Desumanidade

Cena de Independence Day, de Roland Emmerich

Pare um instante. Eu quero te convidar para um experimento de ficção. É bem fácil, você só precisa ler e usar sua imaginação. Não apenas para entrar na historinha, mas para tentar realmente se colocar na situação descrita, e depois responder a alguma perguntas, só para si mesmo. Garanto que não vai ser chato.

Ainda está aí? Então vamos lá:

Um belo dia você acorda e, depois de cumprir as obrigações matinais xixicocôbanhoescovadente vai dar aquela sapeada na TV ou celular enquanto toma seu café da manhã.

Quando liga a TV já percebe que o dia não vai ser como todos os outros. Visivelmente apreensivo, o âncora do jornal matutino informa que uma nave de proporções bíblicas paira sobre a Avenida Paulista. A câmera meio tremida pelo excesso de zoom mostra o enorme vulto preto cobrindo o céu da cidade, deixando os helicópteros das emissoras de TV parecendo mosquitos em comparação. Mais alguns minutos e você descobre que aquela não é a única. Existem mais naves, de igual tamanho, sobrevoando os principais centros urbanos do planeta, de Brasilia à Nova York, passando por Hong Kong e Mumbai.

Os centros espaciais de todos os maiores países não conseguem explicar como uma frota inteira de naves do tamanho de estádios de futebol conseguiu passar pelos radares sem serem notadas. Ufólogos são chamados para apresentar suas versões do fenômeno, apenas para ficar claro, em poucos minutos, que não fazem ideia do que estão falando.

Como num pesadelo criado pelo Roland Emmerich, a humanidade pára, observando os objetos flutuantes que flutuam sem emitir som nenhum.

Enquanto a mídia já organiza mesas redondas de analistas discutindo quais seriam as intenções dos ETs, pequenas portinhas se abrem, e delas saem enxames de naves menores. Isso se repete, com uma precisão AlQaediana, simultaneamente, por todo o globo.

Nem mesmo o mais rápido dos caças, o mais poderoso dos porta-aviões, o mais destrutivo dos mísseis parece fazer cócegas nas naves. Os exércitos caem rápido, e com eles as lideranças. No Brasil, uma reunião de emergência de cúpula é acionada, e enquanto os poucos ministros que não fugiram se acotovelam em cima de uma mesa, um raio cuspido por uma das naves reduz a pó toda a esplanada. PMDBistas, Petistas, Tucanos e Ticoticos no Fubá torram e viram pilhas de cinzas misturadas. O mesmo se vê em todos os centros de comando mundiais.

Em duas horas, o mundo não tem liderança.

Terminada essa fase, inúmeras naves médias descem em direção ao solo, e despejam exércitos de alienígenas mal intencionados e veículos de combate nas ruas.

Os alvos parecem bem determinados, e esses aliens parecem ter estudado. Eles começam a destruir igrejas, porque sabem que é para lá que o povo vai atrás de esperança. Depois bibliotecas e museus, porque ali está o repositório da cultura que pretendem obliterar. Começam a demolir as fábricas e empresas, porque sabem que sem trabalho os homens e mulheres não se definem nem geram os meios para sustentar sua sociedade. Matam e escravizam os homens. E então passam a prender mulheres para gerar força de trabalho para novas gerações.

Fica claro que os visitantes não estão aqui em busca de espaço, nem de conquista. Querem apenas minerar, e retirar da terra compostos que são valorosos em seu planeta natal. Uma vez que esses minerais acabem, eles seguem para outro planeta, deixando este morto.

Curiosamente, deixam os hospitais de pé. Eles sabem que se pretendem ter escravos, precisam que eles estejam mais ou menos saudáveis. Funcionando mais ou menos, os centros de saúde são poupados.

Cidade a cidade, bairro a bairro, país por país, todos caem. Caem os jardins e as favelas. Cai o litoral e o agreste. Caem os Estados Unidos e os Emirados Árabes. A África e a Escandinávia.

Por último, eles separam as crianças. As levam para as grandes naves, onde passam por triagem, recebem alimentos selecionados e são colocadas em centros que oferecem estudo, cuidado e muita diversão, sempre com conteúdos selecionados por estudiosos extraterrestres. Na verdade, 70% do tempo das crianças é gasto em jogos e atividades que mostram a grandeza da vida alienígena, e na inevitabilidade das opções que existe no futuro dos jovens. Programas de TV, experiências vivenciais e drogas são administradas de forma a deixar claro que daqui em diante essa seria a vida, e seria melhor se acostumar com ela, e aproveitar aquilo que lhes era dado.

Em 10 anos, o planeta não existe mais como conhecemos. Focos de resistência tentam se esconder e revidar, mas com o tempo, os primeiros jovens capturados eram, eles mesmos, usados para caçar os humanos remanescentes.

Fim da primeira parte da nossa experiência.

Agora que você já imaginou esse cenário horroroso, me responda:

  • Você preferia que essa invasão tivesse começado por algum país, cidade ou bairro específico? Acha que faria diferença?
  • Se estivesse numa situação dessas, e se numa explosão, sua casa caísse sobre sua família, e alguém se oferecesse para remover contigo os escombros, você olharia primeiro para saber se a ajuda viria de um negro, branco, oriental, cristão, muçulmano ou alguma coisa parecida?
  • Se você estivesse na posição de ajudar alguém no meio do bombardeio, primeiro olharia se essa pessoa é de algum grupo social, étnico, preferência sexual ou gênero que lhe agradaria mais?

Eu pergunto isso com muito cuidado, porque, queiramos ou não, muito do que eu descrevi já está acontecendo. Tirando as grandes naves e os ETs, é claro, estamos passando, e já tem algum tempo, por situações assim.

Todos os dias, igrejas do mundo inteiro são atacadas, principalmente por outras igrejas. Líderes de uma vertente religiosa tentam destruir outras vertentes sob a alegação de que elas ofendem o deus que veneram. Na verdade, todos sabem que fieis são as melhores moedas de troca do mundo. A religião e a fé, que sempre foram parte da cultura de qualquer povo, são jogadas na latrina do poder e do ódio.

Homens e mulheres são mantidos prisioneiros de suas próprias rotinas, como hamsters que correm em rodinhas que vão gerar dinheiro para comprar novas rodinhas, mais bonitas. Temos cada vez menos tempo, vivemos cada vez mais isolados, sem senso de comunidade real, imersos numa espiral de consumo extremo que só faz se realimentar e nos machucar.

Mesmo com toda evolução, ainda existem mulheres que sofrem pela simples condição de serem mulheres, relegadas a serem meros aparelhos reprodutores ou como simples máquinas de prazer para homens.

Nossos museus e bibliotecas, e isso é um fenômeno muito brasileiro, já estão em petição de miséria, muitos deles fechando as portas sem previsão para abrir. Não existe forma mais simples de dominação do que matar a cultura de um povo. Reescrever sua história, adequar personagens às narrativas.

Hospitais deixaram de ser um local de promoção da saúde. Passaram a ser um tipo de procissão de doenças. Amontoadas, as pessoas aguardam bovinamente sua vez, e são mal tratadas, jogadas pelos cantos, como se fossem mendigos de um sistema que no fim, elas mesmas financiam. Deixar gente desesperada e oferecer o mínimo. Não te dão, mas não te tiram: é maquiavelicamente eficaz.

Os aliens não estão explorando nosso planeta atrás de riquezas. Nós mesmos estamos. E fazemos isso com gosto, sem pensar no amanhã. Para alimentar nossa fome de consumo, chegamos inclusive, veja bem, a colocar gente em situação de escravidão para isso. A diferença é que, quando os recursos acabarem, é aqui mesmo que vamos ficar. A questão é: como?

Nossos jovens nunca foram, com o perdão do trocadilho, tão alienados. Enquanto se isolam do mundo, imersos em seus jogos e redes sociais, o mundo pega fogo. Privados de senso crítico, de vivências reais, de experiências enriquecedoras, viram presas fáceis para quem quer lhes sugar a existência, e principalmente, a grana.

As grandes diferenças entre minha pequena peça de ficção e o realidade de hoje é quase que simplesmente a velocidade dos acontecimentos e o planeta natal dos invasores. Parece refrão de reggae, mas enquanto não percebermos que os problemas que estamos inventando vão atingir a todos, independentemente da igreja que frequentamos ou de nossas companhias sexuais. Se não conseguimos ser irmãos na abundância, é hora de sermos na tragédia.

Vários países só se descobriram realmente como um povo depois que tiveram um algoz em comum. Algum invasor que não quer saber se você é rico ou pobre, preto ou branco, mulher ou homem. Apenas que está ali para ser conquistado. A europa é cheia destas histórias. No Brasil, esse senso de patriotismo é quase zero. Só usamos nossa bandeira em manifestações, e de quatro em quatro anos, na Copa do Mundo.

Devemos rezar por uma guerra? Ou por uma invasão alienígena?

Alan Moore sugeriu, em Watchmen, o quadrinho seminal da década de 80, que somente uma ameaça externa nos uniria globalmente. Pena que esses aliens são tão tímidos. Só alguma prova de sua existência talvez já mudasse nossa forma de ver a vida.

Quanto às perguntas, se você respondeu SIM, a qualquer uma delas, talvez você se identifique mais com os ETs da história. É bom pensar seriamente a respeito dos seus conceitos do que é a humanidade.

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