Ilustração de Agnes-Cecile
– Respira fundo cinco vezes vai… 1, 2, 3, 4, 5… Escutou?
– O que?
– Seu coração.
– É, ainda bate forte.
– Mas agora você escuta ele.

As vezes ele grita. Quase fico surda

As vezes fala baixo e suave. Hoje a noite ele gritava. Ontem também gritou. Acordei com ele disparado as 2 horas da manhã. Foram duas madrugadas inquietas. Sofridas. Tentava ignorar os gritos, fingia que não os ouvia. Na primeira noite com gritos eu fui forte e consegui não me apavorar tanto. Mas no decorrer do dia os gritos eram mais fortes, davam pequenas pausas e voltavam. No final do dia já me doía a cabeça e não conseguia sair da cama.

Consegui dormir com muito esforço, mas acordei com os berros do coração novamente. Olhei para o relógio e eram duas e treze da manhã (quase a mesma hora dos berros da madrugada anterior). Eu estava fraca com os berros do decorrer do dia e novamente senti inveja da minha cama.

Chorei

Quarenta minutos de choro incensante. Quando consegui parar de chorar e fui me olhar no espelho, vi a mulher mais feia do mundo.

Meus Deus, salve essa mulher! Imagine uma mulher triste e lembre-se que

tristeza não deixa ninguém bonito.

Olhos inchados e vermelhos, cabelos em pé e um ar de fundo do poço. Desejei que ele nunca me visse assim. Deveria ter desejado não estar assim. Mas o desejo foi de que ele nunca me visse assim.

Ainda escuto os berros

ainda me dói a cabeça, ainda quero voltar para cama e ainda quero me afundar nela. Mas se eu fizer isso hoje, talvez eu não levante tao cedo. E eu não quero. Quero poder ficar triste, escutar berros e sentir dores de cabeça; e mesmo assim não precisar parar a vida por causa disso. Mas sinto que estou parada numa estação de trem. Além da próxima estação ser muito longe, o trem esta quebrado e terei que esperar o conserto. Eu nem sei quanto tempo vai levar.

Respiro fundo

volto para casa, e respiro mais fundo ainda, até chegar a hora de pegar o trem e ir para a próxima estação.

Qual é a próxima estação? Não sei.

Descobrirei quando chegar lá.

A dois dias comprei uma flor para mim

Do nada. Eu fui paquerada por ela. Ela me olhava incessantemente.

Linda!

Uma rosa vermelha, aveludada, semi aberta e com um brilho visto apenas por mim. Eu não conseguia parar de olhar para ela. Não tive dúvida, ela era minha. Comprei e coloquei ela no meu quarto mesmo sabendo que flores não duram nada comigo. Eu nunca soube explicar o porque (parece que comigo elas duram menos). Mas pasme; essa flor continua exalando beleza e perfume.

Mesmo no meu mar de tristeza

essa flor veio com ar de esperança. Esperança essa que quase se afoga na fúria desse meu mar. E essa flor me faz lembrar que

a esperança ainda esta lá.