Ei, não morra de fome, abra sua empresa… otário.

Que me desculpem os grandes entusiastas do empreendedorismo mas acho quase criminoso esse papo de 2016 será o ano para se abrir a própria empresa. Aconselho prudência a quem está pensando em abrir sua empresa diante das "oportunidades da crise".

Nem todo mundo nasceu pra empreender como a mídia tem tentando convencer a população. Nem todo mundo nasceu pra ser dono ou chefe. Nem todo mundo tem tino pra negócios, para algumas pessoas faltam aptidões básicas para tocar um empreendimento simples, mesmo que seja uma franquia (onde há uma "suposta" promessa de segurança de seu investimento).

É preocupante ver defenderem a crise como argumento para se empreender. Não é porque você teve uma boa ideia, não é porque descobriu uma oportunidade de negócio, não é porque encontrou um filão a ser explorado… é pra ter o que comer. "Ei, não tem emprego? Abra seu negócio e seja um sucesso!". Lógico, esquecem de informar que mesmo antes de BUM de empreendedorismo quase 60% das empresas não fazem 2 anos de vida. Geralmente, quando quebram, levam os sonhos, o crédito e até mesmo a casa própria, carros e outros bens de quem acreditou que era só abrir um CNPJ e "virar patrão".

Se antes muita gente empreendia pra "não trabalhar pros outros", "fazer meu próprio horário" ou "não ficar a mercê das variações da economia (?)" — e depois descobriam que ao abrir seu próprio negócio trabalhariam mais, teriam menos tempo pra viver e passariam a ter dor de cabeça com impostos, leis trabalhistas e afins — agora é "para sobreviver".

Abrir uma empresa pra vender o almoço e comprar a janta é como jogar no bicho achando que vai dar na cabeça e as contas do mês estarão pagas: alguém pode até se dar bem assim mas a maioria vai quebrar a cara. Sem planejamento a médio e longo prazo, sem lastro, sem suporte. Vejo na TV o engenheiro que agora lava carros, a dentista que faz bolo, o arquiteto que assa galeto sendo vendidos como grande heróis da crise e não como um grito de sobrevivência — que é o que realmente são na maior parte das vezes. Vendem essas pessoas como pessoas corajosas, que desafiaram o status-quo… ao invés de vender a história real, de profissionais com sonhos, que tiveram suas carreiras afetadas pela tremenda crise e que, para sobreviver, tiveram que se descobrir empreendedores — e não exatamente de sucesso já que na maior parte das vezes essas matérias são feitas antes que essas empreitadas tenham ao menos um ano.

Imagino a quantidade de gente que vai gastar suas reservas, entrar em planos de demissão voluntário, sacar FGTS, adquirir empréstimos e até mesmo vender a alma por acreditar nesse blablabla infindável de que "o kanji para crise é o mesmo para oportunidade" que vem rolando por aí. Nessa “onda” ganham muito dinheiro os coachs de novos empresários, bancos com seus empréstimos sem noção e as franquias meia-boca.

Amigos, a crise em que o país se meteu, que vai piorar muito o ano que vem, não é mar pra marinheiro novo. E sim, sei que mar calmo nunca fez bom marinheiro, mas também nunca matou nenhum deles.

Sei, lá, se eu fosse um adepto da teoria da conspiração diria que todo esse buzz sobre empreender é uma excelente forma de diminuir o peso da crise econômica e do desemprego.

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