Economia: crescer ou desenvolver?
Prezado leitor, regularmente você deve escutar por aí que para uma economia desenvolver-se é necessário um forte crescimento econômico por trás. O que muita gente não fala é que esta, certamente, é uma das posições mais contundentes de uma doutrina econômica que, nos dias de hoje, domina o pensamento dos economistas brasileiros (principalmente daqueles que estão presente na mídia). Entretanto, esta doutrina encontra-se em declínio no cenário mundial. Eu vou explicar o porquê ao longo do texto.
Primeiramente, é preciso dizer que quando se fala em economia ou ciência econômica, não é difícil encontrar pessoas que façam uma associação desta matéria com uma área de exatas (matematizada). Entretanto, nem sempre foi assim. A economia, enquanto campo de estudo, é muito antiga. Costumeiramente, a sua fundação é associada com um filósofo britânico, Adam Smith, no século 18. Entretanto, é possível encontrar textos que abordam problemas de razão econômica em Platão e Aristóteles. Estes últimos, tratavam da econômica como algo indiferente da ética. E aqui, corro um risco tremendo de ser taxado como uma espécie de segmentarista pois, para ser mais preciso, não havia uma distinção do que era ética ou economia na época desses filósofos. Tudo fazia parte de um só campo de conhecimento. Não é para menos que um dos pais da economia clássica, Adam Smith, era um professor de filosofia moral. E, segundo um dos mais prestigiados economistas contemporâneos, Amartya Sen, até meados de 1930 algumas universidades ensinavam economia como um campo de conhecimento ramificado da ética, é o caso da universidade de Cambridge.
O parágrafo acima explica muito o porquê de os economistas serem denominados, antigamente, de economistas políticos. Estes, elementarmente, faziam parte da economia política. Os economistas políticos preocupavam-se com os valores encontrados dentro de tudo aquilo que podia ser abraçado pela economia. O que gerava valor? O que é valor? Como às trocas são efetivadas? Quais os interesses que levam às trocas? Propriedade privada é justo? Estas e inúmeras outras perguntas, consideradas hoje somente de cunho filosófico, faziam parte do cotidiano dos economistas políticos. Entretanto, este tipo de pensamento começou a perder força com a ascensão de alguns economistas com formação em engenharia. Estes economistas contribuíram para deixarem a economia mais técnica. Trouxeram consigo instrumentos matemáticos robustos para tentarem explicar o comportamento dos agentes econômicos. Os seus instrumentos proporcionaram um olhar diferenciado sobre o comportamento destes agentes. Um comportamento racional, maximizador. Com o tempo, caiu-se em desuso o termo “política”, dando impulso ao que, nos dias de hoje, chamamos de ciência econômica.
Como eu havia mencionado no início do texto, este método maximizador com recursos limitados e alocação eficaz, faz parte somente de uma das doutrinas encontradas dentro das teorias econômicas. Aqui, confesso que os modelos matemáticos possuem um apelo muito forte. Para muitas pessoas, os números são palpáveis. Representam, na visão destas, a realidade como ela é. Os seus métodos explicam, na teoria, toda uma conjuntura. Arriscando-se ainda em previsões sobre o que está para acontecer. Dificilmente debate-se contra números, somente se você trouxer outros modelos econométricos para a discussão.
Espero que você tenha percebido o quanto isso é limitador. O economista Hunt, por exemplo, no livro História do Pensamento Econômico, realiza uma dura crítica com relação à pretensão da ciência econômica em colocar em números todos os tipos de comportamentos. É o que Hunt chama de esoterismos matemático. Como é possível números preverem o comportamento de um indivíduo? Como é possível que números afirmem qual a melhor decisão que deve ser tomada por um único indivíduo? Se em nível individual este tipo de perspectiva já parece um absurdo, imagine agora em nível macro. Ministros da fazenda, em qualquer nação, adotando políticas econômicas somente com base em números que devem ser atingidos a qualquer custo, onde qualquer outro tipo de argumentação teórica é considerada um absurdo.
A crítica de Hunt é ainda mais incisiva. Ele diz que todo esse método matemático que é encontrado nos dias de hoje dentro do campo econômico não passa de um instrumento de dominação que possuí como objetivo realizar uma seleção daqueles que são capazes de compreender e pensar somente em modelos de maximização. Ou seja, igual os seus pares. Somente estes poderão fazer parte do círculo de experts. Os outros, são considerados irracionais.
Introduzido os aspectos supracitados, podemos dar continuidade. O que é melhor? Crescer ou desenvolver?
Para responder esta questão, utilizei de um artigo escrito pelo economista Sir Arthur Richard Jolly: “Desenvolvimento humano e neoliberalismo: comparação de paradigmas”.
No artigo em questão, Jolly aborda à existência de duas vertentes teóricas, por assim dizer, que possuem posicionamentos distintos com relação ao objetivo ou instrumentos que devem ser utilizados na economia. Tais vertentes são denominadas pelo autor como: Neoliberalismo e Desenvolvimento Humano.
O Neoliberalismo é algo que já está extremamente disseminado e que não necessita realizar uma introdução. Se você possui o mínimo de curiosidade ou se você acompanha toda à cena econômica, deve estar minimamente familiarizado com o discurso do Neoliberalismo. Existem inúmeras páginas nas redes sociais, comunidades, institutos de pesquisas, grupos de estudos, fomentadores, militantes e simpatizantes da vertente Neoliberal. Em contrapartida, dificilmente encontra-se o mesmo engajamento com relação ao Desenvolvimento Humano. Dentro do próprio círculo de acadêmicos, o Desenvolvimento Humano causa estranheza. Sendo confundido por alguns como um método desvirtuador e assistencialista (no modo pejorativo). Com o intuito de difamar esta vertente, ela é associada muitas vezes com um método socialista.
Ocorre que o Desenvolvimento Humano possui como base estrutural toda uma tradição liberal. Liberal no sentido de proporcionar aos indivíduos os meios necessários para que estes possam realizar às suas atividades da maneira que acharem melhor.
Segundo o artigo escrito por Jolly, o Desenvolvimento Humano não faz parte de uma doutrina. E, por este motivo, é muito difícil conceituar, de maneira precisa, o que é o Desenvolvimento Humano. Contudo, segundo o autor, os relatórios de Desenvolvimento Humano que são publicados a partir da década de 90, abordam o termo como “um processo de ampliação de escolhas humanas e de fortalecimento das potencialidades humanas”. Em complemento, os relatórios também utilizam os conceitos de “capacitações” e “funcionamentos” que foram elaborados pelo economista e Prêmio Nobel Amartya Sen.
Contudo, apesar de Jolly afirmar que é difícil conceituar o que é a abordagem do Desenvolvimento Humano, o autor realiza um esforço intelectual e consegue trazer de maneira sucinta para os leitores quais as características que compõem esta linha de pensamento em comparação com o já disseminado Neoliberalismo:

Utilizando da tabela acima, é possível entender o motivo pelo qual o Desenvolvimento Humano causa certa estranheza entre os economistas, principalmente entre os que possuem um viés teórico voltado para o mercado. Isto ocorre, na minha visão, pois equidade e justiça, o princípio orientador do Desenvolvimento Humano, é um tema multidisciplinar que foge da zona de conforto da atual ciência econômica. Outro ponto importante é o que Jolly atribui como “principal foco”. Uma redução da pobreza, como prioridade, é sempre mal vista aos olhos daqueles que são mais afortunados, o que diminui o apelo e dificulta colocar em prática os seus métodos em contraponto com o que é necessário para o crescimento do topo da pirâmide.
É claro que não podemos ser irresponsáveis a ponto de deliberar que o Neoliberalismo não possui uma política voltada para os pobres. Ocorre que esta política é voltada não para os pobres em sí, mas para o crescimento econômico que, em tese, proporciona melhor qualidade de vidas para os populares que se encontram na base da pirâmide. Tal comparação pode ser compreendida na tabela a seguir:

Quando Jolly afirma que no Neoliberalismo “externalidades do crescimento podem ser esperadas” ele quer dizer que existe um fator, chamado externalidades positivas, que pode ocasionar uma melhora do bem-estar para os pobres. Entretanto, isto só poderá ocorrer se a economia crescer da maneira correta, sem intervenção governamental. Uma economia onde os empresários possam atuar da melhor maneira possível, com uma concorrência que gera os melhores preços nos mercados. Essa disputa entre os empresários é que vai proporcionar um crescimento econômico sustentável e que, como um benefício extra para a população, reduzirá a pobreza.
Mas, quando a redução da pobreza vai realmente acontecer? Esta que é a grande pergunta que se deve fazer quando se enfrenta a posição Neoliberal.
Na teoria, parece que é muito bonito que essa disputa entre os empresários poderá gerar um benefício para a população como um todo. Entretanto, não existe um prazo para que isto ocorra. Só se sabe que o crescimento poderá, em algum momento, melhorar o bem-estar. E aqui existe outro ponto importante: não se sabe também qual que é o nível de bem-estar que é o ideal, o bem-estar desejável. É nesta lacuna deixada pelo Neoliberalismo que entra a prioridade do Desenvolvimento Humano. Ele quebra com este descompromisso, como pode ser visto na tabela a seguir:

Na tabela fica evidente a distinção realizada pelas duas vertentes, principalmente no que diz respeito à saúde e educação. O interessante disso tudo é que quando você escutar um economista na televisão defendendo que investimentos em educação e saúde são necessários você poderá se perguntar: “ok, mas através de qual visão que ele está dizendo isso? Trata-se de uma ótica voltada para o desenvolvimento ou para o crescimento?”.
O tipo de pergunta acima é essencial para compreender qual que é a política econômica que um país está adotando. Faz-se importante também em épocas de eleições, quando os políticos estão realizando a propaganda da sua equipe econômica e sinalizando qual o tipo de planejamento econômico que será adotado.
À essa altura do texto, acredito que você já tenha compreendido que crescer ou desenvolver são duas opções distintas. Crescimento econômico não necessariamente ocasionará um desenvolvimento. Dessa forma, sempre desconfie quando alguém lhe falar que para desenvolver é preciso primeiramente crescer e fortalecer àqueles que sãos os “motores da economia”.
Por fim, se você deseja aprofundar-se no tema, recomendo os seguintes textos:
Jolly, Richard. Desenvolvimento Humano e neoliberalismo (2007).
Sen, Amartya. Desenvolvimento como expansão de capacitações (2007).
Sen, Amartya. Sobre Ética e Economia (1999).


