Você precisa driblar o seu bloqueio criativo

Produzir conteúdo não depende nem de dom nem de inspiração – depende de vergonha na cara

“Olha o que o Kalewzin tá dizendo. Toma vergonha na cara e vai escrever.”

Um tempo atrás fiz aquele texto de título-pé-na-porta sobre inspiração – sobre como as pessoas atribuem sua criatividade a uma “entidade” que se manifesta quando quer e cuja disponibilidade dá margem a sérias dúvidas quanto à sua competência.

“Ah, hoje eu tô inspirado, vou escrever”. “Hoje tô sem inspiração, não posso fazer nada”. “Hoje minha inspiração disse que ia só comprar pão e até agora não voltou”.

Concluí que isso, no geral, é balela.

Mas e o bloqueio criativo? E quando a gente senta pra escrever e não consegue fazer nada? E quando a gente não consegue continuar do ponto onde paramos?

Nesse texto, resolvi colocar algumas coisas que aprendi produzindo conteúdo e dicas de alguns autores famosos para lidar com o bloqueio criativo.

O bloqueio criativo é uma realidade. Mas, em grande parte das vezes, somos nós mesmos que o criamos.

Houve épocas em que eu achava que minha criatividade dependia de tristeza e descontentamento. E, de fato, a condição de estar triste fazia com que eu escapasse por meio da escrita – e escrevi coisas muito boas nesse período.

Mas não demorou pra perceber que eu estava, na verdade, me autossabotando na esperança de ter criatividade. Eu não estava triste mesmo, eu só me induzia à tristeza pra produzir conteúdo, achando que essa era a única maneira de escrever meus contos pseudo-existencialistas bad vibes. E isso é muito bizarro, mas extremamente comum.

Essa semana mesmo vi em um grupo de escritores no Facebook um rapaz relatando bloqueio criativo, dizendo que só consegue escrever ou durante extrema raiva ou durante melancolia.

Comigo era assim.

É como o narrador de Memórias do Subsolo, que diz que queria ser um homem burro, que só age e não pensa, pois eles são mais felizes. Mas ele diz isso apenas para fazer um elogio reverso, alegando ser inteligente demais e, por isso, triste.

Mas você não é mais inteligente por ser triste. Você não é mais criativo por ser triste. Você não é mais criativo por nenhum tipo de mazela autoimposta.

Você é só um iludido, como eu.

“Close-up of a person's hands on the keyboard of a MacBook” by Glenn Carstens-Peters on Unsplash

O próprio rapaz do grupo, que mencionei antes, reconheceu que esses sentimentos – que pareciam proporcionar a ele o impulso necessário para escrever – se levados ao exagero o faziam estacar.

Aos poucos, minha tristeza compulsória fez com que eu ficasse triste de verdade, a ponto de eu não conseguir escrever mais nada e me afastar por um bom período da escrita e até da leitura. Eu não tinha mais paciência pra isso. Fiquei bloqueado de verdade.

E hoje eu sei que criatividade é esforço. A única condição à qual eu me submeto é de trabalhar sempre, independentemente de ter muita ou pouca criatividade. É isso que me ajuda a superar bloqueios criativos.

Como disse certo escritor, “eu só escrevo quando estou inspirado, e trato de estar inspirado todos os dias às nove da manhã”. (Não faço a MENOR IDEIA de onde tirei essa frase. Talvez tenha inventado.)

Uma das formas de lidar com o bloqueio criativo é entendendo a raiz do problema.

Por exemplo, imaginemos um cenário onde você, após duzentas palavras escritas de um artigo para blog, se vê num bloqueio. Como aplicar a dica acima?

Identificando – por meio da leitura do seu próprio texto – o problema. Parece ser uma dica clichê e simples demais, mas é mais profunda do que parece. Você não se esforça, com isso, pra criar – mas sim pra identificar o que te impede de criar.

Foi a condução do texto que te levou pra um lugar que você não desejava? Se sim, aquele último parágrafo é necessário ou você tá tentando dar continuidade a algo que não precisa existir? Se é necessário, ele precisa ser do jeito que você escreveu? Se precisa, por que você não faz o caminho reverso – escrevendo o final do texto e analisando o que levaria a esse final?

Algo que funciona pra mim, por exemplo, independentemente do texto que estou escrevendo, se é ficção, se é artigo pro Medium, se é freela, é: dividir em tópicos que quero abordar. Nesse, por exemplo, eu dividi em alguns tópicos: autossabotagem e Memórias do Subsolo; dica de Mad Men; dicas de autores famosos; entendendo a raiz do bloqueio.

A partir desse esqueleto, abordo os assuntos que quero. É por isso que costumo escrever com tópicos numerados. Às vezes, altero a ordem deles. Até ficar de um jeito que flua bem. (Às vezes eu falho. Muitas vezes. Mas é isso.)

O mesmo serve pra um capítulo de um livro de ficção: escrever as cenas principais do capítulo e, a partir daí, redigi-las.

Se você não estiver conseguindo encontrar a raiz do problema, meu conselho é: vai escrever outra coisa. Outra cena. Outro diálogo. Outro conto. Outra crônica. Outra poesia. Outro ensaio. Outro artigo pra blog. Outra bula de remédio. E volta quando você estiver com cabeça pra isso.

Não adianta ter seu texto pronto em detrimento da tua própria sanidade mental, vai por mim.

Consumir conteúdo é algo que sempre funcionou pra mim. Aliás, os meus períodos sem escrever foram, também, períodos de pouquíssimas leituras, e acredito que uma coisa puxe a outra. Eu paro de ler por falta de tempo, paro de escrever por falta de leitura, decido ficar um tempo sem ler por não precisar escrever e fico sem escrever de novo porque não consigo ler.

Pra quebrar esse ciclo autoimposto de bloqueio criativo eu só preciso de: vergonha na cara.

Eu pego um livro, leio; ou pego uma série nova, vejo; ou pego um filme, assisto. E assim vai. É uma questão de consumir conteúdo relevante, que vá distrair a minha mente ao mesmo tempo em que refresca meus neurônios para que eles trabalhem.

Don e Peggy, os criativos.

Don Draper, protagonista de Mad Men, deu a Peggy Olsen uma das melhores dicas para lidar com bloqueio criativo: “Pense sobre o tema profundamente e então se esqueça disso. Uma ideia vai aparecer na sua cara.”

Essa dica é genial, embora também pareça baboseira de pseudo-profissional em produtividade.

Sabe quando você tá procurando tua certidão de nascimento pra provar que nasceu, revira a casa inteira, faz boletim de ocorrência e não encontra o maldito documento?

Numa bela manhã de quinta-feira ensolarada, no entanto, enquanto você pega o pacote de miojo que tá na prateleira mais alta da cozinha, você encontra lá sua certidão de nascimento, bonitinha.

O processo com as ideias é mais ou menos o mesmo. A melhor ideia vai surgir quando você menos esperar.

Mas não é só ficar esperando a boa vontade das ideias (porque esse é o conceito de inspiração que eu luto pra desmistificar). A dica do Don é de pensar profundamente sobre o assunto, ou seja, procurar com muita vontade teu documento e tomar nota de todos os lugares onde ele não está. Depois, descansar. Isso faz com que você tenha as informações necessárias sobre o que precisa desenvolver. Descansar te dá o tempo e o relaxamento necessários pra colocar em ordem o amálgama de informações que você absorveu e tirar disso uma ideia concreta.

Não é mágica.

Um dia desses, falei no trabalho que, quando tenho muita coisa pra desenvolver e não sei por onde começar, eu durmo. Falei em tom de piada, claro. Todos riram.

Mas a verdade é que é isso mesmo que eu faço. E talvez isso funcione pra você.

Ao mesmo tempo penso no meu texto pra TRENDR, no conto que eu quero terminar, no texto que eu preciso escrever pra Kasulo, no romance que eu abandonei no começo do ano, no livro que eu preciso terminar de ler, no curso que eu preciso iniciar – e não sei por onde começar. Quando eu durmo, parece que as coisas ficam em ordem e eu sei exatamente por onde ir.

Mas é isso. A verdade é que receitas são muito particulares e subjetivas – e aquela receita de bolo de fubá só funciona se feita pelas mãos da sua avó, ainda que seguida à risca pela sua irmã mais nova.

No outro texto mencionei alguns conselhos de escritores famosos e linkei um artigo em inglês onde mostrava as dicas de vários autores para lidar com o bloqueio criativo.

Se você não sabe inglês ou tem preguiça de forçar seus neurônios e driblar o Alzheimer, vou deixar aqui os que mais me chamaram atenção traduzidos.

Nunca li o Gaiman, mas saca só a dica dele:

“Sugestões? Deixe de lado por alguns dias, ou mais, faça outras coisas, tente não pensar nisso. Então sente-se e leia (acho melhor de forma impressa, mas isso é para mim) como se nunca tivesse lido antes. Comece do início. Rabisque no manuscrito se vir algo que você deseja mudar. E, às vezes, quando você chegar ao final você estará animado e saberá quais são as próximas palavras. E fará isso uma palavra por vez.” – Neil Gaiman

É algo parecido com o que eu expus ali em cima, usando a frase do Draper.

Eu amo essa:

“Eu aprendi a produzir querendo ou não. Seria fácil dizer ‘ai, eu tenho bloqueio criativo, ai, preciso esperar minha musa [inspiração]’. Eu não. Amarre essa musa na tua mesa e termine seu trabalho.” – Barbara Kingsolver

Essa parece autoajuda de banca de jornal, mas é boa:

“O segredo para ir adiante é começar. O segredo de começar é transformar suas complexas e opressivas tarefas em tarefas pequenas e manejáveis, e então começar pela primeira.” – Mark Twain

Agora o Hemingway:

Hemingway.

“A melhor forma é sempre parar quando se está indo bem e se sabe o que acontece a seguir. Se fizer isso todos os dias, você nunca ficará empacado. Sempre pare enquanto está indo bem e não pense nem se preocupe com isso até começar a escrever no dia seguinte. Dessa forma, seu subconsciente trabalhará nisso o tempo todo. Mas se você pensar ou se preocupar com isso conscientemente você vai estragar o processo e seu cérebro estará cansado antes de você começar.” – Ernest Hemingway

O Hemingway dá umas dicas pra lá de duvidosas, igual à minha de dormir quando não souber o que fazer. E isso só prova meu ponto: lidar com o bloqueio criativo é um processo muito subjetivo. E aprender a lidar com ele faz parte da jornada diária de quem cria conteúdo – se seu ganha pão depende disso, vai por mim: uma solução você vai encontrar. E a solução não é achar que você não tem o dom; não existe essa coisa de dom. Também não é porque você tá sem inspiração; não dê ouvidos a esse papo de inspiração.

Creditar seu bom trabalho a um dom inerente a você é anular seu esforço.

Vai lá e faz. Amarra sua inspiração na mesa e termine seu trabalho, como diria a Kingsolver.

Escrevo coisas de qualidade duvidosa desde que aprendi a assinar meu nome. | kalewnicholas.com/portfolio

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