E CHEGOU O DIA EM QUE O WHATSAPP FOI BLOQUEADO PELO…WHATSAPP!

Há uma história inaceitável em andamento, à qual a imprensa em geral não tem dado a devida atenção, muito provavelmente por causa de pruridos relacionados à concorrência entre os veículos: o bloqueio do WhatsApp (que tem o Facebook como acionista majoritário) do jornal EXTRA, do Rio de Janeiro. É uma medida para a qual sequer são dadas explicações. Influenciadores de todos os níveis deveriam se alarmar com isso. Outros jornais deveriam cobrar. Mas por enquanto, apenas o EXTRA, por necessidade atávica de manter canal com seus leitores/seguidores (hoje, mais “seguidores”), é que faz o devido barulho.

Para quem não é do Rio (e espero que muitos off-Rio leiam isto aqui), o WhatsApp do EXTRA foi criado em junho de 2013, para servir de canal consolidado de relacionamento com os leitores. O desenvolvedor da ideia, o jornalista Fábio Gusmão, costumava brincar dizendo que a partir dali teria milhões de repórteres. E era a mais pura verdade. O EXTRA foi o primeiro diário a ter um canal de WhatsApp e logo foi seguido por outros veículos, inclusive de Rádio e TV. No dia 27 de junho próximo, o canal de relacionamento completaria três anos. Talvez complete. Por que a minha dúvida?

Porque a empresa WhatsApp baniu o número (21) 99602–2721, usado pelo EXTRA para receber denúncias, mensagens, vídeos e fotos de leitores. O jornal tornou disponível o Telegram, pelo número (21) 99644–1263. Com efeito, nas duas vezes em que a Justiça brasileira bloqueou o WhatsApp, o Telegram ganhou milhões de novos usuários — nas três vezes em que houve o bloqueio — em fevereiro e dezembro do ano passado e em maio deste ano — o total de novos usuários do Telegram ultrapassou a marca de 9,5 milhões. Somados, claro, os três bloqueios. Claro que os números do EXTRA no WhatsApp não chegam a este montante, mas o total de contatos salvos ultrapassa os 100 mil. As matérias na versão impressa e no jornal online já ultrapassaram a marca de 5 mil (não tenho os números exatos). São cinco mil matérias realizadas a partir de denúncias, em três anos.

Não se pode ter dúvidas a respeito da eficácia deste canal de relacionamento. E é impossível não se espantar diante deste bloqueio. A controvérsia sobre os bloqueios judiciais pode ser válida — de um lado, o argumento de que um juiz todo-poderoso decidiu atrasar a vida de 100 milhões de brasileiros porque quer os dados que o WhatsApp não tem. De outro, a ideia de que em outros países o FACEBOOK e o TWITTER (não o WhatsApp) abrem seus dados para investigações criminais.

Só que o WhatsApp usado por um jornal diário para viabilizar uma comunicação rápida e relevante com seus leitores simplesmente não comete crime algum.

Deve ser digno de preocupação para todos jornalistas que exista tal arbitrariedade — e com a comunicação all-to-all da grande rede, em vez da one-to-all das mídias tradicionais, é lícito pensar que esta facilidade de circulação de informações possa não ser interessante para muitos. E que estes mesmos muitos queiram, na verdade, a facilidade de intervir, bloquear, censurar.

O PR (Partido Republicano) protocolou no STF uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (a ADIN 5.527) pedindo para que seja inviabilizada a possibilidade de bloqueio do WhatsApp. Segundo a ADIN, a possibilidade é prevista no Marco Civil (com efeito, apesar de serem possíveis várias interpretações, há como se ter uma que permita o bloqueio).

No mesmo mês, a Advocacia Geral da União se colocou contra a ADIN e fez pedido ao STF para que a mesma seja impossibilidade. A ação foi do advogado que já saiu, Fabio Medina Osório. Mas ainda está correndo, e, incrível, baseada nos mesmos argumentos de sempre: os de que é necessário acesso às informações supostamente criminosas que circulam pelo WhatsApp e outros aplicativos! Não se considerou que havia impossibilidades técnicas!

Espanta o fato da AGU não ter analisado o lado técnico? Sim, como nos espanta o WhatsApp bloquear o canal de relacionamento de um jornal com seus seguidores!

Você pode até achar que o bloqueio do Extra + bloqueio do WhatsApp pela Justiça + próximo assunto não têm relações. Mas têm: o elo entre os três é a estranha facilidade que se construiu de cortar fluxo de informação. Em fevereiro, o excelente Gazeta do Povo, do Paraná, denunciou que o Tribunal de Justiça daquele estado estava pagando mais de R$ 100 mil ao mês a cada magistrado. E em junho, eis que temos um ataque da Justiça aos jornalistas que fizeram a matéria, toda comprovada e baseada em informações técnicas. A Associação Brasileira de Jornalista Investigativo já saiu em defesa dos profissionais.

Não tenho o viés militante de achar que “vivemos uma ditadura” ou “ooooh o governo Temer é ditador”. De forma alguma. Não me refiro a conjunturas, até porque o governo anterior tinha ambições de “regulação da mídia” sobre as quais deveríamos ter um olhar igualmente rigoroso. Mas há no ar um sentimento das instituições e corporações diante das possibilidades da internet e da capacidade que a mesma tem de espalhar as notícias (um jornal impresso do Paraná teria dificuldades de nacionalizar a notícia dos magistrados. Um jornal online não), que nos faz pensar se não há uma sutil censura a caminho, um degrau acima do vizinho que nos manda abaixar o som e um degrau abaixo do empastelamento. Vale refletirmos.

E vale alertarmos as redes para o bloqueio sofrido pelo Extra.