Ilustração de Agnes-Cecile

Tem alguém me puxando. Tem alguém querendo que eu fique.

Já falei, eu quero voar!

E alto.

Não quero plainar como uma pena. Quero voar. Quero fazer do vento direção.

Quero deixar de ser pedra e ser pássaro.

E se eu tiver que ser pena antes para ser pássaro? Sempre se passa por algo meio termo antes de chegar ao que se quer ser? E quanto tempo tenho que ser meio termo para ser termo inteiro?

Saco! Não quero ser meio termo. Quero voar.

Quantas vezes tenho que repetir que quero voar? Talvez eu repita tanto isso, acreditando que de tanto repetir, aconteça.

Esta doendo. Dor dos infernos!

Inferno não, porque inferno não é dor. Pelo menos não o que eu acredito que seja inferno.

Inferno é perder-se de si mesmo e não conseguir voltar. É acreditar no que se não é, e esse não ser passa a ser o que se é, sem culpa de deixar de ser o que se é.

Talvez a loucura tenha um pedaço do inferno. Seria como estar sem estar. Mas se não esta lá por inteiro, a esperança de sair do inferno é maior. Seria o meio termo do inferno. Estar e não estar. No inferno, existem outras pessoas que acreditam ser o que não são, e a sociedade do inferno facilita você a acreditar que você é aquilo que pensa que é, mas que na verdade não é, e pronto, você já faz parte do inferno.

Quando se tem outras pessoas fazendo você acreditar na teoria de que você é aquilo e apenas aquilo, você acredita, porque sua mente está tão desorganizada que qualquer confirmação daquilo que você não tem certeza, passa a ser certo.

Quem esta no inferno, não sabe que esta la.

Talvez a pessoa que esta me puxando, querendo que eu seja pedra, seja eu mesma.

Talvez eu novamente esteja me sabotando. Colocar a culpa no outro é mais fácil do que se culpar das suas próprias doenças. Todo mundo sabe disso (ou pelo menos os seres pensantes sabem que culpar o outra dói menos). E essa dor dos infernos, que não é do inferno, dói porque sei que minhas doenças são culpas minhas. Alem de ter a doença, que já é dolorosa por si só, ainda tenho uma outra dor…

A culpa.

E a dor da culpa é maior do que da própria doença.

Estou doente. Chama-se amor não correspondido.

Pode matar se não tiver cuidado. Mas eu ei de viver para contar o que tem do outro lado do infinito. A morte em vida é a chamada restruturação do ser.

Renovar o que se é e praticar o ser que se quer ser e ainda não é.

A pratica é que faz o mestre, já dizia o velho provérbio. E o mais difícil é começar, ou recomeçar, como quiser. Mas como diz um amigo meu muitas vezes a coisa tem que ser forçada primeiro, para depois ser natural. Ou algo semelhante a isso. Mas a ideia é essa.

Richard Bach em Ilusões diz:

Então, só porque alguma coisa é difícil, você desiste de fazê-la? Andar a principio era difícil, mas você praticou e agora faz com que pareça algo fácil.

No começo é difícil, tem que forçar mesmo. Mas com a prática, você vai acabar fazendo naturalmente. Por isso o começo, ou recomeço, é tão difícil. Porque é forçado.

Não quero deixar de ama-lo.

Não! Nunca! Quero que esse amor mude para uma outra forma de amor. Que eu consiga amá-lo sem que doa a mim. Porque se dói é que algo esta errado, fora do lugar ou até mesmo danificando alguma coisa. A dor é essencial para o processo de cura. É ela que avisa que algo esta errado, e a partir daí se faz o que for necessário para se curar o que esta doente. A dor é a sirene, e não o paciente na ambulância.

Antes de escrever aqui, tentei colocar uma música para dar aquele som ambiente, sabe?

Algo tranquilo, calmo. Tinha colocado Yiruma, um pianista muito bom. Mas começou a me irritar e tirei. Não era calma que eu queria. Tinha que ser no mínimo Ratos do Porão. Gritos é o que mais se aproxima do que eu tenho por dentro. Musica clássica só daqui a um tempo.

– Respira fundo cinco vezes vai… 1, 2, 3, 4, 5… Escutou?
– O que?
– Seu coração.
– É, ainda bate forte.
– Mas agora você escuta ele.