primeiro dia, introdutório, o professor recomendou a leitura de alguns textos para serem lidos ao longo do semestre. Dentre eles estava “Contra O Método” (Against Method) do Paul Feyerabend. Um texto que, segundo o professor, era para ser lido em um dia tranquilo, embaixo de uma árvore e tomando uma bebida. Um texto que possui como objetivo indagar o método científico. Ansioso do jeito que sou, fui a livraria e adquiri um exemplar de “Contra O Método”. No mesmo dia, durante a noite, antes de dormir, já estava lendo-o.
O texto mostrou-se extremamente desafiador. Ele não era difícil de ler. A sua leitura era de rápida fluidez. E este era justamente o problema. Fluía tão rápido que algo estava errado. Eu não estava entendendo absolutamente nada. Nenhuma das referências do autor. Feyerabend discorria sobre Popper, Lakatos, Thomas Kuhn e muitos outros, como se todos que pegassem o seu livro conhecessem, previamente, as teorias de tais autores, ou como se o leitor fosse seu amigo íntimo, que partilhavam de suas ideias. Eu havia cometido um grande erro. Peguei uma leitura de final de semestre para lê-la na primeira semana de aula. Passados dois capítulos sem entender absolutamente nada, abandonei o texto. Deixei para depois.
O semestre passava e eu enxergava em minha estante aquele livro com capa cor carmesim e letras brancas. Pensava sempre: “coloquei dinheiro fora comprando este livro, pelo menos fica bonito na estante”. Ou seja, já estava me conformando que não seria capaz de compreender, minimamente, o que o autor estava tentando me dizer.
Ao longo do semestre, para a disciplina de Filosofia da Ciência, fiz a leitura de outros dois livros, acompanhado sempre de artigos que eram disponibilizados pelo professor. No final do semestre, como atividade avaliativa, nos foi pedido que realizássemos uma resenha-crítica de qualquer capítulo de um dos autores estudados ou das bibliografias complementares. Os autores que estudamos afundo foram: Popper, Lakatos, Kuhn, Hempel e Van Fraassen.
Feyerabend não havíamos estudado, mas ele fazia parte da bibliográfica complementar. No primeiro capítulo de “Against Method”, Feyerabend faz um apanhado crítico com relação aos autores que eu havia estudado na disciplina de Filosofia da Ciência. Mas, como eu disse anteriormente, quando eu realizei a leitura dos dois primeiros capítulos, eu não havia entendido nada. Pelo menos, foi assim no início do semestre.
Obviamente, me senti desafiado. Agora eu já possuía uma base teórica. Qualquer texto que abordasse, sem uma introdução prévia, o nome de um teórico de filosofia da ciência, não me intimidaria. Eu seria capaz de realizar a referência. Seria capaz de compreender as premissas do autor. Não havia desculpas para não ler, novamente, “Against Method”. Portanto, decidi que faria uma resenha-critica do primeiro capitulo deste livro. Enfrentei Feyerabend.
Na verdade, foi melhor do que eu esperava. A leitura continuava fluindo rapidamente. Mas, agora, eu entendia cada linha. Eu era capaz também de problematizar o que o autor estava falando. Possuía um olhar crítico sobre as linhas discorridas. Fazia o link com outros textos, com outros comentadores de obras diferentes, outros críticos. Mesmo sem ter lido e não ter estudado absolutamente nada com respeito ao pensamento de Feyerabend. Eu era autônomo. Fiz a leitura com as ferramentas que me foram ensinadas e que eu construí ao longo de um semestre. Revisitei o texto. Tudo fazia sentido na minha cabeça. Uma explosão de satisfação.
A prática do revisitar não parou após concluir a leitura de “Against Method”. Muito pelo contrário. Comecei a dar um valor imensurável para isso. Não tem dinheiro no mundo que pague pela satisfação que é poder pegar um livro, já lido, e poder compreender cada vez mais cada linha discorrida, cada referência. Saber do que o autor está falando, sem deixar uma lacuna na linha de raciocínio.
Obviamente, é um processo sem fim. É impossível saber tudo, conhecer todos os autores, todas referências. Mas, esta que é a graça da pesquisa, do estudo. Dedicar-se e, posteriormente, perceber que o seu esforço valeu a pena. Que você está um passo mais à frente do que você estava anteriormente. Que a sua formação intelectual não é a mesma de antes. Que hoje você é um sujeito mais instruído que ontem. Um trabalho minucioso, construído dia a dia.
Por fim, quero deixar uma dica. O revisitar não está só ligado a textos. Mas, como você sabe, um texto é algo que foi escrito por alguém. Ali, estão expressas ideias de um sujeito. Existe uma comunicação presente. O autor dialoga com você.
E se, revisitar um texto é algo que pode ser gratificante, pois você passa a entendê-lo melhor, sendo capaz de fazer críticas ou de aceitar suas ideias, colocando em sabatina a sua própria evolução intelectual, quem sabe se ao revisitar amigos, professores, pessoas que antes você divergia ou concordava, também possa ser algo construtivo?
Confesso que isso tem acontecido comigo ultimamente. Professores que antes eu não compreendia, passei a compreendê-los. Amigos que antes eu acreditava que compreendia, passei a não os compreender. Aquelas figuras de referência que antes eu tinha, foram substituídas por outras. Até mesmo seriados que eu já assisti eu decidi revisitar e passaram a ser assistidos sobre um novo olhar. Mas, quem disse que hoje eu estou certo? Amanhã posso revisitar este texto e perceber o quanto eu fui ingênuo hoje.


