Dos livros que lemos, as lições que aprendemos

Uma criança vivendo em uma sociedade que abomina seu pai gay

Milena, meu pai me contou [que era gay] quando eu tinha mais ou menos seis anos: ele foi franco comigo. Explicou que por namorar um outro homem ele não era um monstro e nem um mutante. Ele quer ser feliz como todo mundo, né?

Recentemente li um livro que me fez pensar muito. Um livro simples, com palavras simples, leitura nada complexa e rápida, poucas páginas, mas que em toda sua simplicidade, me fez ver o quão triste é o mundo em vários aspectos e muito lindo em outros. Este livro se chama “O Namorado do Papai Ronca”. Para se situar sobre o livro, farei uma breve sinopse do que se trata.

O livro acompanha por seis meses um adolescente que vai morar com o pai enquanto a mãe está fazendo um mestrado em Milão. Seu pai mora numa cidade no interior do estado de São Paulo e se relaciona amorosamente com um outro homem. Com isso, o menino percebe em seu próprio cotidiano o preconceito da sociedade pelo pai ser homossexual. A obra ainda traz diálogos e personagens em linguagem social web — conversas instantâneas por Skype ou Messenger e perfis de redes sociais são utilizados para contextualizar conversas e apresentar figuras do livro.

Com este livro consegui tirar grandes reflexões. Grandes lições de vida. O escritor, Plínio Camilo, conseguiu passar através de suas palavras como as crianças são grandemente influenciadas pelas ações e decisões dos pais. O protagonista da história, Dante, sempre viveu em São Paulo e quando foi para essa pequena cidade no interior (Procópio), pôde perceber o quão grande é o preconceito da população com seu pai e seu companheiro — podemos notar que o que se passa na história é o que acontece com muitas pessoas na triste vida real. No meio do livro, alunos de Heitor (pai de Dante, professor de História) inventam uma história para incriminá-lo usando o fato de ele ser homossexual. No decorrer do livro, é possível notar a criança reparando em como as pessoas encaram seu pai, como cochicham ao passar por ele, e como o fato de uma pessoa importante de sua família não fala com o pai.

Diante disso, podemos notar o quão nocivo é para uma criança ver tanto preconceito. Num diálogo com sua avó, que diz que o relacionamento de seu pai é uma abominação, Dante diz que não concorda com ela. Acha que é uma abominação o que ela faz com ele [não conversa com o próprio filho]. Além disso, Dante se torna alvo dos pais de seus amigos, ao impedir que estes estivessem junto com Dante por causa de seu pai. Já perto do fim da história, é possível ver a ação desses pais quando as crianças começam a contar porque não participaram de um jogo com Dante. São relatos iguais aos que acontecem no cotidiano de muita gente. Tristes frases lidas como: “Meu pai não deixou porque ele disse que não é certo o que seu pai faz”, “Minha mãe não deixou porque é coisa do ‘demo’”, “Meu pai não deixou porque é coisa de louco”, “Meu pai não deixou porque não fica muito bem o filho dele andar com o filho de um viado”.

O melhor ponto do livro, é notar que as únicas coisas que mais incomodam o menino em relação ao namorado do pai, é o fato de ele fumar e roncar muito alto. Isso nos mostra que as crianças não se importam com quem você se relaciona, ou o que você é, mas coisas simples como essas.

A partir da leitura desse livro, é importante que se perceba o mal que está sendo feito para todas essas crianças. Possivelmente, ao crescer, serão pessoas cheias de preconceitos e (se for o caso) não conseguirão se aceitar, se o que forem (LGBT ou não) for errado aos olhos dos pais.

A lição que aprendi com este livro: cuidado com as palavras que fala e o jeito que age diante de uma criança, ela aprende e poderá reproduzir seu preconceito babaca.

Não procure rótulos, gavetas ou encaixes; por sorte, ou azar, somos todos diferentes, com diferentes olhares, diferentes formas de ver, sorrir e andar. E, principalmente, nem sempre o que é diferente da gente é ruim.