Dois Irmãos: mais um recorte do Brasil profundo

Adaptação de Luiz Fernando Carvalho e Maria Camargo é uma ode à obra literária de Milton Hatoum

Quando o Projeto Quadrante foi anunciado, há quase 10 anos, o diretor Luiz Fernando Carvalho visava levar à TV grandes obras literárias em quatro regiões do Brasil. O expediente não é (era) algo novo: a TV aberta e o cinema nacionais sempre beberam da fonte dos livros para levar histórias às telas. No entanto, havia algo a mais: o diretor tinha acabado de comandar Hoje é Dia de Maria, em 2005. Ali começava uma estética que já faz mais de uma década.

Hoje é dia de Maria

O Projeto Quadrante — quatro obras literárias adaptadas para a TV — começou com A Pedra do Reino, em 2007. A obra, em cinco episódios, adaptou o romance épico de Ariano Suassuna, O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Se hoje uma série atingir entre 9 e 12 pontos é um fracasso — vide a experiência negativa de Supermax -, imagine há dez anos. Linguagem difícil, falta de compreensão, rebuscada demais, elenco desconhecido: esses foram os argumentos falados à época. Mal sabiam que ali apareceria um cara chamado Irandhir Santos…

A Pedra do Reino

Carvalho e sua equipe não desistiram. No ano seguinte, foi a vez de Machado de Assis, com Capitu. Obra mais popular que a anterior, os cinco capítulos tiveram média de 15 pontos. A obra machadiana — sob o olhar oblíquo e dissimulado de Maria Fernanda Cândido e Letícia Persiles no papel-título — novamente bebeu da fonte iniciada em Hoje é Dia de Maria: artesanal e eminentemente brasileira, Capitu manteve a essência da dúvida de Machado de Assis que até hoje corrói mentes.

Capitu

Com duas obras exibidas, restavam Dois Irmãos, de Milton Hatoum; e Dançar Tango em Porto Alegre, de Sérgio Faraco. Ficaram no papel, e o Projeto Quadrante foi colocado na geladeira da Globo.

Nesse período, Luiz Fernando Carvalho dirigiu outros produtos seriados: Afinal, o que querem as mulheres? (2010), Subúrbia (2012), Correio Feminino (2013), e o filme para TV Alexandre e Outros Heróis (2013) — este último, mais uma adaptação literária, com a junção de obras de Graciliano Ramos.

Subúrbia e Alexandre e Outros Heróis

O diretor também voltou à direção de novelas depois de 12 anos, com a exuberante e lisérgica Meu Pedacinho de Chão (2014), um remake da novela da década de 1970 regado a cores vibrantes. No ano passado, novamente à frente de uma novela, com a poética e emocionante Velho Chico.

Velho Chico e Meu Pedacinho de Chão

As obras citadas aqui têm em comum o olhar brasileiro de coisas brasileiras — uma busca incessante do diretor e, consequentemente, levar isso à TV e ao grande público. Carvalho afirmou, à época da estreia de Meu Pedacinho de Chão, que “a televisão brasileira tem dado sinais claros de esgotamento de seu modelo”. E completou:

“Precisamos pensar em uma televisão do futuro. Esta já passou. Estamos reproduzindo um modelo de cinquenta anos atrás! Para o bem de todos, não desejo que dure mais, sinceramente falando! É fundamental abrirmos uma reflexão dos conteúdos paralelamente à linha de produção diária. […] falta o salto do pensamento, do desejo, uma ação corajosa em direção às pesquisas estéticas, às novas linguagens artísticas e aos novos formatos e modelos de produção”

Carvalho é insistente e persistente. Também falou em mostrar, sempre, “o Brasil interior”, às vésperas da estreia de Velho Chico. E esse “Brasil interior” nunca é mostrado de forma convencional.

Toda essa trajetória para chegarmos a Dois Irmãos. O retorno do Projeto Quadrante — o nome, abandonado, deu lugar ao slogan “Assista a este livro” — chega da maneira que a Rede Globo encontrou para driblar a concorrência com a internet: a minissérie em 10 episódios estreia em 9 de janeiro, mas a emissora já disponibilizou três na plataforma Globo Play, para assinantes do serviço.

Adaptação do livro escrito por Milton Hatoum, o novo delírio audiovisual de Luiz Fernando Carvalho é, até aqui, visceral. Escrita por Maria Camargo, a minissérie mantém a essência da obra original, e não abre mão de trechos e frases do livro, citados integralmente. E de pensar que a Globo esperou quase dez anos para exibir Dois Irmãos, enquanto apostou as fichas em Supermax, de qualidade questionável…

É curioso que Dois Irmãos levantou, novamente, o debate de levar obras literárias para a TV. É também curioso — e feliz — que a Globo inaugurou seu perfil aqui no Medium (veja o link abaixo) justamente com textos sobre a minissérie. Já que aqui tornou-se um refúgio para uma leitura consistente sobre os mais variados assuntos, nada mais justo que usar uma obra literária para este início.

Os três primeiros episódios já deram o tom de toda a estrutura da série. É bem menos artesanal que os produtos imediatamente anteriores (as novelas), e mais próxima da realidade (como Subúrbia, ambientada nos anos 1990). Dois Irmãos mostra a Manaus das décadas de 1920 a 1980, com uma estrutura narrativa mais dramática — impulsionada pelo enredo familiar, afinal, histórias de gêmeos estão no folclore da literatura mundial.

Mesmo que a equipe do diretor tenha opções estéticas que fogem do padrão da TV aberta brasileira, Dois Irmãos consegue mostrar um cenário sem afetações. É tudo natural, uma cidade em construção (ou desconstrução, dependendo do ponto de vista), assim como aquela família de origem libanesa. Dois Irmãos é uma história de desconstrução contínua, onde os gêmeos Yaqub e Omar travam uma relação marcada pelo ódio e pelas diferentes relações com o mundo e com os pais.

Se nas obras anteriores tivemos devaneios estéticos, em Dois Irmãos este expediente é atenuado. Estão lá os enquadramentos incomuns, mas é, provavelmente, uma das obras mais clássicas que Luiz Fernando Carvalho dirigiu. Também, pudera: a história é tão visceral e psicológica, que é preciso encontrar um equilíbrio. A minissérie, até aqui, está no ponto certo, além de valorizar aquilo que realmente importa: a história.

Aliás, essa história já foi mostrada em imagens. A HQ da dupla Fábio Moon e Gabriel Bá, lançada em 2015, é a primeira adaptação em imagens da obra de Milton Hatoum. A dupla conquistou o “Oscar dos quadrinhos”, o Eisner Awards, em julho de 2016. Fábio e Gabriel, além de quadrinistas, são irmãos. Gêmeos, assim como os irmãos da história.

Estava pronto o storyboard para a adaptação televisiva. Ainda que Carvalho e sua equipe sejam originalíssimos, muitos dos quadros da HQ serviram de inspiração para os enquadramentos na televisão. Aliás, é uma experiência interessante acompanhar as duas obras/adaptações simultaneamente. Um mergulho profundo em um universo tão profundo quanto, partindo de duas visões únicas de uma obra singular.

Os três primeiros episódios retrataram a força da história do autor, aliadas ao apuro estético televisivo do diretor, o roteiro adequado de maria Camargo, e à entrega do elenco. Não chega a ser algo determinante para a TV; a obra é uma sequência do trabalho desenvolvido pela equipe de Luiz Fernando Carvalho.

Mas reitera o que já afirmei diversas vezes neste espaço: o melhor caminho para a produção seriada brasileira é falar de sua gente. E, isso, Carvalho faz com maestria — e prioridade.

É uma rara oportunidade de conhecer uma Manaus pouco vista, longe do glamour que Rio de Janeiro e São Paulo exalavam à época, conhecer uma região do país em plena construção/desconstrução. Ver um recorte do Brasil e suas sutilezas que, ora persistem, ora pioraram, como a visão do índio como escravo ou ser inferior ou a objetificação da mulher. É mergulhar no universo particular do autor, nascido em Manaus.

Dois Irmãos é (mais) um retrato do Brasil profundo, do Brasil interior, que Luiz Fernando Carvalho tanto busca. Um interior transmitido por aquele que é o condutor dessa história: Nael, o filho da índia (e empregada) Domingas. É ele que rememora todos os acontecimentos daquela família, um narrador que ouve as histórias do patriarca Halim no velho barco que navega sob o rio.

A visão dos excluídos, de quem vê tudo de fora. O ouvir daquele que lhe batizou, enquanto as curvas do rio são sua única testemunha.

Dois Irmãos dignifica a obra literária nacional — bem como a HQ — e serve de estímulo para que uma legião de leitores possa, enfim, voltar-se aos livros. Estes, os responsáveis pela imaginação mais pura e genuína.