E se eu não quiser casar?

Ilustrações por Beatriz Leite. Contato: beatriz.hmleite@gmail.com.

Acredita-se, no senso comum, que a maneira como sentimos e vivemos o amor é uma experiência universal e natural a todas as pessoas e culturas. Acontece que, na verdade, ao fazermos uma historicização da coisa, o que descobrimos é que o amor como o conhecemos hoje nas sociedades contemporâneas é datado do século XIX e foi incentivado pela Igreja por motivações econômicas. Não tem nada de romântico nisso, é só uma ideia que compramos como verdadeira porque crescemos ouvindo que é assim que é.

Desde crianças, nós aprendemos que amor é aquilo que nos faz querer estar com uma (e só uma) pessoa até que a morte separe, passando pelas etapas namoro, noivado, casamento e filhos. As relações já chegam ao nosso conhecimento com um formato pronto, ao qual é muito mais comum nos adequarmos do que o transformarmos. Conforme crescemos, essas convenções sociais dos relacionamentos são apresentadas para nós de uma maneira que parece tão natural e inescapável, que muitas vezes acabamos nem questionando se é mesmo aquilo que desejamos para nossas vidas e se estamos mesmo satisfeitas com aquilo. Apenas seguimos o fluxo, frequentemente nos metendo em situações que não nos agrada e que, em vez de mudar, agimos como se não tivéssemos escolha.

Essa ideia de que relacionamentos devem seguir uma espécie de escala evolutiva (namorar > noivar > casar > ter filhos) na qual devemos nos encaixar me incomoda, pois deixa pouco espaço para as nossas próprias decisões, escolhas e preferências. E se eu não quiser casar? E se eu não quiser ter filhos? E se a pessoa com quem me relaciono também não quiser?

Aí você pode falar: “Deixa de drama, não quer casar, é só não casar, ué, ninguém tá te obrigando.” Só que não é tão simples assim. Há dois desdobramentos sobre os quais quero tratar nesse texto:

  1. O que significa para um relacionamento não seguir essa escala evolutiva esperada e
  2. O que significa para uma mulher escolher não casar e ter filhos.

Relacionamentos que seguem outros caminhos

Com licença um momento aqui para eu usar minha vidinha de exemplo. Vira e mexe alguém me pergunta ou comenta ou insinua algo sobre casamento com meu namorado. Quando dizemos que não temos intenção nem vontade de casar, ter filhos ou sequer morar juntos, as pessoas se chocam. Algumas me perguntam se eu não sinto falta de ter algo sério — e quem disse que o relacionamento não é sério? Também já falaram pra ele que é muito estranho a gente ter esse relacionamento “assim sem compromisso” — e quem disse que não tem compromisso?

Penso muito sobre como as pessoas costumam associar seriedade e compromisso a pilares tradicionais e socialmente propagados como marcas de seriedade e compromisso, em vez de elas próprias decidirem quais são as coisas às quais dão importância para se sentirem em uma relação que contempla seus desejos (que podem ou não ser seriedade e compromisso). Quantas pessoas são casadas, moram juntas, têm filhos e não têm cumplicidade, não podem contar uma com a outra, traem, desrespeitam etc.? As referências tradicionais parecem ser sempre priorizadas em relação às preferências pessoais de cada um quanto a seu próprio relacionamento.

Quando digo que eu e meu namorado não temos esses objetivos tradicionais, a reação mais comum é minimizar nossa relação, como se não houvesse “amor de verdade” nela. Se não quero ter filhos e acredito no casamento apenas como um contrato social — não tenho religião e não vejo o romantismo da coisa — , não faz sentido, para mim, casar. Ainda bem, então, que estou me relacionando com um homem que também não quer isso. Problema seria se ele quisesse. O mais legal, tanto para mim quanto para ele, é que nós dois vejamos a vida de maneira parecida. Não pensar em casamento e filhos não quer dizer nem que não pensemos em um futuro juntos. O que acontece é que pensamos primeiro na nossa independência. Por exemplo, quero ter meu apartamento, sem ele, com as minhas coisas e as minhas regras. Assim como ele com o apartamento dele. Quando dá vontade, nos visitamos. A falta dos objetivos tradicionais é justamente algo que nos une, algo que temos em comum.

Não estou contando isso pra dizer que somos um casal incrível e saudável. A questão aqui é: nossas relações amorosas não precisam se enquadrar nos padrões sociais se não forem esses padrões o que nos deixa mais satisfeitos e é sempre produtivo nos questionarmos quanto ao que exatamente nos satisfaz e sermos honestos com nós mesmos, fazendo escolhas que nos levem a isso. Nós não precisamos atender às expectativas sociais, tampouco elas são a maneira “correta” de se relacionar com alguém.

Descumprindo meu papel social de mulher

Mais do que uma questão sobre relacionamentos, isso é também uma questão de gênero. Ainda hoje, as pessoas acreditam que mulheres que não querem e não vêm a ser mães irão se arrepender, se sentir incompletas. Quer chocar um grupo de pessoas, fale publicamente que não quer ter filhos. As pessoas olham como se tivesse alguma coisa errada com você, olham como quem busca encontrar qual é o seu defeito, onde foi que seus pais erraram com você na infância pra você ter crescido assim sem coração. Curiosamente, ninguém reage assim quando um homem fala o mesmo. Esse é um julgamento ao meu relacionamento, mas é, principalmente, a mim como mulher. Porque não estou cumprindo meu papel social designado.

Em pleno século XXI, com cada vez mais liberdade no modo de viver das pessoas, ainda se espera que a mulher cumpra um papel que nos foi atribuído séculos atrás. Veja bem, não há nada de errado em querer casar e ter filhos, em ser dona de casa, mas desde que seja isso que a mulher tem vontade de fazer. O que está sendo discutido aqui é a (falta de) aceitação social das mulheres que fazem escolhas diferentes dessa. E olha que aqui estou fazendo um recorte bem específico e tradicional, que são as relações erótico-afetivas entre um homem e uma mulher — nem entrei no mérito de relações com mais pessoas, relações homoafetivas e tudo mais. Isto é, mesmo nas relações heteroafetivas, conforme considerado padrão, há cobranças para que elas funcionem dentro de um determinado molde. Quando saem desse molde pré-estabelecido, a relação em si é julgada e a mulher principalmente — o homem continua podendo fazer o que quiser mesmo.

O problema dessa expectativa social para a mulher é que ela gera uma pressão horrorosa. Tem que casar a tempo de ter filho dentro do funcionamento do relógio biológico e, por isso, tem que investir em um relacionamento logo pra poder dar tempo. Como é que alguém consegue se relacionar tranquilamente tendo que se preocupar com tudo isso? Esse pacote de destino para a mulher nos é vendido como o único caminho possível e desejável, o que acaba causando muita frustração para aquelas que querem isso e não conseguem.

O pacote, esse modelo pronto de como deve ser um relacionamento e como deve ser o percurso de vida de uma mulher, é nocivo tanto para as mulheres que o rejeitam quanto para as mulheres que o almejam. É sempre em referência a ele que vivemos, estejamos em conformidade com ele ou não. Se o rejeitamos, somos julgadas e, se corremos atrás dele, somos desesperadas e ainda podemos nos frustrar muito. Não tem como vencer.

Desconstruindo os moldes

A coisa mais preciosa que aprendi desde que comecei a estudar relações é que elas não são naturalmente como as conhecemos, elas foram construídas assim em algum momento da história e, se foram construídas, podem ser desconstruídas. Isto significa que não precisamos nos adequar a molde nenhum e que faz muito mais sentido pensarmos no que funciona melhor pra gente e combinarmos com quem nos relacionamos os termos das nossas relações — que podem variar de pessoas pra pessoa, de um momento da vida para o outro, ao longo da relação e por aí vai.

Você não precisa casar para a sua relação ter compromisso. Você não precisa ter filhos para ter família. Você não precisa agradar ninguém além de você mesma. Você não precisa fazer nada para viver em conformidade com uma sociedade que nem está preocupada com quem você é como indivíduo. Liberte-se!


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