Platoon

Diálogo sobre a regulamentação da profissão de designer

Por Lucaz Mathias e Matheus Moura

M: Mano, você viu?

M: O pessoal já começa a perder a linha…

L: Não sabia que estava nesse pé (risos). Que bonito.

M: Acho infantil. Se fosse aprovado estariam super felizes. Agora que não foi dão nome aos inimigos do design. Ou seja, só sou seu amigo se concordar comigo. Se tivessem aprovado, estava tudo lá tirando “selfies” sorrindo com a Dilma.

L: Trecho do veto:

“Logo na primeira leitura é possível observar a falta de menção à criação de um órgão (no Brasil normalmente um Conselho) que zele pela prática da profissão dentro de princípios éticos claros e que resguarde a sociedade da eventual má prática ou da prática ilegal da profissão. Ou seja, o projeto visava apenas delimitar um mercado de trabalho para um grupo profissional”.

M: Então, o governo não é bobo. Não deixam brechas pros outros roubarem, só eles próprios. Não admitem concorrência.

L: Exatamente.

M: Não existe uma classe política de designer. Parecem veteranos de humanas tentando fazer as coisas do seu jeito. Infelizmente, a “máquina” não funciona com esses operadores.

L: Cara, aí discordo de você. Os caras envolvidos são extremamente políticos, no sentido brasileiro da palavra. Fazem lobby como ninguém. Negociam bastante.

M: Mas o que tem para oferecer? O que “trazem para a mesa”?

L: Então, aí que está. A moeda de troca foi pouca, mas isso não quer dizer que não sejam políticos. Quer dizer que não tiveram representação política suficiente.

M: Politicamente não representam muitos votos nem grande poder econômico.

L: O projeto é do Penna do PV, partido pequeno. Se o projeto fosse proposto por um PMDB ou PSDB, passaria.

M: Quando falei de classe política, me referi aos políticos no mal sentido (oportunistas, interesseiros, etc).

L: Então no sentido ruim, eles são bons. Só não bons no sentido de mobilização.

M: Exato. Talvez até por não terem muito a oferecer, não dão grande margem para serem corrompidos entrarem no “esquema”.

L: Cara, até porque a regulação é só lobby mesmo. Uma tentativa de criarem mais uma associação encostada no governo, como um conselho nacional, e poder assim adquirir verbas de outras formas, além dos sócios. Isso é realmente inconstitucional.

M: Isso são os primeiros passos para o sindicalismo.

L: Não vejo nada de sindicalismo aí, cara. Eu vejo como uma tentativa de mamar nas tetas. O que é bem diferente do conceito sindical.

M: (risos) Estava usando sindicalismo no mal sentido. Máfia e tal.

L: Ah, sim.

M: Sinto que os estudantes do design que irão se formar e nós, profissionais do setor, não seremos os principais beneficiados com a regulamentação.

L: De jeito nenhum. Se assim fosse, você pode apostar que, mesmo detestando o governo do PT, eles não vetariam afinal a política deles é mais social. Mas aí também não teria passado no senado, não seria interessante para eles financeiramente. A gente vive hoje um ciclo vicioso: O legislativo impede o governo de trabalhar. O governo cede a pressão e compra o legislativo. O legislativo usa essa compra, esse suborno, para colocar o governo como corrupto e tentar derrubar o governo. O governo com última cartada ameaça divulgar que a ideia foi do legislativo, transferindo a culpa e nada anda. Simples. Com o design não é diferente. O legislativo aprovou um projeto de lei que beneficia poucos. O governo disse não. Agora, se o projeto tivesse força política, iria de volta: ou aprova ou verá as consequências.

M: É, pouca representatividade.

L: Aí eu te pergunto, a quem realmente serve a regulamentação? O que mudaria de verdade?

M: Sinceramente, consigo entender a proposta de regulamentação do designer tão bem quanto consigo entender a regulamentação de qualquer profissão, porém, dentro dessa regulamentação, especificamente, não há nenhum artigo que não dificulte, controle ou proíba qualquer pessoa de exercer funções e trabalhos dentro do campo de design, desde que ela não se denomine “designer”. Ou seja, a regulamentação regula o que? O título? Regula o designer enquanto ignora todos outros profissionais que podem trabalhar no seu campo sem nenhum controle?
Vejamos um caso: o designer foi regulamentado. Uhu! Tenho um piso salarial, meia dúzia de direitos e um sindicato. Arrumo um emprego em uma agência. Na hora da contratação me informam que serei registrado como diretor de arte. E agora, o que faço com os direitos adquiridos pela regulamentação?
Essa “falha” na regulamentação praticamente impede os avanços que poderiam vir depois da sua aprovação. Um projeto de uma construção precisa obrigatoriamente ser assinado por um arquiteto para receber alvará da prefeitura. Esse arquiteto tem um diploma e um registro.
Como podemos exigir direitos similares se qualquer pessoa pode assinar um projeto de design, desde que não assine com a denominação “designer”. Chego a pensar que parecer ser mais proveitoso não ser designer, do que ser.

L: É o que eu dou risada todo dia, é um raciocínio infantil e até mesmo elitista. Imagina, antes tínhamos os advogados porta de cadeia, agora teremos os designers porta de agência.
Além disso, tem dois pontos que me incomodam muito. O fato de excluir os ensinos técnicos, profissionalizantes e qualquer outra forma de geração de currículo acadêmico em detrimento do universitário. Isso me faz entender porque uma parcela acadêmica está tão a frente de um problema de mercado. Seria um novo argumento de venda?
O outro ponto, quem vai verificar isso? Um conselho? Uma associação como as que já temos hoje que não cagam não desocupam a moita? Acho que, como designers, deveríamos andar para frente e não ficar sistematizando esquemas para nos proteger de nós mesmos.


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