Educação além dos livros

Limites de um paradigma

Já é um lugar comum ouvir educadores e especialistas dizerem que a educação precisa ultrapassar “os muros da escola” e “ir além dos livros”. Mas o que isso quer dizer? Em primeiro lugar, reconhecer que os livros não podem nos ensinar tudo: basta lembrar da cultura exclusivamente livresca e ingênua das crianças do recente filme Capitão Fantástico. Mas a coisa começa a ficar complicada quando se supõe que existiria uma espécie de “experiência real e verdadeira”, muito superior ao saber abstrato, mediado pela reflexão e imaginação, despertadas através da leitura.

Como um antigo empirista inglês do século XVIII, os defensores radicais da experiência veem os canais sensoriais como única fonte de saber. Um saber mais produtivo e funcional, mais rico e prático do que a reflexão que vem da leitura.

Com base nesse paradigma, aulas de geografia acontecem em florestas, professores de biologia dissecam sapos e germinam feijão, professores de português de vanguarda levam repentistas para dentro da sala, enquanto professores de história passam trabalhos em que seus alunos devem entrevistar velhos contadores de causos e moradores da comunidade. Nada de errado nessas atividades. E há mesmo algo de rico nesse tipo de experiência. O problema é quando essas práticas são alçadas ao céu do ensino em detrimento da leitura e da reflexão, criando uma espécie de fosso entre a rica experiência prática e as abstrações vazias da reflexão. Nesse horizonte, o livro, a leitura silenciosa, e as anotações e rabiscos à beira da página, aparecem como uma espécie de obstáculo para a conquista da autonomia na busca pelo conhecimento. Uma busca que aconteceria apenas “colocando a mão na massa”, “sentindo o cheiro da chuva”, “vivendo experiências reais de verdade”.


Platão e a escrita

Essa crítica a cultura escrita não é algo recente, tampouco de vanguarda. Platão, por volta 370 aC, já havia se voltado contra a falsidade das palavras. É famosa a passagem do Fedro: Sócrates diz que a leitura de textos escritos não pode nos ensinar nada. Pois o texto escrito, ao contrário do diálogo, é uma espécie de gravação rígida e muda, que repete desde sempre a mesma mensagem. E o que é mais grave: jamais responde a um questionamento. A essa rigidez da palavra, Sócrates, personagem do livro de Platão, defende o exercício do diálogo vivo, onde o movimento é sempre constante e a verdade nunca está pronta.

Ao contrário de Platão, os escolásticos e depois os iluministas e suas enciclopédias, alçaram a cultura escrita ao centro do conhecimento. Com o surgimento da prensa de Gutenberg, que democratizou o acesso ao livro, o saber deixou de ser um privilégio dos monges e dos nobres. Qualquer um que fosse iniciado nos rituais da escrita e da leitura, poderia, por si mesmo, ter acesso ao conhecimento acumulado ao longo dos séculos. Um conhecimento que ia muito além das fronteiras da vida e da experiência particular de um camponês sedentário, ou mesmo de um viajante experimentado, conhecedor de terras exóticas. Um conhecimento que alargava de maneira inimaginável os horizontes da vida e do mundo. Além das caravelas, foram os livros que suportaram o peso de abrir os horizontes da terra, abalaram o teocentrismo, e fizeram brotar a dúvida na cabeça dos homens daquele tempo.


Se a riqueza da cultura oral visa quase sempre a conservação de hábitos, costumes e crenças, a cultura escrita tem no seu cerne o questionamento. Até pouco tempo, a Igreja Católica mantinha uma lista de obras consideradas heréticas. Conhecido como Index, esse catálogo de livros proibidos, contendo ideias tidas por subversivas, só foi abolido pelo Papa, acredite, em 1966. Na visão dos poderosos, os livros sempre foram coisas perigosas. Pois na relação direta com o texto, não há necessidade de submissão a um mestre portador da verdade, não há hierarquia. E seria mesmo absurdo para os padres medievais imaginar que um simples camponês pudesse ler — e interpretar — as passagens sagradas por si mesmo. A leitura é um elemento fundamental nesse processo de secularização do mundo. Um gesto de profanação e liberdade.


Limites da experiência

O principal elemento da leitura é a imaginação. E imaginar é experimentar as vidas, os lugares e as culturas que nos seriam totalmente inacessíveis na prática, mesmo se vivêssemos duzentos anos. Por mais experiências que uma vida bem vivida possa dar, esse saber particular torna-se minúsculo, comparado com meia dúzia de prateleiras de uma boa biblioteca. Podemos levar nossos filhos ao parque, a um acampamento de verão, ao zoológico, e se formos privilegiados, até mesmo à África e à China. Mas, no mais das vezes, essas vivências se restringem a centenas de fotos e pequenos vídeos: o paradigma do turista atrás da tela. Walter Benjamin, em meados do século passado, em seu ensaio Experiência e Pobreza, como também em O narrador e nos textos sobre a obra de Baudelaire e a figura do flâneur, já havia diagnosticado que a experiência (aquela que produz conhecimento), estava em queda, com a aceleração do tempo, os choques constantes e o excesso de estímulos causados pela vida moderna. E nesse sentido, é quase impossível participar de um retiro na natureza ou uma imersão na floresta, senão na situação de turistas: ou seja, temos vivências, mas não experiências. Não dá para voltar no tempo. É impossível viver na floresta ou no campo hoje como nos séculos passados. Podemos apenas imaginar. E talvez ler um relato de um homem daquele tempo seja mais rico do que passar um fim de semana na mata.

Tampouco podemos realizar a fissão nuclear no laboratório da escola, e seria absurdo, numa aula de Ética, pedir aos alunos que matassem um colega para poder experimentar a situação de assassino e descobrir, apenas pela experiência concreta e particular, que é errado matar alguém. Seja na Física ou na Filosofia, o caminho de construção do conhecimento é tributário da imaginação. Pois se assumíssemos a experiência como único local do saber verdadeiro, nosso horizonte de conhecimento ficaria restrito ao minúsculo campo do indivíduo: aquilo que eu vi, senti, ouvi. E vemos, sentimos e ouvimos muito pouco, durante toda a vida.


Visão romântica e idealizada da natureza

É curioso também, que nesse horizonte de depreciação do poder emancipatório do livro e da leitura, da abstração e da imaginação, algumas correntes pedagógicas ressuscitem uma visão de natureza semelhante a visão do Romantismo alemão. “A natureza é sabia”, ou “o contato com a natureza é mais rico do que qualquer livro”, é preciso “imitar a natureza”. Curioso que, as mais radicais experiências de imersão etnográficas do nosso século, em florestas selvagens e tribos “puras”, que tiveram pouco ou nenhum contato com a civilização ocidental, chegue até nós… escritas em livros, por doutores extremamente ilustrados.

Se o respeito ao outro, a diversidade de crença, de sexualidade e de etnia é hoje uma questão urgente, é necessário questionar os limites da noção de experiência, que muitas vezes surge no horizonte do debate pedagógico como uma perspectiva revolucionária. É necessário pensar em que medida essa exaltação da experiência particular não é um retorno a um empirismo grosseiro (que é, aliás, o paradigma do cientificismo), como também, mais um sintoma do individualismo que reina na nossa época.

Pois o que muitas vezes sustenta um discurso violento, e preconceituoso, é justamente o horizonte estreito da própria experiência. Aquilo que vem de dentro, os saberes e crenças construídos ao longo da sua vivência particular: enquanto o privilegiado exalta sua trajetória de conquista da riqueza, evocando a falácia da meritocracia, o preconceituoso costuma basear seus princípios naquilo viu e ouviu, na sua minúscula vida particular.

Num país onde 44% da população não lê e 30% nunca comprou um livro, num país onde 55% das crianças de 8 a 9 anos não sabe ler; num país onde 41% dos jovens até 19 anos não conseguem concluir o Ensino Médio e, dos que completam, 72% não têm um conhecimento suficiente de Português, talvez o problema não esteja na falta de experiência.

Falar em educação além dos livros nesse cenário é, ou ingenuidade hippie paz e amor, ou falta de conhecimento (e leitura!), mesmo.

Exaltar a cultura não-letrada numa sociedade não-letrada parece uma maneira de mascarar esse problema e fazer de uma grave deficiência uma falsa virtude. Imaginar outros modos de ver e de ser, conquistar a autonomia da construção do saber passa, sim, pela valorização de outros saberes: mas isso não deve ser feito em detrimento do livro. Tampouco do poder emancipatório da leitura.


Dilemas da época

O maior dilema da nossa época parece ser o seguinte: o que devemos ensinar aos nossos filhos, num tempo em que as coisas se transformam cada vez mais rápido? É natural que haja nesse contexto um retorno romântico e muitas vezes ingênuo ao culto da natureza sábia, como também a experiência particular. Mas se por um lado a lentidão da natureza não serve mais como antídoto ao tempo hiperacelerado da metrópole, do trabalho e das redes sociais, tampouco é possível agarrar-se a âncora da experiência particular na tentativa de reverter as já borradas fronteiras entre virtual e real. É mesmo angustiante descobrir que aquilo que aprendemos através da experiência, escolar e para além dela, não terá muita validade para nossos filhos. Nascemos num mundo, já vivemos em outro e nossos pequenos vão viver numa realidade três vezes distinta da nossa. Nossos conselhos, construídos pela experiência, valem pouco. E talvez a maior riqueza que possamos deixar para eles seja, nem tanto uma vasta biblioteca, mas o hábito de imaginar outras formas de viver, pensar diferente, exercitar a leitura crítica: dos livros, claro, mas também do mundo.