Svetlana Alexievich: um Nobel para o verdadeiro jornalismo

“Destino é a vida de um homem, história é a vida de todos nós. Eu quero narrar a história de forma a não perder de vista o destino de nenhum homem.”

Dia 2 de outubro de 2015

Leio um artigo que traz uma lista com os favoritos à nomeação do prêmio Nobel de Literatura. Descubro que o vencedor (ou vencedora) será mencionado na quinta-feira próxima, dia 8, em Estocolmo. Vou direto a lista e me deparo com alguns nomes conhecidos. Outros apenas reconheço.

Lembra a relação que criamos com o vizinho que mora ao lado, no nosso mesmo andar. Reconhecemos facilmente sua presença ao vê-lo, mas não vamos além disso. Talvez não saiba nada além do seu nome.

Haruki Murakami (lembro de 1Q84), Philip Roth (penso em Complexo de Portnoy e na leitura recente de Animal Agonizante) e Joyce Carol Oates (Pássaro do Paraíso). Esses são os nomes conhecidos. Ngugi Wa Thiong’o, Jon Fosse e Amos Oz são os nomes que apenas reconheço. São os vizinhos de estante de meus autores mais íntimos. A minha torcida era toda para Philip Roth.

Quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Academia Sueca surpreendeu. Svetlana Alexievich, de 67 anos, foi anunciada vencedora do Nobel de Literatura 2015. A bielorrussa, escritora e jornalista é por ora, um nome estranho aos leitores brasileiros — existe apenas um trabalho dela traduzido no Brasil (Vozes de Tchérnobil, pela Companhia das Letras). Mas a surpresa foi só minha. Svetlana era apontada como um dos principais nomes para os “especialistas” em Nobel, fiquei sabendo.

A descoberta

Pontos da biografia e da obra de Alexievich acenderam-me uma curiosidade que já estava pré-concebida ao ler o nome de uma bielorrussa. A Bielorrúsia é vizinha da Ucrânia ao sul, da Rússia ao nordeste, Polônia ao oeste e da Letônia à noroeste. Teve sua independência declarada em 1991, apenas. Não é necessário um grande conhecimento de geopolítica para imaginar a movimentação recente nessa área — pensando no período da Segunda Guerra Mundial até o fim da União Soviética. Precisei buscar mais informações.

Filha de professores rurais e com formação em jornalismo na Universidade de Minsk — capital da Bielorrúsia — a escritora não se considera uma jornalista. Mesmo não sendo reconhecida como uma produtora de prosa ficcional, Svetlana sempre lembra que seu trabalho vai além da informação. Pesquisar sobre o trabalho dela é, porém, repensar o papel do jornalismo e problematizar a negação da bielorussa à prática jornalística.

Svetlana Alexievich, de 67 anos, foi anunciada vencedora do Nobel de Literatura 2015 (imagem: arquivo de Alexievich)

Jornalismo ou literatura?

Em seu livro de estreia A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (1983) e em sua obra mais reconhecida, traduzida no Brasil, Vozes de Tchernóbil (1997), Alexievich trabalha com o que sempre marcou sua carreira. Escreve relatos. Na primeira obra ouviu mulheres que participaram da Segunda Guerra de forma direta ou indireta. Na sua magnum opus, trouxe monólogos de cidadãos afetados pelo impacto do maior desastre tecnológico do século XX: a explosão na Estação de Energia Nuclear de Chernobil.

Ouvir a narração de um acontecimento é parte essencial de um trabalho de apuração jornalístico e o que faz Alexievich a priori é o que deveria fazer qualquer jornalista. Ela ouve relatos e os transcreve. Lida com os fatos. A diferença está em como ela o faz.

Li o que encontrei de Vozes de Tchernóbil— as primeiras 65 páginas estão disponíveis em inglês no site da autora — antes da publicação do livro na íntegra. A experiência breve não prepara para a potência de todos os relatos.

Svetlana Alexievich dá ares de literatura ao fato, mas não por fantasia-lo ou por idealiza-lo. Pelo contrário. Ao conversar com quem sofreu a História, a bielorrussa produz jornalismo de uma sensibilidade que foge aos padrões modernos. Ela dá voz aos que estão ali para serem ouvidos por nós e pela posteridade. Sua obra, segundo o comitê de premiação, é “um monumento do sofrimento e da coragem em nosso tempo”. Isso soa como literatura, mas pode — e deve — ser considerado jornalismo.

O alcance do jornalismo (e da história) para Alexievich

Vozes em Tchernóbil demorou dez anos para ficar pronto. Que demorassem mais dez, não importa. O resultado é parecido com o que John Hersey já havia feito em Hiroshima (1946). O jornalismo factual, diário, aquele que serve para embrulhar o peixe na feira — e em formato digital serve apenas para ocupar memória do navegador — muitas vezes não consegue acompanhar a força dos acontecimentos. Cada sobrevivente da batalha de Stalingrado viu sua própria batalha. Para a História, terminou no dia 2 de fevereiro de 1943. Para o jornalismo contemporâneo, é passado. Para Svetlana Alexievich, ouvir “a história das almas” que sobreviveram é o que deve ser feito.

É complicado definir com exatidão o que a escritora bielorrussa faz. Jornalismo literário, talvez. Isso só vai ser definido nos próximos anos com os estudos de sua obra. Em entrevista, Svetlana disse que leva um tempo considerável para escrever seus livros porque tenta “esculpir a imagem de uma época”. Não é esse o papel do jornalismo? Pesquisas na área de ciências sociais e humanas não levam pesquisadores às bibliotecas e aos arquivos de jornais para entender um recorte de tempo e sua contextualização?

Um dos maiores repórteres do jornalismo brasileiro, Joel Silveira, disse em determinado momento que o jornalista não é aquele que toca na banda; é o que vê a banda tocar. Ele estava certo. O jornalista não deve sonhar em ser o pianista solo em um concerto de jazz. Deve saber que, a exemplo de Svetlana Alexievich, quando surgir uma oportunidade para sentar na primeira fila, precisa estar pronto para entender o espetáculo. Está em suas mãos contar para aqueles que não assistiram, o quão virtuoso era o baterista e quanto sofrimento pareciam sair das notas do trompetista. Não construir, mas esculpir a imagem desse concerto. Esse dever ser o papel do verdadeiro jornalismo.