Design como um mindset

Chega uma hora em que é preciso “virar a chave”

Matheus Moura
Apr 11 · 4 min read

Em muitos anos nessa indústria vital já vi, e vivi, muitas coisas.
Não. Não estou aqui para pagar de tiozão dizendo coisas como “no meu tempo que era bom” e outras baboseiras. Pelo contrário, vejo com bons olhos essa nova geração de designers mais data-driven, comprometida com resultados e que se sente confortável em adquirir conhecimentos em outras áreas periféricas ao design. E digo mais, busco inspiração neles.

Durante esses anos, observei colegas, estudantes e pessoas em geral que trabalham profissionalmente no setor de design gráfico. Por algum tempo, ainda tentava, inutilmente, catalogar as pessoas imaginando quem poderia ser ou não considerado designer “de verdade” baseado no que eu considerava ideal na minha cabeça. Uma tremenda estupidez, apesar de sempre achar que os outros faziam a mesma avaliação silenciosa a meu respeito. Superada essa infantilidade, comecei a notar que ser ou não designer não se resume a um diploma na parede ou em anos de carteira assinada. É bem mais que isso. É uma postura, uma atitude, um estilo de vida, um mindset.

Quando cheguei a essa conclusão, resolvi “virar a chave” e comecei a detectar diversos comportamentos toscos que me impediam de avançar e, inclusive, faziam com que eu me sentisse miserável fazendo aquilo que mais gosto.

Abaixo compartilho alguns desses obstáculos que fui limando da minha vida profissional e me trouxeram mais satisfação.

Focar apenas em ferramentas

Mano, eu adorava um tutorial. Fazia coleções de links e esperava sempre uma oportunidade para usar aquela action muito louca. Muitas vezes acabava encaixando um efeito só pra usar algum atributo novo da ferramenta, mesmo que não tivesse nada a ver com a proposta do briefing. Limitava as minhas criações ao que conseguia fazer com o software. O apelo as facilidades das ferramentas me distanciavam de atingir o objetivo principal, causando perda de foco e menor eficácia na solução oferecida. Para não me sentir um mero “manobrista de photoshop” desvalorizado e subestimado, resolvi investir na construção de projetos concretos e estruturados, com conceitos, objetivos e metas. Pensar em estratégias e fazer as ferramentas trabalharem para mim, e não ao contrário. Transformando jobzinhos em cases. Defendendo argumentos e comprando brigas. Deixando de mandar um jpg no e-mail e fazendo apresentações multimídia ao vivo. É trabalhoso, mas recompensador, pois até nas derrotas você sabe que aquilo tinha qualidade, que se esforçou e ainda aprendeu algo novo no processo. No fim das contas, a ferramenta que usou se torna totalmente irrelevante.

Mania de saber tudo

Chegava a ficar com os olhos doloridos de tanto virá-los a cada comentário do cliente ou de qualquer outra pessoa que não estivesse de acordo comigo. Internamente considerava todo mundo burro, pois, em uma reunião, ninguém entendia tanto de design quanto eu (o que em muitas vezes, era verdade). Aposto que esse é um sentimento comum, certo? Até hoje dia é difícil acreditar nos absurdos que ouço em reuniões. Só comecei a digerir melhor a ignorância das pessoas com relação ao meu trabalho quando parti para uma abordagem mais pedagógica. Arrogância não inspira confiança, sendo assim, é importante “domesticar” os clientes, estimular uma parceria onde ele se sinta parte da solução (mesmo quando não é). Isso também vale para sua equipe e colegas de trabalho. Se colocar todo mundo no mesmo barco, fica muito mais fácil controlar a situação e direcionar para um objetivo. Portanto, exercite a humildade sem abrir mão dos seus conhecimentos. Não espere que as pessoas te entendam se nem sequer se esforça para explicar. Evangelize!

Ignorar as opinião das pessoas

Como é fácil se apaixonar por uma ideia, sobretudo se a teve sozinho. É aquele amor de pai, cego e incondicional. Não adianta alguém aparecer para problematizar e por defeitos pois você já achou a solução perfeita por sua conta logo na primeira tentativa, afinal você é um designer e é isso que você faz. É uma delícia pensar que as coisas são assim. Felizmente, não são. Se você faz design sozinho, nem sequer faz design. Não há como desenvolver algo se não está disposto a ouvir a opinião dos clientes ou usuários. Empatia é a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Esse sentimento é impossível de concretizar sem uma conexão com outros seres humanos. Sem falar, sem ouvir, sem compartilhar e sem vivenciar, não se cria soluções de fato. Esteja aberto para se conectar com as pessoas de uma forma construtiva e sincera, absorva todos feedbacks e avalie as possibilidades. É um processo onde todos tem a ganhar.

Você pode ter todos diplomas do mundo e 20 anos “de agência” nas costas, porém, se não entendeu coisas simples como as exemplificadas acima, não está aproveitando bem seus conhecimentos e o seu potencial.

Acredito que boa parte da insatisfação de muitos designers reside justamente na dificuldade em alcançar seu amadurecimento e autoconhecimento profissional. A zona de conforto do designer normalmente é habitada por reclamações constantes, culpabilização de terceiros genéricos (o cliente, o mercado, o “sobrinho”) e sensação de estar perdendo tempo no trabalho. Analise o seu dia-a-dia. Se notar que vive frustrado e infeliz com o seu trabalho, é possível que não seja apenas devido a fatores externos.

Segure o touro pelos chifres. Chame a responsabilidade para si e só assim vai saber se é capaz de fazer mais e melhor.

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Matheus Moura

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Versado nas artes ocultas do inconformismo passivo e protesto indoor. Insatisfeito e inatleta. Designer, diretor de arte, sem noção.

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