Deus te proteja

Uma história sobre maioridade e violência na periferia brasileira.

- Que Deus te proteja, te ilumine, te leve e traga de volta, meu filho.

Essa era a frase que a mãe do Paulo falava todas as vezes que ele saía de casa. Ela desejava o bom retorno do filho ao lar, pois o medo de perder mais um filho era seu companheiro diário. Mara havia passado pela maior dor que uma pessoa pode viver. Perdeu dois filhos de uma só vez. Eram dois meninos gêmeos recém nascidos. Sua expectativa durante a gravidez era enorme. Eles seriam os primeiros filhos, netos e ainda meninos. E eram dois. A perda dos gêmeos foi um duro golpe para uma pessoa que também já havia vivido sem o pai por quase toda a infância. Ela questionava se o seu destino seria perder os que mais amava e assim viver longe deles.

Esse trauma ela nunca superou e manteve a possibilidade de uma nova tragédia presente em seus pensamentos e ações, que era acentuado pela brutalidade do subúrbio carioca. Dois anos após a perda dos meninos, nasceram dois novos homens, com a distância de apenas um ano e poucos meses entre eles: Paulo e Pedro.

Com quatro anos, curiosamente eles se pareciam tanto ao ponto de serem confundidos com gêmeos. Tinham semelhanças que iam além da genética: usavam roupas iguais que Mara escolhia cuidadosamente, o mesmo penteado e conviviam sob a ameaça da perda. Viviam à sombra dos irmãos natimortos. Era comum ouvir de pessoas que os viam na rua, a pergunta: São gêmeos? E Mara com aquele ar de alegria incomparável e carregando uma profunda sensação de medo da perda, respondia que não.

A sombra dos irmãos gêmeos sempre acompanhou Paulo. Era como se o lugar de filho mais velho tivesse sido roubado dos seus irmãos gêmeos, os legítimos. Para ele, esse lugar não era real, Paulo se sentia um substituto, uma espécie de filho bastardo. Foi difícil conviver com este sentimento, principalmente quando seu pai o deixou em busca de um trabalho em outra cidade. Foi sua primeira grande perda na vida e a sensação de desamparo se acentuou. Se sentia órfão de um pai vivo, que pouco falou com ele após sua saída de casa. Na época, ele tinha apenas dez anos.

Seu pai era um nordestino que veio para o Rio de Janeiro tentar a vida na cidade grande e sua mãe uma linda mulher filha de um imigrante português que chegou ao Brasil em 1933 no convés de um navio.

Ao chegar no Brasil, o português bom de papo trabalhou como garçom e atendente de uma loja de roupa. Casou-se com uma mineira de olhos azuis que havia chegado há pouco para estudar na capital. Como todo português trabalhador, se destacou no pequeno comércio e rapidamente se tornou o funcionário de confiança do patrão, passando a cuidar do caixa da loja.

O avô de Paulo foi um homem forte, daqueles que deixa sua marca por onde passa e foi a maior referência daquela pequena família. Como consequência do preconceito e da violência nos bairros mais pobres do Rio de Janeiro, uma fatalidade aconteceu. Quando Mara tinha apenas dez anos, seu pai foi brutalmente assassinado enquanto fechava o caixa da loja em Madureira e Mara foi a primeira a vê-lo esfaqueado sobre o balcão. O que se falou na época foi que a causa da morte era devido um rabo de saia que o portuga tinha. Correu a língua pequena que era um romance com a mulher do patrão. Tinha fama de mulherengo e era comum vê-lo em bares bebendo até tarde com as freguesas da loja. Essa foi a história que contaram para Mara e ela nunca soube se era verdadeira.

A cena que Mara presenciou aos dez anos jamais saiu da sua cabeça, mesmo adulta, já sendo mãe de dois filhos jovens, um com dezesseis e o outro com dezessete, ela era assombrada por uma história de perdas e ver o pai morto a facadas, junto com a perda dos meninos gêmeos mudaram sua vida para sempre e também a do seu filho mais velho.

Paulo estava prestes a completar dezoito anos e como era a tradição no subúrbio, iria visitar um puteiro em Copacabana. A maioridade era a carta de alforria da molecada. Pegaram o ônibus 455 em direção a Zona Sul. Haviam escolhido um inferninho ao lado da tradicional boate Help. Eram oito moleques, todos com dezoito anos ou prestes a completar. Aqueles que não eram de maior tinham uma carteira de identidade falsa. Chegaram cedo. Por volta de oito da noite já estavam bebendo em um boteco ao lado da boate. Ficaram lá até meia noite na espera da virada para o dia do aniversário do Paulo.

Chegaram a meia noite e cinco no puteiro. Luz avermelhada, fumaça e cheiro de cigarro. Uma loura magra de peitos rosados dançava nua sobre um pequeno palco, vestia apenas uma pequena calcinha preta enfiada na bunda e uma máscara que lhe cobria os olhos. De frente para ela, dezenas de homens tentavam passar a mão no seu corpo nu. Durante a dança sensual, a puta percebeu que o grupo de amigos festejava o aniversário de um dos meninos, cruzou o olhar com os moleques suburbanos e chamou Paulo para dançar com ela em cima do palco. Eles vibraram. Nervoso e envergonhado, Paulo subiu ao palco e sem jeito ficou cercando a loura com passos tímidos. Ela se aproximou rebolando e tirou a camisa do recém adulto, rodou no alto e jogou para a plateia que atônita assistia ao show, a boate foi ao delírio. Poupo a pouco foi tirando a roupa do Paulo. Bêbado ele sentia o medo ainda mais intenso com a possibilidade de ter que transar com a prostituta na frente de toda a boate.

A dançarina tirou o cinto e a calça do moleque, deixando-o apenas de meias pretas e cueca branca. A meia tinha um furo no dedão, bem que sua mãe sempre recomendou para que usasse meias e cuecas novas, preocupada com a vergonha que seria no caso de um acidente na rua e da necessidade de ficar sem roupa frente a frente a um médico ou policial. Dessa vez ela tinha razão, mas não foi um médico, nem um policial que viram Paulo exposto com o corpo magro de sessenta e cinco quilos com uma meia velha, foi toda a plateia do inferninho em Copacabana.

Os homens da boate riam e gritavam: “Tira, tira, tira a cueca dele!” com a ansiedade de quem queria presenciar uma cena de sexo ao vivo entre Paulo e a dançarina. Foi quando a loura arrancou a cueca do Paulo com os dentes. A surpresa é que ele estava com o pau mole e virou motivo de chacota no puteiro. Tentou cobrir, em vão. De meia furada e pau mole.

“Viado! Não gosta de buceta! Cuzão!” foram os gritos que ele ouviu. Insistente, a loura começou a chupar seu pau, mas Paulo tomado pelo medo, não conseguia ter prazer com a submissão daquela mulher exposta com ele naquela situação, que mais parecia um estádio de futebol lotado que vibra para o gol sair. Ele ficava cada vez mais nervoso enquanto o clima no puteiro era de euforia.

Daniel estava com os amigos festejando o aniversário do Paulo, era o mais velho e abusado do grupo, com a auto-estima elevada, subiu ao palco nu, com o pau duro e, para não deixar amigo passar vergonha, tirou a calcinha da puta com violência e tentou come-la a força. Ela não aceitou. Há certos códigos de éticas entre prostituas e seus clientes que precisam ser respeitados, um deles é transar a força: estuprar. Uma pequena briga entre Daniel e a Loura se iniciou em cima do palco. Ela cuspiu no seu rosto e ele revidou com um tapa na cara, fazendo com que a dançarina caísse no chão. A boate silenciou. A puta, chorando, correu para trás do palco. Sobraram então os dois, Paulo e Daniel nus, que desceram logo em seguida. O show tinha que continuar e foi assim até às seis da manhã, sem que ninguém visse a loura novamente.

Todos os amigos que foram celebrar o aniversário de Paulo transaram naquele dia, exceto Paulo, que sentia vergonha por ter sido exposto para os seus melhores amigos. Às sete da manhã, resolveram ir embora e quando foram pagar a conta, veio a surpresa. Um negão alto e forte, que parecia ser o segurança da casa, não deixou os meninos saírem.

O sol já havia raiado. Era verão no Rio de janeiro e dentro da boate estava quente e húmido. O cheiro de mofo misturado com cigarro era forte. Todos já haviam deixado a inferninho, exceto algumas putas que dormiam espalhadas nos sofás. A música que tocava era Amada Amante, do Roberto Carlos. O negão metido a segurança mandou os moleques esperarem. Nessa época não havia celular e Paulo não avisou sua mãe que ficaria na rua até o amanhecer. Era sua primeira noite como maior de idade fora de casa. Para Mara, que tinha o hábito de levantar às seis para conferir se seus filhos estavam em casa dormindo, foi uma surpresa levantar e não encontrar o mais velho na cama. Já eram sete e meia da manhã e ele nunca tinha feito isso. O desespero tomou conta dois dois. Mara por ter a certeza de ter perdido mais um filho e Paulo, pelo que estava acontecendo dentro do puteiro, mas também por não saber do que sua mãe seria capaz ao descobrir que ele ainda não estava em casa.

Paulo nunca soube o nome do Deus que sua mãe pedia para traze-lo de volta para casa, mas sabia que um dia precisaria dele. E esse dia chegou. Começou a pedir ao Deus de Mara que o tirasse dali, mas com um tapa na cara foi interrompido. Junto com a pancada, veio a pergunta de um policial militar que havia entrado na boate: “tá rezando, rapá? Vocês gostam de esculachar as meninas? Cala a boca e me passem a identidade de vocês.”

Paulo nunca tinha rezado antes.

Entre os meninos, havia dois com dezessete anos e identidades falsas e logo os policiais perceberam. Foi aí que Paulo teve a certeza de que morreria, a mesma que sua mãe sempre acreditou que aconteceria precocemente com ele.

Um dos policiais chamou a Andrezza, a loura dançarina que tinha sido agredida por Daniel.

Assim que ela chegou, o PM perguntou: “Qual deles te bateu?” Sem hesitar, Andrezza apontou: “Foi aquele fortinho ali.” O PM então pediu para Daniel se levantar, mandou ele tirar a roupa e virar de costas. Enfiou o cano do fuzil na bunda do moleque, e perguntou se ele era homem. Chorando Daniel pedia desculpas a Andrezza que via tudo e não esboçava nenhuma reação. Esse terror com os meninos do Méier durou até o final da manhã. Torturados por Policiais Militares dentro da boate, humilhados e com sede, os policiais colocaram os oito garotos no camburão, que mais parecia um navio negreiro. Abarrotado de meninos, sem ventilação e sob o sol de quarenta graus do Rio de Janeiro, rodaram durante horas pela cidade ameaçando mata-los e joga-los em um valão, até mesmo os menores de idade estavam no camburão. Depois de tanto desespero foram liberados na Baixada Fluminense, exceto Daniel, que seguiu sozinho com os policiais.

Saindo da jaula ambulante, a primeira coisa que Paulo queria fazer era ligar para casa. Ele só pensava na sua mãe. Achou um orelhão em frente a um boteco em uma esquina da Baixada e ligou. O telefone tocou e ninguém atendeu. Com o coração batendo forte e as mãos suadas que descolavam freneticamente os adesivos com telefones de putas colados dentro da concha azul ouvia o telefone chamar. Tentou mais duas vezes. Nada. Ninguém atendeu.

Já era meio dia, o sol estava a pino e ele não conseguia falar com sua mãe. Pegaram um ônibus em direção ao Méier e depois de uma hora chegaram. Ansioso e com olhos sedentos de quem não havia dormido, Paulo subiu correndo pelas escadas até o terceiro andar do prédio onde morava . Com as mãos trêmulas abriu a porta com pressa e encontrou sua mãe caída no chão da cozinha, ajoelhou-se ao seu lado, gritou pelo seu nome sacudindo seu corpo, mas ela não respondeu, ao lado dela encontrou duas caixas de antidepressivo abertas e comprimidos espalhados pelo chão.

Deus havia trazido Paulo de volta para casa.

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