Do caráter do orador e das paixões do ouvinte

Aristóteles tem um pensamento sobre paixões que diz “todos aqueles sentimentos que, causando mudança nas pessoas, fazem variar seus julgamentos”. Para ficar mais claro, em Retórica, o filósofo exemplifica que as paixões constituem um teclado no qual o bom orador toca para convencer.

No início do ano passado, o torcedor corintiano ficou furioso ao saber que o ídolo que marcou um dos gols mais importantes da história do clube, o peruano Paolo Guerrero, trocaria o time paulista pelo Flamengo. O mundo do futebol é assim: jogadores chegam e outros vão embora com uma velocidade que varia de acordo com o valor do salário. Como um bom leilão, quem paga mais leva.

A prática é comum não só no futebol, mas como em qualquer outra profissão. Quem não quer ganhar mais, não é mesmo? Mas o futebol não envolve só o “jogador como empregado” envolve também, e infelizmente (ou não), a paixão do torcedor que se apega, sim, e que não quer que o bom jogador vá embora “só por causa de dinheiro” e não gosta de vê-lo com a camisa de um rival.

Obviamente que a história do jogador em determinado clube também faz parte da discussão, se ele joga há muitos anos no time, por exemplo. Em todo caso, há também aqueles que nem ficam tanto tempo assim e viram ídolos, como o caso de Guerrero. O Corinthians é grato a ele. Ele, nem tanto assim ao Corinthians, ao que parece. Nas épocas das especulações, quis ser liso e se esquivava das frequentes perguntas sobre sua provável saída e, em uma resposta rápida, fez com que o amor do torcedor corintiano por ele sumisse: “no Brasil, só jogo no Corinthians”. Talvez tenha faltado um pouquinho de caráter por parte do peruano, que não foi transparente com o torcedor; talvez tenha sobrado um bocado de paixão ao corintiano, que cegamente acreditou.

No início de 2016, o santista viveu uma situação parecida. As tentativas para trazer o atacante Robinho, que em anos anteriores se concretizavam na vinda do jogador, este ano não deram certo. E por dinheiro. Todos lembram que, em 2002, Robinho era menino quando subiu para o time profissional do Santos e deu as famosas pedaladas em cima do lateral-direito do Corinthians, Rogério. Em 2005, realizou o sonho de todo garoto que joga futebol: foi comprado por um time da Europa. E não qualquer time. Era o Real Madrid. Ficou no clube merengue até 2008, quando, após alternar bons e maus momentos na equipe, foi vendido para o inglês Manchester City. Lá, foi destaque na temporada 2008–2009, marcando 14 gols. Mas seu rendimento caiu e, não agradando o novo técnico Roberto Mancini, acabou sendo emprestado ao Santos em 2010.

O famoso “o bom filho a casa torna”, se fez valer pela primeira vez. O objetivo era claro: com a experiência adquirida no exterior, jogar bem em um campeonato de baixo nível técnico (Paulista) e ser convocado para a Copa do Mundo. Na apresentação, disse que “o que eu quero é deixar os torcedores felizes em todos os jogos do Santos, seja na Vila Belmiro ou em outro lugar”. E fez. Naquele ano, foi campeão paulista e da Copa do Brasil. Mas o objetivo maior foi conquistado. Robinho foi à Copa do Mundo e, com isso, despertou interesse dos clubes de fora mais uma vez. No final do ano, ao voltar do empréstimo, foi vendido pelo City ao Milan. Ficou quatro anos na Itália — recusando, neste tempo, proposta do São Paulo. Novamente por empréstimo, voltou ao Santos em 2014, curiosamente, de novo, em ano de Copa do Mundo. A convocação não veio, o contrato de empréstimo acabou e o jogador foi embora. Desta vez, para o emergente mercado chinês.

O contrato na China duraria até o final de 2015. Com o jogador livre, o Santos pensou “vamos tentar trazer de novo? Vamos”. O time podia pagar R$ 200 mil de salário. Robinho queria R$ 600 mil. A diretoria buscou parceiros e conseguiu um que bancaria os outros R$ 400 mil. Robinho, atualmente com 32 anos, não quis voltar para o “clube de coração”. Na última quinta-feira, o Santos divulgou nota dizendo que estava abrindo mão da negociação com o jogador. Finalmente, esse namoro que terminou e teve duas recaídas acabou. O Santos cansou de ser aquele namorado que corre atrás prometendo mudar e fazer o que for preciso para clube e jogador ficarem juntos de novo. Horas depois, Robinho acertaria com o Atlético-MG. A diretoria ficou brava, claro, chegando a apagar o nome do jogador da lista de ídolos no site do clube. Horas depois, recolocaram. Mas o torcedor, que ouve com paixão, não perdoa. Fotos do jogador no Centro de Treinamento foram pichadas. O caráter do orador foi posto em xeque.

Para Robinho, “hoje, futebol é negócio”. A fala do orador que chega ao ouvinte santista, faz com que os sentimentos mudem e, hoje, o julgamento do torcedor em relação ao jogador é outro. Talvez, não exista amor que resista ao dinheiro. Robinho toca seu teclado agora para convencer o torcedor do Galo. O estopim já foi aceso: “Quero fazer história aqui”.

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