Diga-me então: Qual o problema em ser ‘do lar’?

Interpretando uma narrativa que defende liberdades na teoria, mas não na prática

Em Abril do ano passado a revista Veja publicou uma matéria sobre Marcela Temer — atual primeira-dama e esposa de Michel Temer — com os dizeres: Bela, Recatada e do lar. No corpo da matéria, havia a descrição de seus afazeres como mãe de família, da sua relação com o atual presidente e detalhes sobre suas idas e vindas ao cabeleireiro e à restaurantes chiques. Típico jornalismo contemporâneo que noticia tal celebridade atravessar a rua, ou tal cantor sair do mercado. O mais estranho de tudo: essas notícias e manchetes realmente valem muitos cliques. Não foi diferente com Marcela Temer: Além de ter muito acesso, a matéria rendeu muitas polêmicas, colocando em pauta o papel da mulher em sociedade.

Se você parar e tentar lembrar um pouquinho o que aconteceu na época, vai ter alguns insights sobre brigas entre: ser-do-lar-ou-não-ser? Eis a questão. O que acontece é que as mulheres do movimento feminista, ao lerem a matéria, pressupuseram que apenas mulheres dedicadas à casa e aos filhos possuem valor. Aliás, esse é um debate que há muito vem sendo pauta na internet, onde um lado afirma que ser dona de casa ou se dedicar aos filhos e a família é uma estrutura patriarcal e um sistema opressivo marcando não só séculos passados, como este século; e o outro defende que sim, as mulheres atualmente possuem liberdade de escolherem suas carreiras, o período que almejam ter filhos (ou não) e se querem se casar ou permanecerem solteiras, dando preferência à vida acadêmica-profissional.

Porém, as mulheres que se intitulam feministas dizem pelas redes que tudo bem ESCOLHER esse papel, se esta for uma escolha inteiramente sua. O que não poderia acontecer é uma mulher ser forçada a apenas trabalhar em casa e cuidar dos filhos, sem ter opção de trabalhar fora e liberdade de poder de escolha assegurado. E sim, até aí estamos de acordo. O problema é que como muitas coisas que vemos por aí, essa discussão e defesa da liberdade é extremamente bonita na teoria, porém não existente na prática de muitas pessoas que propagam esse ideal.

Eu, por exemplo, defendo veementemente que um país e uma sociedade apenas crescem e se desenvolvem de verdade através da educação: de homens, de mulheres e de crianças. Todos, através da educação, são mais do que capazes, através de seus talentos e valores, de alcançarem o sucesso. Ou seja, defendo que as pessoas possam alcançar o emprego de seus sonhos através do estudo. Porém, também tenho meus valores e ideais fortemente cravados na instituição familiar, que vejo como a base de tudo, e sou realmente feliz por ter tido uma base sólida de valores e de princípios dentro de casa.

A grande filosofa e escritora Ayn Rand falou um pouco sobre isso em um programa exibido em 1979. Nele, quando perguntada sobre mulheres fortes e discriminação em trabalhos, afirma que apenas podemos ascender pessoalmente e profissionalmente através da educação e da luta para obtê-la (visto que em muitos países, meninas e mulheres ainda não possuem acesso à educação).

Porém, voltando à questão de ser do lar ou não, o que aconteceu foi que mulheres que gostariam e optaram por não trabalharem e cuidarem de seus filhos foram motivo de críticas e chacotas, como se estivessem cegas por esse tão falado sistema patriarcal. Quando diziam que optariam, por ESCOLHA PRÓPRIA, cuidar de seus filhos e construir uma família onde homem e mulher pudessem trabalhar nos afazeres de casa em conjunto, foram duramente criticadas através de ironias e memes.

Até a Folha de SP se manifestou através da matéria da colunista Angela Alonso, dizendo: “[…] O que espanta é que, sendo tão jovem, seja tão tradicional. E que tome para si, no perfeito equilíbrio de orgulho e timidez esperado das recatadas, o papel de submissa, de secundária. Espanta que mulher de sua geração jogue o jogo de gênero de modo tão apaziguado […]” Opa, mas pera lá. Tudo bem ser do lar, não é? Não foi isso que foi defendido? Então por qual razão, do dia para a noite, isso se torna submissão? Apenas por ser jovem? Me leva ao questionamento: Toda jovem precisa estar no bar, na balada, enchendo a cara, usando roupas curtas e escolhendo todo fim de semana um companheiro diferente? Porque ser reservada, vestida de uma forma mais tradicional e ter hábitos e maneiras requintadas de se portar torna-a submissa de segundo plano?

Durante sua matéria, Angela descorre ainda criticando a Escola de Princesas criada pela filha do Silvio Santos, que por mais que instigue certas questões que são postas em debate, como o uso do cor-de-rosa, ainda sim é uma visão de mundo que não pode ser motivo de chacota apenas por que é algo tradicional e conservador. O que me parece é que essa camuflagem de defesa de escolha se esvai quando uma posição contrária à liberalista destoa. Quando se vê que mulheres, de fato, escolhem papéis cujos quais certas pessoas discordam, se diz que é submissão.

Eu pretendo ter meus filhos, cozinhar para meu futuro-marido quando chegar do trabalho, deixar a casa em ordem, lavar a louça e ainda sim ser uma excelente e grande profissional. Não é impossível. Duplas-jornadas são algo comum hoje em dia para quem é mãe e profissional. Assim como respeito quem não quer ter filhos, ou não quer casar e quer apenas se dedicar ao trabalho e curtir a vida. Por mais que isso venha se tornando cada vez mais presente no pensamento de grande parte das jovens, muitas ainda possuem o ideal de uma construção familiar sólida. E tudo bem para ambos.

O que não é plausível é dizer algo e não ter atos correspondentes ao que diz. Digo tudo isso porque já ouvi de muitas pessoas próximas, e já li muito na internet, que se almejo uma família estou sendo submissa ou quero o famigerado “cookie de macho”. Se duas visões existem, isso é ótimo. Melhor ainda se existir respeito por quem quer seguir pelo caminho x ou pelo caminho y.

As pessoas defendem uma certa ingenuidade inexistente apenas para fortificarem seus pontos de vista. Não queira que a pessoa engula à seco uma ideologia pela qual não compactua. Eu serei do lar, assim como serei das Relações Internacionais, dos meus filhos, da minha família e do mundo.

E está tudo bem. A terra não vai explodir quando eu lavar uma louça.

Deixo então, uma das mulheres que me inspiram.

Nota: Exponho nesse texto meu ponto de vista sobre um fato específico pelo qual houve muita repercussão na mídia e nos debates em redes sociais. Reitero que defendo a livre expressão e a aceitação ou-não de determinados pontos de vista, quer sejam compactuantes ou divergentes dos quais eu possuo, visto que somos livres para acreditar em qualquer coisa que para nós soe como verdade.