Você pode entender o que está acontecendo

Ou como o passado pode explicar os memes da eleição do Donald Trump

No dia que o Donald Trump foi eleito, printei esta imagem e enviei para o meu marido:

Concordamos, rimos do Cascão e seguimos a vida.

Mas depois fiquei pensando: a gente sabe mesmo o que está acontecendo?

Se olharmos para a História (essa com H maiúsculo, que supostamente diferencia a ciência dos fatos em si), a gente consegue entender um pouquinho do que está rolando com o nosso mundo. Eu não sou historiadora de verdade, já que nunca consegui meu diploma, mas vou tentar explicar para vocês, com um olhar de historiador, mais ou menos o que está acontecendo.

Para começar, precisamos pensar que a história é um processo e que, de vez em quando, ela volta para onde estava. A gente tem uma ideia de que esse processo é linear e que a humanidade segue sempre em linha reta rumo a uma evolução científica, social e cultural. O senso comum diz que o que acontecia no passado é atrasado, o que acontece no presente já é avançado e tudo vai evoluir ainda mais no futuro.

A gente não podia estar mais errado.

Essa ideia nasce lá no século XIX, com uma corrente teórica que é mais conhecida como Positivismo. Eles defendiam essa ideia de que nós vivemos rumo à evolução. Foi daí que surgiu o lema da nossa bandeira, que agora também é o do nosso governo: Ordem e Progresso.

Na teoria, tudo lindo. Mas, na prática, não é bem assim. Alguns momentos e processos se repetiram e continuarão se repetindo, ou pelo menos serão similares ao que já aconteceu no passado.

E isso nos leva a um retorno da política conservadora, de tempos em tempos, ao centro das discussões. Nos momentos em que se enfrenta algum tipo de crise séria, econômica, social ou os dois, o discurso de que é preciso ser rígido, cortar privilégios, segurar a economia e de que há sempre um inimigo lá fora a quem podemos culpar, ganha força.

Foi mais ou menos isso que aconteceu na Alemanha pré-nazismo.

Devastada e humilhada depois da Primeira Guerra, com uma crise econômica, uma população empobrecida e, principalmente, um nacionalismo exacerbado e ferido, o terreno foi bem fértil para a ideologia do nazismo ganhasse força e apelo popular. Alguém que promete um estado forte, ajuda financeira e um combate aos inimigos que tiram nossos empregos e dinheiro — os judeus, os ciganos, os negros, os estrangeiros — acaba sendo ouvido.

É mais ou menos isso o que está acontecendo com o mundo hoje. Talvez de uma maneira diferente (ou não, a gente ainda vai pagar para ver isso). Em um cenário no qual há refugiados e fugitivos de desastres naturais tentando abrigo em países mais ricos e mais pacíficos, o ódio ao imigrante ganha força. E outros fatores acabam ganhando também, como o desemprego gerado por crises econômicas, que está afetando alguns países da Europa e o Brasil.

Por isso, gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro acabam conquistando os holofotes e as eleições. Eles dizem que o inimigo está lá fora: é o estrangeiro que rouba o nosso emprego, é o gay que rouba a nossa família, é o comunista que rouba a nossa democracia. Mas o problema sempre está aqui dentro, com políticas públicas, sistemas econômicos e processos históricos.

Lógico que isso é uma análise bem rasa. A ideia não é explicar tudo o que está acontecendo, mas mostrar para vocês que é possível entender. Você não precisa passar os próximos anos como o Cascão e pode buscar essas explicações. É para isso que existem as Ciências Humanas.

Se você quiser entender melhor esse crescimento do conservadorismo em tempos de crise, procure pelos trabalhos dos historiadores Daniel Aarão Reis e Eric Hobsbawn.