Da realidade para a TV: a politicagem e a estratégia do medo

House of Cards e outras séries e filmes que refletem o 11 de setembro

“Expresso pena, arrependimento, e peço desculpas pelo que vocês nunca saberão ou imaginarão.” — Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, sobre o envolvimento do Reino Unido com a Guerra do Iraque.

Se passaram 15 anos dos atentados terroristas contra a cidade mais imponente dos Estados Unidos da América e do mundo. A queda dos ícones da soberania financeira daquele país afetou não somente milhares de famílias de vítimas, como foi simbolicamente comparada a uma apunhalada no peito do ocidente. Desde então, filmes, documentários e séries de TV ainda refletem o grande acontecimento cada um com sua importância e relevância.

Mais do que um evento histórico e trágico, os atentados em Nova York expuseram escolhas posteriores ainda mais horríveis. Mentiras, oportunismo, guerra e petróleo, foram as palavras que ditaram debates todos esses anos. No centro da discórdia estava um presidente impopular que buscava uma maneira de se manter relevante diante o momento mais vulnerável da história dos EUA. Ao seu redor, uma população instável, de luto e com medo, que se agarrou cegamente na imagem de um líder, não importa o que ele dizia ou fazia.

Cena de Guerra ao Terror.

O cinema, como de praxe, se apoiou na Guerra ao Terror para dissecar o discurso vazio das motivações para a ocupação do Iraque, expondo diversos pontos de vista. Narrando histórias de soldados e agentes que vieram filmes bons como O Mensageiro, Soldado Anônimo, Sniper Americano, A Hora mais Escura e, o vencedor do Oscar, Guerra ao Terror. No campo político, obras como Leões e Cordeiros e o documentário Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, são importantes para apresentar visões e reflexões sobre as causas e efeitos das escolhas do governo após os atentados.

Na televisão, apesar de produtos interessantes sobre combatentes e a guerra de fato, é na parte administrativa que produtores encontraram a fórmula de sucesso tanto com a crítica, quanto com o público. Séries como Homeland, House of Cards, 24 Horas, The Good Wife e até a comédia VEEP, navegam nas águas obscuras do que são as agências de inteligência e a política ministrada em um país que sofreu um colapso com o terrorismo.

O que se vê são histórias baseadas na cultura do medo. A vigilância, a violência, a paranoia. Essas séries possuem personagens imersos em situações problemáticas, controversas e que expõem as estratégias para domar a opinião pública utilizando o sentimento fruto do terror: o medo. Sentimento esse usado para manipular e convencer, sendo base para um dos capítulos mais obscuros do desdobramento do 11/9. Ainda que seu uso não seja novidade na história do mundo.

Quando Evita e Eduardo Cunha se encontram

Duas séries mostram com categoria o que pode-se entender dos bastidores da política em momentos de instabilidade. A sátira política VEEP e o drama House of Cards. A primeira mostra os bastidores de uma vice-presidente americana. Em sua quinta temporada, depois de alguns meses no poder, Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) perdeu as novas eleições. E não foi por falta de esforços. Com diversas táticas, sua equipe tentou de todas as formas conquistar apoio de políticos e do povo. Nada como uma piada para falar a verdade sem fazer doer.

VEEP: sátira debocha da sede pelo poder.

Sem essa preocupação de livrar o público do mal estar, House of Cards foi além. Em sua quarta temporada, o jogo de poder de Frank Underwood (Kevin Spacey) é assustador. Também em eleições, as manobras de Frank (que já foram comparadas com as do deputado brasileiro Eduardo Cunha) se apoiam em ameaças e escolhas que visam impulsionar seus interesses. E, nesse jogo, a estratégia é utilizar não somente o poder como qualquer outro advento emocional.

Em uma temporada focada em sua parceira, Claire, House of Cards sintetizou que no delírio do coletivo ávido por uma boa história passional, é possível angariar votos e mais votos. Entre uma rasteira e ações populistas, Claire se tornou uma espécie de Evita Perón, personalidade santificada na Argentina e que Hollywood transformou em um musical estrelado por Madonna. E fazer essa comparação não é nenhum absurdo. Nem mesmo entre a cantora pop, Claire e Evita.

Em House of Cards, Claire manobra com o marido para angariar o posto de candidata a vice-presidente.

Em um mundo onde Arnold Schwarzenegger foi governador e milhares de outras personalidades, atores, cantores, celebridades são políticos eleitos por votos expressivos, não é difícil compreender como a sociedade vota. E isso justifica como um magnata ultra-conservador e populista como Donald Trump, graças ao seu programa de TV O Aprendiz, é hoje um dos favoritos para assumir o cargo de presidente. House of Cards parece exagero, parece forçado, mas se pensar bem, a realidade transparece as mesmas nuances caóticas e controversas da ficção.

No episódio que fecha essa temporada, Frank e Claire estão encurralados pelo que seria um novo 11 de setembro: a ameaça no nível do que representa o Estado Islâmico para o Ocidente. Além disso, a impopularidade do casal envolta de acusações de fraude e conspiração (todas verdadeiras, claro) ameaçam a vitória nas eleições. O próximo plano é óbvio: evocar mais uma vez o medo, deixando a América assistir ao declínio da segurança e liberdade durante o horário nobre com um assassinato explícito. Assim como fez um presidente há 15 anos.

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