Dossiê Fargo

Entre o bem e o mal: uma análise de Fargo, série de Noah Hawley

O problema não é a existência do mal no mundo. O problema é a existência do bem. Do contrário, quem se importaria?

É com essa questão que o personagem V. M. Varga (David Thewlis) sintetiza o centro filosófico de Fargo, premiada série de Noah Hawley. Inspirada no ótimo filme homônimo de Joel e Ethan Coen, Fargo finalmente estreou no Brasil. As três temporadas chegaram à Netflix em dezembro de 2017, sem alarde. Cada temporada tem dez episódios e uma história autônoma, embora sejam relacionadas. A antologia não é uma adaptação do filme, mas sim uma homenagem, uma carta de amor à obra dos irmãos Coen.

“O homem é o lobo do homem”. Para Thomas Hobbes, o ser humano não possui uma disposição natural para a vida em grupo pois seria orientado pelo egoísmo, pelo instinto de autopreservação, que se chocaria com os interesses coletivos. Portanto, para evitar a violência e buscar uma convivência pacífica, seria preciso haver um contrato social eficaz que, para Hobbes, deveria ser sinônimo de uma liderança rigorosa e centralizadora. Só assim escaparíamos da barbárie.

Já para Jean-Jacques Rousseau, o ser humano é naturalmente bom, o que o corrompe é o processo civilizatório. A hipótese de uma bondade inerente se opõe ao pensamento de Hobbes. Em sua obra Do contrato social, Rousseau reflete sobre como deveriam funcionar as instituições para estabelecer uma sociedade justa, porém tomando a liberdade como bem supremo.

Fargo, o aclamado filme de 1996 que garantiu aos Coen uma posição de destaque entre os melhores cineastas contemporâneos, parece transitar entre essas afirmações. De um lado, temos a policial Marge Gunderson (Frances McDormand), que poderia representar a bondade, com sua ética, moral e retidão. De outro, o mundo de corrupção e violência que se abre quando Jerry Lundegaard (William H. Macy) decide aplicar um golpe, encomendando o sequestro da própria esposa para se beneficiar do resgate que o sogro abastado pagaria. Para isso, viaja de Minneapolis, Minnesota, até a cidade de Fargo, na Dakota do Norte, que funciona como uma representação do inferno na Terra: é de lá que a maldade vem à galope, personificada pela dupla Carl Showalter (Steve Buscemi) e Gaear Grimsrud (Peter Stormare), os bandidos contratados por Jerry. Uma vez aberto o portal, não há retorno.

Se a bondade encontra a personificação cristalina em Marge, a maldade possui nuances, embora não importe o tom de cinza que cada personagem ocupe: uma vez do lado de lá, dificilmente há redenção. Diante dos desdobramentos trágicos, Marge diz: “E tudo isso por quê? Por um pouco de dinheiro? Existe mais na vida do que um pouco de dinheiro”. A mediocridade e a ganância vão derrubando as personagens como peças de dominó. O dinheiro carrega consigo uma espécie de maldição.

Além da questão filosófica principal, há outros elementos que fizeram de Fargo um clássico dos nossos tempos: o filme é antes uma comédia de erros do que uma história policial. Todos são bastante atrapalhados e até as cenas de violência estão entre o brutal e o ridículo, como a meia branca no pé que vai ao triturador de madeira. Ao lado do humor, há outro ingrediente que contribui para a atmosfera de contrastes: o filme começa com o aviso de que a história a que vamos assistir, embora bastante absurda, seria baseada em fatos reais.

Esta é uma história verídica.

Os eventos retratados neste filme ocorreram em Minnesota em 1987.

Atendendo a pedidos dos sobreviventes, os nomes foram alterados.

Em respeito aos mortos, o restante foi contado exatamente como aconteceu.

A tragédia é anunciada desde o primeiro momento (sabemos, no mínimo, que há vivos e mortos) e, logo na primeira cena, conhecemos os bandidos. Portanto, o que está em pauta não é quem fez ou por que fez. Fargo opera em outra lógica.

Quando a adaptação para a televisão foi anunciada, os fãs receberam a notícia com desconfiança. Mas, mesmo para os mais ranzinzas, fica difícil não dar o braço a torcer. Noah Hawley conseguiu transportar para a série parte importante da atmosfera do filme. Embora as histórias sejam diferentes, existe um fio condutor que extrapola a geografia (nas três temporadas, temos cidadezinhas de Minnesota como cenário e Fargo, na Dakota do Norte, segue desempenhando um papel importante). Ainda assim, são obras independentes, com linguagens próprias. Parece mais acertado dizer que a série tenta estabelecer conversas com a filmografia dos Coen, embora percorra outros caminhos.

Primeira temporada: um encontro com Mefistófeles

A primeira temporada de Fargo é a que se relaciona mais diretamente com o filme. No início, lemos o mesmo texto: essa também seria uma história real, que teria ocorrido no estado de Minnesota, dessa vez em 2006, na cidade de Bemidji. Logo de cara, somos apresentados a Lorne Malvo, interpretado magistralmente por Billy Bob Thornton. Ao longo da temporada, Malvo muitas vezes parece não apenas uma personificação do mal, mas o diabo ele mesmo. O pacto fáustico é sem dúvida uma referência importante, sempre retomada. Lester Nygaard (Martin Freeman) exerce aqui a função que Jerry Lundegaard ocupa no filme, e Molly Solverson (Alisson Tolam), a de Marge Gunderson. Podemos assumir que o eco dos sobrenomes não seja uma coincidência.

Logo na primeira cena, vemos um carro em uma estrada escura. Malvo está na direção, os olhos frios e compenetrados. De dentro do porta-malas, escutamos um som abafado. De repente, dois veados cruzam a estrada, um em seguida do outro. O primeiro escapa, mas o carro atinge o segundo em cheio, causando um acidente. O porta-malas se abre e um homem, só de cuecas e meias, sai correndo pela neve. Malvo parece machucado, mas sobrevive.

Na cena seguinte, somos apresentados a Lester, um corretor de seguros que leva uma vida inexpressiva ao lado de uma esposa que claramente o despreza. Ele parece distraído com o barulho da máquina de lavar roupas no porão: “O som está diferente hoje, você não acha? Como se estivesse com raiva”. A esposa aproveita a deixa para insultá-lo, fazendo comparações entre Lester e Chaz, seu irmão mais novo. Embora contrariado, ele escuta passivamente enquanto toma uma sopa de tomate. Mais tarde, está diante de uma vitrine contemplando uma nova máquina quando reencontra um antigo colega de escola, acompanhado dos dois filhos adolescentes. Em uma conversa violenta, o ex-colega, que sempre o maltratou, volta a humilhá-lo e a ameaçá-lo. Lester reage assustado e acaba batendo a cabeça no vidro, machucando a si mesmo. É difícil não sentir pena dele.

Então o vemos com o nariz ensanguentado na sala de espera de um serviço de emergência. A seu lado, Lorne Malvo também aguarda para ser atendido. É assim que o destino dos personagens se cruza, enquanto compartilham uma lata de refrigerante de uva. Quando Malvo lhe pergunta o que houve, Lester por ventura acaba se abrindo: “Se eu fosse outro tipo de homem, teria dado uma lição em Sam”. Malvo então passa a provocá-lo: “Pela minha experiência, se você deixa um homem quebrar seu nariz, na próxima ele tentará quebrar a sua coluna”.

Malvo é o Mefistófeles de Lester, sua proposta vai testar a retidão do personagem. É verdade que o pacto aqui é desajeitado e mais hesitante do que o de Jerry no filme, o que faz com que tenhamos mais empatia por ele, ao menos a princípio. A linguagem corporal dos personagens nessa cena é irretocável: de um lado temos Lester retorcendo-se de constrangimento e se embolando no discurso; do outro, Malvo, que permanece elegantemente impassível, analisando os acontecimentos com uma objetividade desconcertante. As ótimas atuações que encontramos no filme estão honradas na série, é uma cena perfeita. Com olhos fuzilantes e absoluta assertividade, Malvo diz a Lester: “Se fosse eu no seu lugar, teria matado aquele homem” e completa, com uma afirmação sedutora: “Esse é um homem que não merece respirar”. Lester se sente compreendido e vai baixando a guarda, desabafando os anos de maus tratos na escola — conta que o sofrimento teria lhe causado uma úlcera. Ao admitir, ainda que hipoteticamente, o desejo de ver Sam Hess morto, pergunta: “Mas o que eu deveria fazer? Se você tem tanta certeza, talvez devesse matá-lo para mim”. Quando percebe que Malvo está levando a conversa a sério (“Você está me pedindo para matar esse homem”), tenta remendar e dizer que era uma brincadeira.

A enfermeira interrompe, chamando Lester para ser atendido. Agitado, pede que ela espere um segundo e tenta dissuadir Malvo, que permanece implacável: “Apenas uma palavra: sim ou não”. Pressionado pela enfermeira de um lado e pela insólita proposta de outro, Lester se vira e diz sim. Supostamente, o sim era para o chamado da enfermeira, mas Malvo tem a resposta que precisa. Anos depois do filme, a neve de Minnesota volta a ser tingida de vermelho.

A temporada parece distinguir bondade de fraqueza. Ficamos confusos quando Lester cruza a linha e descamba para a maldade: ele parecia um bom moço, tão injustiçado, sempre oprimido pelos outros, incapaz de ver sangue. Algumas vezes, a fragilidade pode se parecer com a bondade, mas basta uma oportunidade que a coloque realmente à prova e acaba sucumbindo. Talvez Malvo, como o Mefistófeles de Fausto, tenha dito a Lester apenas o que ele queria escutar, uma projeção de seu lado mais sombrio.

Embora a maldade de Lester seja menos patente que a de Malvo, certamente se distancia cada vez mais da bondade de Molly. A bondade, aliás, surge aqui representada por uma dupla de policiais, Molly e Gus Grimly (Colin Hanks), e por suas respectivas famílias. Gus tem outra característica que geralmente tomamos como sinônimo de retidão: uma certa ingenuidade que se parece com pureza. Para ele, é difícil sequer acreditar que tamanha maldade seja possível. Já Molly não parece surpresa. Aquele mal, embora exterior a ela, não lhe parece exterior ao mundo. Admitir a existência da maldade talvez seja o seu maior trunfo, o que faz com que seja uma policial habilidosa e desconfie do mais insuspeito criminoso. Como Marge no filme, é assim que Molly acaba se aproximando da verdade.

Portanto, a antítese de Malvo não seria propriamente Molly, mas talvez Gus. De um lado, temos a maldade ardilosa, demoníaca. De outro, a pureza quase angelical. No meio, uma ótima policial, que faz seu trabalho com seriedade e vive de maneira ética, mas não alienada. Entre os arquétipos idealizados, Molly parece sinalizar uma saída para o humano. Nem Hobbes, nem Rousseau — a visão de mundo de Molly parece estar mais alinhada com a que Freud descreve em Mal-estar na civilização: viver em grupo significa amputar uma parte de nossa liberdade individual e dos nossos instintos de agressividade, mas basta uma rachadura para que essa agressividade aflore e a barbárie volte a espreitar a civilização.

Para Freud, o mandamento “Ama teu próximo como a ti mesmo” é a mais forte defesa contra a agressividade humana, mas o mandamento é inexequível: “(…) uma tão formidável inflação do amor só pode lhe diminuir o valor, não eliminar a necessidade. A civilização negligencia tudo isso; recorda apenas que quanto mais difícil o cumprimento do preceito, mais meritório vem a ser ele. Mas quem segue tal preceito, na civilização atual, põe-se em desvantagem diante daquele que o ignora”.

Em certo momento, o chefe de polícia diz a Molly que não tem estômago para acompanhar tamanha brutalidade: “Usar o distintivo, ver o que as pessoas são capazes de fazer. A falta de compaixão. O que aconteceu com dizer bom dia a seus vizinhos, limpar a neve das calçadas e ajudar com as latas de lixo?”. Entre o pessimismo e o otimismo, sempre temos o bom senso de Molly: “Bem, isso ainda existe”. Ao que o chefe responde, nostálgico: “É, mas não como antigamente. Eu costumava ter opiniões positivas sobre o mundo, sobre as pessoas. Pensava o melhor. Agora estou ressabiado, olhando por trás dos ombros. ‘Uma mente inquieta’, é como minha esposa chama. Esse trabalho me faz ficar olhando para a lareira e bebendo”.

É preciso alguém com o estômago de Molly, alguém capaz de ver de perto a maldade, olhá-la nos olhos, e ainda assim continuar acreditando que o bem também existe. Entre o niilismo e a fé indiscriminada, a heroína de Fargo prefere uma terceira saída.

Já a perversão de Lorne Malvo, tal qual a de Anton Chigurh (Javier Bardem) em Onde os fracos não têm vez (2007), lhe dá um aspecto quase sobrenatural: como as leis não se aplicam a ele, Malvo está livre para construir suas próprias leis, e flutua entre as nossas com desembaraço. Não é consumido pela culpa, nem pela ansiedade. Com isso, acaba tendo uma leveza que os neuróticos invejam: “O seu problema é que você passou toda a sua vida acreditando que existem regras. Não existem. Nós éramos macacos. Tudo que a gente tinha era o que conseguia pegar e defender”.

O roteiro brinca com essa dimensão diabólica em diversos momentos. Um dos mais divertidos é quando Malvo vai até a lanchonete de Lou (Keith Carradine), pai de Molly, e diz: “Eu não comia uma torta como essa desde o Jardim do Éden”.

Conforme a temporada se desenrola, outros personagens memoráveis entram em cena e os acontecimentos, cada vez menos plausíveis, iluminam a questão central sob outros ângulos. A série é permeada de referências filosóficas, literárias e religiosas, com parábolas e enigmas maravilhosos.

Entre ser um saco de pancadas ou uma alma corrompida precisaria haver uma alternativa mais inteligente que Lester jamais foi capaz de criar para si.

Com roteiro literário, ótimos diálogos e atuações primorosas, Fargo estreou nos Estados Unidos em 2014, encantando público e crítica. Em seguida, venceu o Emmy e o Globo de Ouro. Hoje, coleciona dezenas de prêmios, além de resenhas entusiasmadas ao redor do mundo. No Internet Movie Database (IMDb), está avaliada com nota 9. Feito raro, mas bastante merecido.