Diálogos possíveis
O encontro entre Alice Munro e Pedro Almodóvar

O filme mais recente de Pedro Almodóvar, Julieta (2016), é uma adaptação de três contos da escritora canadense Alice Munro. Quando duas forças contemporâneas tão distintas se encontram, é natural que o anúncio seja recebido com entusiasmo, mas também com apreensão.
Em 2013, Alice Munro recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A densidade de suas personagens e a complexidade de suas narrativas renderam comparações com Tchekhov. Munro se tornou uma das principais referências do conto contemporâneo na literatura mundial.
De seus livros, um dos mais comentados é Fugitiva (2004), publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros, com tradução de Pedro Sette-Câmara. É nessa antologia que estão os contos de Juliet, personagem que inspirou Almodóvar: “Ocasião”, “Daqui a Pouco” e “Silêncio”. Juntos, os três somam 112 páginas. Não me parece exagero considerá-los, em conjunto, como um pequeno romance.
Sabemos que na comparação entre livros e filmes, os livros costumam sair ganhando, especialmente se o filme é avaliado seguindo o critério de fidelidade à obra. Mas o crítico Ismail Xavier, professor de Cinema da Universidade de São Paulo, lembra que o filme deve ser apreciado como uma nova experiência. O lema deveria ser “ao cineasta o que é do cineasta, ao escritor o que é do escritor”, escreve Xavier no ensaio “Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema”.
As comparações entre livro e filme devem valer antes como “um esforço para tornar mais claras as escolhas de quem leu o texto e o assume como ponto de partida, não de chegada”, argumenta.
Afinal, livro e filme estão distanciados no tempo; escritor e cineasta não têm exatamente a mesma sensibilidade e perspectiva, sendo, portanto, de esperar que a adaptação dialogue não só com o texto de origem, mas com seu próprio contexto, inclusive atualizando a pauta do livro, mesmo quando o objetivo é a identificação com os valores nele expressos.
No caso de Julieta, embora Munro e Almodóvar sejam contemporâneos, habitam universos diferentes — geograficamente, culturalmente, esteticamente. Portanto, ao adaptar os contos, o cineasta naturalmente teria que modificá-los. Aceitar essa perda, ou transformação, faz parte da conversa.
O filme não encantou nem público, a julgar pela bilheteria, nem a crítica: acusaram Almodóvar de ter feito uma caricatura de si mesmo e, ao mesmo tempo, de não ter respeitado a obra de Munro. Para alguns, ele teria falhado tanto em fazer uma homenagem aos contos quanto em construir uma nova versão autoral.

Discordo de ambas acusações: embora tenha encontrado um Almodóvar mais contido, eu o reconheci durante todo o percurso. O cineasta fez escolhas maduras e acertou no tom, sem exageros ou faltas. Reconheço Juliet em Julieta, mas noto que são mulheres distintas. O modo como Almodóvar deslocou o enredo do Canadá dos anos 60 para a Espanha dos anos 80, bem como a nova costura que fez dos contos, garantiu frescor ao filme sem perder o elo com a leitura original.
O cineasta também acertou na escolha do elenco: tanto Emma Suárez como Adriana Ugarte fazem um bonito trabalho ao interpretar a personagem na juventude e na maturidade, respectivamente. As atuações são sensíveis e comoventes.

Outro acerto foi a demarcação da maternidade como grande tema do filme. A questão também está presente nos contos, mas a maneira como o roteiro foi construído lhe deu um contorno particular até mesmo no conjunto da obra de de Almodóvar, que costuma retratar antes a potência das mães do que sua fragilidade, e com Julieta escolheu uma via com mais nuances.

Já o mundo interior de Juliet, tão bem retratado nos contos, não encontra os mesmos recursos de representação no cinema. Mas as cenas em que Julieta escreve em seu caderno funcionam como boa alternativa.
Nesse sentido, Julieta guarda semelhanças com outra obra literária: A Amiga Genial, de Elena Ferrante. Como na tetralogia de Ferrante, a protagonista de Almodóvar também estudou literatura clássica e, como Julieta, escreve para corporificar a personagem que está ausente, uma mulher que se constitui em relação à outra. Assim como a existência de Elena Greco (a narradora de Ferrante) está emparelhada à da amiga Rafaella Cerullo (Lila), a de Julieta está ligada à de sua mãe, e depois também à de sua filha, Penélope nos contos e Antía no filme.

Outro destaque é a atuação de Rossy de Palma como Marian, uma espécie de governanta detestável que remete à Rebecca, A Mulher Inesquecível (1940), de Alfred Hitchcock. Há outras referências cinematográficas e literárias, como à Patricia Highsmith, autora do romance Pacto Sinistro (no original Strangers on a Train), que inspirou outro clássico de Hitchcock no cinema, em 1951.
O borrão entre gêneros cinematográficos próprio do cinema de Almodóvar continua presente em Julieta, que é quase um suspense dramático — menos do que A Pele que Habito (2011), mas digamos que na sua esteira. Em muitas passagens, o diretor faz uso de elementos narrativos próprios do suspense que se arranjam muito bem na estrutura do filme.
Julieta é principalmente uma bonita história de amor entre mulheres. Assim como a narradora da Tetralogia Napolitana escreve para se reaproximar da amiga de infância desaparecida, Julieta escreve para resgatar a filha, e também é resgatada por ela através da escrita, ao receber uma carta. Na carta, a filha mostra, mais uma vez, como os papéis são intercambiáveis: ao se tornar mãe e vivenciar uma perda, Antía entende o sofrimento que pode ter infligido a Julieta ao desaparecer. É nesse lugar, entre ser filha e mãe, que o reencontro com sua própria mãe se torna possível.
O final de Munro, ao contrário, é mais desolador.

