Desculpe o transtorno, preciso falar da Mônica — Por: Eduardo

Renato Russo, compositor da música “Eduardo e Mônica”.

Conheci ela numa festa estranha com gente esquisita. O culpado pelo encontro foi um carinha do cursinho que, na época, me disse “Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir”. Conheci ela quase sem querer. Eram quase 2h da manhã (eu tava meio tonto e só pensava e ir pra casa porque sabia que ia me ferrar) quando encontrei ela numa roda com alguns amigos. Disse pra um amigo meu: “Eu não tô legal, não aguento mais birita”. E ela ouviu. E ela riu e, sabe-se lá porquê, quis saber um pouco mais sobre o boyzinho aqui que tentava impressionar.

Na festa peguei o número do telefone dela e liguei na terça-feira. Conversamos por um bom tempo e decidimos nos encontrar. Sugeri uma lanchonete perto do cursinho mas ela queria ver o filme do Godard. Nos encontramos, então, no parque da cidade, ela foi me buscar de moto. Quando ela chegou eu já me apaixonei: a tinta no cabelo revelava a cor do seu coração.

Não eramos nada parecidos. Ela é de Leão e eu, Touro. Ela fazia Medicina na UnB. De sexta a tarde ela tinha aulas de alemão, enquanto eu tirava 6,5 nas provas de inglês. Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh, dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud (termos e pessoas que, enquanto ela falava, eu fingia que conhecia). Eu gostava de novela e depois das 19h jogava futebol-de-botão com meu falecido avô Caio. Ela falava coisas sobre o Planalto Central, magia e meditação. E eu ainda tava no esquema: escola, cinema, clube, televisão (eu adorava assistir Cambalacho e Ti Ti Ti).

Começamos a namorar quando ela tinha 24 e eu 16, mas parecia que a vida começava ali. E mesmo com tudo diferente veio, de repente, uma vontade de se ver. E nós dois nos encontrávamos todo dia, e a vontade crescia, como tinha de ser. Fizemos matrícula em todos os cursos existentes: natação, fotografia, teatro e artesanato. Queimávamos algumas aulas as vezes porque a novela tava boa. Aprendi com ela tudo o que sei sobre o céu, a terra, a água e o ar. Aprendi a beber e, por causa dela, deixei o cabelo crescer. Meu primeiro emprego foi na rádio que um primo dela trabalhava. Ainda me lembro que ela se formou no mesmo mês que passei no vestibular de Jornalismo na UnB.

Nós comemoramos juntos e também brigamos juntos muitas vezes depois. Terminamos nossa casa em 92, mais ou menos quando os gêmeos vieram. Escolhemos móveis sem pesquisar se eles passavam pela porta. Batalhamos grana e seguramos legal. Foi a barra mais pesada que tivemos.

Estamos juntos até hoje. E não foi fácil. Não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: você ainda completa ela, e vice-versa, que nem feijão com arroz. Sei que, pra sempre estaremos juntos. Um dos nossos filhos, Renato, herdou todo o seu jeito de ser. Inclusive a cor dos olhos. Sua sabedoria passou e poderá ser passada pra frente.

Essa semana, pela segunda vez, assisti aquele filme do Godard. Adorei o filme porque agora assisti prestando atenção sem beijá-la a cada minuto, só no final. E quando acabou, refleti sobre tudo isso e me deu foi uma felicidade muito profunda de viver um grande amor na vida. E de ter esse amor ao meu lado até hoje.

E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?

Não falta nada.

Texto baseado na crônica “Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice”, de Gregório Duvivier.
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