É possível viver sem sofrer?

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Me questionava muito isso. Todo dia. Sempre a resposta pra essa pergunta era não, que não importa quanto a vida mude, ainda vamos ter que sofrer muito pela frente. Porém, isso não é totalmente verdade. Podemos sim viver uma vida com muito menos sofrimento .

Sempre me preocupei muito com tudo na minha vida. O que muitas vezes me levou a experienciar sofrimento sem mesmo algo ter acontecido. Uma simples palavra que representa um conceito muito complexo: ansiedade.

Ano passado, dei um passo para uma nova jornada na minha vida: fundei o Construindo o Futuro, me engajei com um processo de aprendizado que me levou a participar de diversos experiências e viagens internacionais, dei aulas em escola pública, estudei muita Física em nível olímpico, rotina das 7–22 horas, dentre outras coisas que sempre considerei difícil de fazer e recentemente fazem mais parte da minha vida do que nunca.

Com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, eu não aguentei. Chorava e chorava com medo de não conseguir alcançar meus objetivos; de falhar com outras pessoas e comigo mesmo. Tinha medo das coisas que nem tinham acontecido ainda. Quando tinha qualquer decepção, me lamentava e jogava pra baixo, achando que aquilo era o fim do mundo.

Esse descontrole gerou uma instabilidade muito grande na minha vida. O ponto máximo de tudo isso foi quando perdi um amigo muito próximo, em que, por mais que consegui manter todas atividades que estava fazendo, comecei a me tornar muito pessimista em relação a vida, e mesmo gostando muito do que fazia, sentia um vazio imenso por me assemelhar a uma máquina.

Hoje, ainda faço a maioria das coisas que comentei acima e tenho uma rotina até mais apertada; porém o sofrimento, ele se foi. E apenas estou escrevendo isso porque já faz um tempo.

Me sinto bem. Com muitas responsabilidades mas conseguindo lidar com elas sem desespero. As vezes, algo em que no passado considerava muito ruim e sofria por dias, passa em cerca de 10 minutos. Sinto menos raiva, tristeza, vazio mas me sinto muito mais completo, feliz e mais tranquilo. O que mudou?

O objetivo desse texto não é trazer para você a chave perfeita de como mudar sua vida em 30 segundos. A ideia aqui é tentar trazer uma visão diferente de como encarar as pedradas que a vida nos dá, e quem sabe, podem te ajudar do jeito que me ajudaram.

A dor é inevitável, mas o sofrimento não.

Se existe algo que deseja muito e não consegue, é normal ficar triste. Sentir uma dorzinha no peito de não ter conseguido alcançar algo. Se você é um ser humano, é impossível que não sinta dor. Aceite isso. Não tente buscar uma vida em que você só sinta prazer, porque é impossível.

Uma coisa que notei enquanto eu ficava por um bom tempo mal é que não era mais a situação que me causava dor. Era eu mesmo.

Um simples exemplo: Terminam com você. Isso te deixa arrasado porque você amava aquela pessoa, certo? Acabou e você sentiu a dor.

A questão principal é: ficar chorando vai mudar alguma coisa? A pessoa vai voltar?

É muito díficil dizer que a resposta é sim. O importante é que você pode tomar a decisão de não sofrer. Isso é por sua conta. Pensando nisso, entramos em um próximo pensamento:

Você não pode controlar o que é externo à você.

“Sê indiferente aos acontecimentos exteriores. Dedica-te à justiça nos teus atos. o que é dizer: pensamento e ação resultam no bem comum. Aquilo para o qual foste criado”-Marco Aurélio, Meditações-9.31

Marco Aurélio, um dos maiores imperadores romanos, fala muito sobre isso em “Meditações”. As pessoas e ambientes que estão fora de você, não é possível ter controle. Há possibilidade de influenciá-los, mas controlar, nunca espere isso.

Pensando no exemplo, você não consegue garantir que a pessoa que te largou volte. Você não controla essa pessoa. Você não controla o que é externo a você.

Então, por que sofrer?

Pratique contentamento

Seneca conta na carta IX, no livro “Cartas de um Estoico”, a história de Estilpo.

Quando Estilpo estava voltando de uma longa viagem, seu país foi totalmente saqueado por barbáros. Seus filhos e esposa foram mortos durante esse conflito. Demérito, conhecido como “Saqueador das Cidades” pela destruição que as causou, perguntou a Estilpo o que ele havia perdido e teve essa resposta:

  • “Eu não perdi nada. Eu tenho todos os meus bens comigo”

A resposta é muito fria, mas traz um valor muito bonito consigo. Estilpo não perdeu nada porque ele tinha com ele todas as memórias junto com a família. Todos os momentos que ele compartilhou com estes que amava estavam intactos. Ele não estava triste, porque tinha todos esses bens com ele.

Quantas coisas acontecem na nossa vida, em uma gravidade muito menor do que perder a família inteira, reclamamos e nos lamentamos muito por ter acontecido. Enquanto, poderíamos seguir o exemplo de Estilpo. Focar nas coisas que temos e não naquelas que supostamente “perdemos”.

Praticar contentamento é como sair da sua escola, perder o contato com a maioria de seus amigos mas ter todos os momentos que passaram juntos na sua mente e mantê-los intactos. Seus amigos representam essas memórias.

“Ok. E todos os momentos que eu poderia ter passado junto com eles se tivesse ficado na escola?”

Esses momentos não aconteceram, logo você não perdeu nada.

Estilpo não perdeu lembranças se a família dele tivesse sobrevivido por que elas não aconteceram. O que deve se deve manter são aqueles que de fato aconteceram e estes são aqueles que não se pode perder.

Escreva sobre você, para você

Quando sentir que estiver sofrendo, escreva.

Comente todos os seus pensamentos sobre o porquê está se sentindo daquele jeito. Trabalhe em cima de toda dor que está sentido, relatando-a.

Escrevendo seus pensamentos sobre a sua vida e o que está acontecendo nela deixará a situação mais clara para você. Relendo, será possível rever o que estava sentido por uma visão fora da caixa e assim tentar combater o seu sofrimento de uma maneira mais fácil.

Todo esse processo é chamado de Journaling, você pode conhecer um pouco mais dos benefícios neste artigo.

Pratique. Repita.

Se coisas que falei aqui façam sentido para você, tente praticá-las. Não só pratique, repita.

Não escreva uma vez sobre seus pensamentos, tenha um hábito de escrever. Não precisa ser todo dia, nem todo mês, mas tenha uma frequência para poder combater o sofrimento.

Se questione se sofrer vai mudar alguma coisa em determinadas situações; e também tente levar em questão se existem fatores exteriores que você não pode controlar.

O sofrimento só pode ir embora se você estiver disposto a isso.