Educação sentimental não é um bicho de 7 cabeças!

E Nietzsche vai me ajudar a te ajudar

Marginalia reprodução

O que antes, poeticamente e religiosamente — entre outras filosofias vastas — era associada à alma, hoje a ciência médica já se aproxima com mais delicadeza sobre os discursos dos sentimentos com tal, compreendendo e apontando elementos de tamanha importância para novos passos em compreender o vitruviano contemporâneo.


Recentemente esbarrei com uma entrevista na revista Veja (de Junho, 04/2018) do pesquisador Felipe Vilicic, intitulada “O impacto do Sentir” e todas os desdobramentos que o autor me colocava intimamente entre as folhas amarelas e meu café expresso amargo num dia cinza e frio.

Fiquei contente em perceber esse diálogo de tamanha importância e tudo o que o pesquisador mostrava (principalmente em seu novo livro sobre os sentimentos) com o que eu já recentemente me preparava para escrever algo. Veio a calhar.

Aqui, no entanto, passo por esse assunto como provocação da simplicidade do que não é simples e ainda evoco como convidado nestes extratos Friedrich Wilhelm Nietzsche, que apesar de parecer um tanto controverso, para quem já leu integralmente alguma obra dele, não o é!

Em sua autobiografia, principalmente, ele trás um punhado de tintas sentimentais em cores diversas do pensar dele que cabem aqui, reflexões um tanto menos morais (só um pouquinho que seja) e menos Übermensch.

Sentimento é tudo o que nasce de você à partir das emoções e que consequentemente esta é resultado do corpo e da mente, é uma
cascata assim mesmo, como tudo. E esse assunto, embora com ar de batido ou clichê, mesmo assim ainda é tristemente apenas “lido” e ignorado pela maioria, apenas restando um ar de “tenho que fazer, tenho que ser, tenho que incluir terapia na minha vida”, mas calma, vamos aqui só refletir inicialmente, só dirigirmo-nos à nós mesmos.

a alma, que tem a escada mais longa e pode ir mais fundo, abaixo, a alma mais vasta, que pode correr e errar e vaguear mais longe dentro de si (…)
— Nietzsche, Ecce Homo, p.121.

Ninguém, atualmente, mata mais um leão por dia, na velocidade em quem ventos modernos estão golpeando, estamos lidando com um por minuto, e é ai que esquecemos de nós mesmos no meio dessa tempestade de informações.

Sentimentos não são um bicho de sete cabeças, eles estão aí a todo momento, todo instante, e embora você consiga os mascarar com emoções — quando você está desanimado mas por fora aos outros está sorridente e aparentemente feliz, o que é bem comum em pessoas com distúrbios químicos na depressão, a propósito — , os sentimentos não são possíveis de serem camuflados por e para você mesmo.

Sentimento é caminho importante da evolução tal qual como Vilicic deixa bem claro ao longo de sua entrevista, e nós estamos sendo, em certo aspecto desta mesma evolução — e aqui quando sugiro isso não estou falando de uma faceta à la hegemonia! — sendo pressionados a compreender e entender melhor elas.

Para onde foi a lágrima do meu olho e a flor do meu coração?
— Nietzsche, Ecce Homo, p.124.

Um exemplo claro que vêm à mente sobre este aspecto é o que na psicologia chama-se de histeria coletiva, ok, talvez seja um bocado exagerado meus raciocínios a partir daqui tentando estabelecer um paralelo com esse vertente mental e os sentimentos compartilhados, mas é apenas uma analogia, psicólogos de plantão, me perdoem se eu falar bobagem que aprendi
por aí entre páginas quaisquer (ou meu antigo professor de psicologia e filósofo, tenho a quem me inspirar, risos).

Aproveito e deixo aqui, como sugestão pós leitura o filme “Regressão” (Regression, 2015) do diretor Alejandro Amenábar, que mostra lindamente este nosso debate inicial.

Das redes sociais à convívios diários, das matérias telesivas aos debates políticos, das mesas de bar com assuntos e historinhas com amigos à pressão para pagar os boletos nossos de cada dia por motivos econômicos evidentes em que todos são atingidos sem exceção, há uma contaminação de sentimentos e, veja bem, não estou falando de emoção! É mais que isso.

Um detetive e um psicólogo investigam o caso de uma jovem vítima de abuso sexual pelo seu pai. A aplicação de terapia de regressão por hipnose revela evidencias de uma seita secreta de cultos satânicos envolvendo estupros, raptos e sacrifícios. O que transforma uma pequena comunidade em vítima do medo e histeria coletiva.

Aprendi que emoção e sentimento são coisas bem diferentes entre vivências energéticas (reiki, ioga e meditação) e espirituais
que já tive a oportunidade de conhecer (principalmente a Umbanda), então, isso faz sentido agora em paralelo com o que a ciência agora deixa bem definida e clara a diferença entre emoção como junção da mente e corpo em uno e o sentimento como subproduto da emoção muito mais complexa! Intrínseca.

Essa espécie de homem que ele [Zaratustra] concebe, concebe a realidade como ela é: ela é forte o bastante para isso — ela não lhe é estranha, ele não fugiu a ela, ela é ela mesma, ela ainda carrega em sí tudo o que é terrível e questionável nela, e só com isso o homem pode ter grandeza.
— Nietzsche, Ecce Homo, p.153.

O que quero desanuviar com isso, é que compreender estas diferenças e dar conta de que elas, em telas contemporâneas atuais, estão em absolutamente todos os lugares. E que quanto mais nós nos comprometermos com nosso autoconhecimento de se perceber nossos sentimentos, mais benefícios nós (e a todos os seres à nosso volta, diria agora um monge budista) possibilitaremos para não mais se camuflar com tudo o tempo todo.

Como praticar a educação sentimental?

Tudo isso, sem dúvida é caminho pessoal.

Costumo dizer aos mais próximos de mim, que aquela pessoa que nunca na vida ficou pelo menos um longo período sem engatar em outra relação amorosa, amizade vampírica ou de necessidades constantes em estar
e ser outras pessoas à volta excessivamente é justamente a pessoa que menos conhece a si e possuí medo de se ver em verdadeira realidade.

Por quê? Porque é difícil enfrentar a verdade, dói, machuca, é levantar a poeira quando se resolve fazer uma faxina na sua casa e que nunca havia antes feito, e nem sabe como fazer. É obvio que vai incomodar os olhos, nada prazeroso e requer ainda esforço e persistência, e quem quer fazer isso?

Então, entenda, pra ninguém é fácil, e ninguém é Ser Iluminado que tudo sabe ou já tenha se autoconhecido e fim de papo, porque tudo isso é constante.

  • 1.Faça uma lista do que você gosta em você! Suas qualidade e do que você tem que gostaria de achar em outra pessoa;
    2.
    Faça cartas constantes, escreva com sinceridade tudo o que sair de você sobre uma determinada pessoa do seu presente ou passado, de preferência em primeira pessoa, depois, queime-a;
    3.
    Elogie com sinceridade mais as pessoas, principalmente as que você mais tem aversão por algum motivo;
    4.
    Pare de se pressionar sobre qualquer coisa, trabalho, sucesso, financeiro, pessoal, seja lá o que você acha e se compare com outras referências na sua vida, tá errado! Você não é e não tem a obrigação de ser igual. Olhe para as necessidades da sua essência primeiro, provavelmente você nem quer o que as outras pessoas querem;
    5.
    Pratique meditação. Mas calma, você não precisa sentar em lotus e atigir o Nirvana. Seja deitado, seja três minutos em qualquer 
    horário para respirar fundo, seja ouvindo por um tempo apenas os sons a sua volta sem tentar pensar, tudo é válido. Mas tenha esse momento com você e com o que você sente todos os dias.

São todas sugestões práticas simples e que você provavelmente já as leu por aí em algum outro lugar, saiba que o que você se sentir seguro ou aberto à fazer, já é degrau galgado e mérito seu.

Não é driblar os sentimentos e estar sempre positivo, sorridente e
feliz, é saber conversar com você quando sentir que algo não lhe agrada, algo está em desiquilíbrio, e para isso, antes você precisa saber reconhecer quando está assim. Por isso, se dê ouvidos.

É muito difícil para mim estes passos

Tudo bem, então vamos partir antes do princípio em que você possa fazer coisas que lhe deixe feliz! simples assim. Esforço existe em tudo, até pra ir buscar um copo de água, certo, então, sair da zona de conforto, mesmo que um pouquinho já lhe exigirá algo.

Eu achei um lista de coisas/metas pessoais intitulado “coisas para fazer antes de se apaixonar” e o mais irônico é que estava dentro de um livro do Nietzsche (por isso ele é nosso anfitrião poético no decorrer deste texto), então, vou compartilhar aqui o que já fiz:

a) Viajar sem roteiro ou destino
b) Cometer um grande erro
c) Ler Alice no País das Maravilhas original
d) Fazer uma tatuagem nova
e) Comer um pote de sorvete com jujubas assistindo Um lugar Chamado Notting Hill
f) Escolher um assunto aleatório de seu interesse e ler/estudar por hobby até se tornar um “especialista” de bar
g) Apreciar o que você tem agora
h) Parar de esperar e fazer aquilo que sempre quis
i) Parar de dar desculpas para tudo e consentir com tudo
j) Apaixonar-se por si mesmo

No meu caso, estas eram as minhas promessas e prioridades à quatro anos atrás, agora, só falta se apaixonar mesmo.

Crie a sua.

Educação sentimental (alô pais, tios, avós e todo mundo) é emergente e deve ser passado e acompanhado como direito e dever desde crianças na nossa família até todos que estão no nosso cotidiano, é começar dando um basta em jargões e piadinhas sentimentais, sem fundamentos e pensando criticamente em como aquilo será interpretado em suas verdades, isso é base de respeito e estímulo sensorial, filológico e emocional para todos à nossa volta.

As adoções de diversas atividade sentimentais e interdisciplinares nas escolas
principalmente (como a meditação, da qual já é realidade em diversas), é um ótimo caminho para se conversar sobre.

Neste mesmo contexto, os homens e a masculinidade do século XXI também estão inseridos como ponto extremamente importante para a educação sentimental, novos pais e novos homens nos relacionamentos afim de corrigir erros de gerações passadas no campo da educação (este destaque merece um textão só sobre, por enquanto indico o projeto @Prazer Ele que possui maravilhosamente esse foco educacional e informativo ou o projeto Ignição no Papo de Homem).

A atual geração de crianças, adolescentes e jovens adultos com problemas sentimentais e pessoais não é mais minoria, não é mais “bobagem” ou “falta do que fazer” e isso já era pra estar muito bem entendido. Seja responsável por você e zeloso sobre o que você fertiliza e dissemina aos outros, trabalhemos nisso, pois é emergente.

- Fui compreendido? — Dioniso contra o crucificado… p.154.

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