Da inconsequência à consciência

Ou melhor, da lama da inconsequência à revitalização da consciência

A inconsequência no Brasil há muito tempo já extrapolou qualquer limite que antes se imaginava existir. Quando não há lei, nem justiça, nem execução da justiça num dado território, pode-se dizer que existe Estado de direito, ou um Governo, uma República?

Não sou entendedor do assunto, no momento não entendo nada mesmo, por isso já me mobilizo neste interesse; mas o ponto a que quero chegar é que a tremenda sensação de impotência diante de pequenas ou grandes omissões, da sede pelos resultados, pelo ganho, pelo destaque termina numa grande avalanche de lama devastadora que, não por acaso, não abala quem quer que tenha contribuído em responsabilidade, porque muito do que resulta em acidentes como estes provém de pequenas ações e atitudes nocivas e pequenas (senão micro) omissões de quem se esconde atrás do poder de dar ordens e de quem se exime do dever de questionar ordens.

Com tanta insensibilidade ou com tanta imobilidade decorrente da ideia de que “não se pode fazer nada mesmo” por parte de quem realmente podia fazer, a lama se vai, deixando marcas profundas em nossas vidas, quer queira, quer não, sabendo disso ou não.

Claro, faz parte da evolução, dado que estamos numa jornada de experiências, passar uma linha dividindo passado de futuro pra recomeçar; e não ajuda cuidar de culpados, porquanto isso não conserta o que se estragou. Mas a questão é algo muito além de um acidente provocado (porque essa desculpa esfarrapada de acidente é no mínimo um ultraje, imoral, já que se alguém deixa de verificar as condições do freio de um caminhão sobrecarregando-o e com o tempo ele perde o freio e mata duzentos, o acidente não retira 1% da responsabilidade do motorista omisso que mata, o mesmo serve para a situação de quem dirige alcoolizado e causa alguma morte). O principal vem da palavra que iniciei este texto: inconsequência. A inconsequência é própria de pessoas que não pensam no que fazem e em como agem no mundo. E suas vidas refletem isso.

No momento a postura ante a convivência com indivíduos (estes, que se isolam como unidades individuais) inconsequentes exige de cada um compreender a incompreensão, sem que as consequências de suas más escolhas nos impeçam de caminhar adiante, porque é preciso ter sua dose de fé num sentido maior que ainda não conseguimos plenamente capturar. Caso contrário, as esperanças se esvaem e assim se produzem mais inconsequentes. Pois nem só quem age mal atrapalha o progresso humano, mas quem desiste de contribuir a um bem comum, se omite de fazer o que podem, ou mata a esperança de alguém.

O que se pode fazer agora, além de tentar impedir o avanço da lama (sabe-se lá como), além de ajudar como pudermos, além de assistir ao impacto nos litorais e torcer pelo misterioso poder regenerador da natureza é criar o senso comum de bem comum (com o perdão da redundância). Darmos mais importância à vida na escala ao qual somos responsáveis, a escala que nos envolve, o completo mundo em que nos inserimos no presente, metro quadrado em que eu habito e todas as adjacências que me cercam e em que eu posso, de certo modo, agir em algum sentido para proporcionar um bem, para transformar pra melhor. Quero dizer, o mundo que o cerca (tome sua vista como referência) é sua esfera de ação. Isto porque devemos ver o mundo como equivalente à pessoa e não como equivalente ao planeta como comumente se faz.

Faça algo nesta comunidade do eu, a comunidade de pessoas que te cercam no dia a dia, todo dia. Comece por aí. Que seja um “nutrir conversas melhores”. Embora no caso deste texto o assunto seja triste, foque em coisas boas e saiba medir o poder de sua influência e a responsabilidade por suas palavras. Se for tocar no que for triste, construa!

Este é o ponto, mas também não sou referência ou conhecedor pra ser porta-voz de qualquer lição, entretanto, existem verdades comuns aos quais qualquer um tem acesso e que podemos, qualquer um, abraçar a função de porta-voz, porque quanto mais pessoas se conscientizarem antes, melhor para o futuro que estamos a construir agora e para o planeta que conseguiremos reconstruir depois.