Eleições 2016: o que querem os eleitores?

População quer gestão transparente e serviços de qualidade (governo 4.0), mas políticos oferecem gestão que troca governabilidade por cargos públicos (governo 1.0).

Regina Esteves, diretora-presidente da ONG Comunitas

O Comunitas, uma ONG que lidera o Juntos pelo Desenvolvimento Sustentável, programa de aprimoramento da gestão e dos serviços públicos desenvolvido em 12 municípios brasileiros, criou uma metodologia para classificar os tipos de governos encontrados nas administrações públicas brasileiras e identificou os seguintes modelos: governo 1.0, governo 2.0, governo 3.0 e governo 4.0.

Governo 1.0 é o atual modelo comum nas administrações. Nova realidade exige mudanças que passam pelo governo 2.0 até chegar ao governo 4.0, modelo exigido pela população

Esse quadro mostra que o governo 1.0 atende aos objetivos políticos do grupo que está no poder e o 4.0 pensa no cliente da administração, ou seja a sociedade, explica a administradora de empresas, com experiência em educação e desenvolvimento de programas em organizações sociais, Regina Esteves, diretora-presidente do Comunitas. Entre as duas extremidades há uma transição que passa pelo governo 2.0 e pelo 3.0.

Nas grandes manifestações de rua ocorridas em 2013 a população exigiu melhoria na qualidade dos serviços públicos (transporte, educação, saúde etc.). Todavia, a realidade das administrações públicas brasileiras (União, Estados e municípios), não atendeu a esse desejo público.

Isso ocorre porque os executivos constroem sua governabilidade por meio de concessões políticas, trocando cargos por apoio político, entregando a administração a partidos políticos para atender aos interesses desses grupos. Assim, é possível dizer que mesmo depois das ruidosas manifestações de 2013, prefeitos, governadores e o presidente da República fazem governos 1.0. Por outro lado, a população continua inquieta, e querendo serviços públicos inovadores, transparência, governo aberto, ser ouvida pelo gestor, ocupação de cargos públicos por critérios de eficiência. Em outras palavras, os gestores públicos fazem governos 1.0, contra o desejo da sociedade de governos 4.0.

Daí o grande fosso entre representantes e representados. Não há comunicação entre políticos e a sociedade. Como essa linha bloqueada, os governos fazem altos investimentos em campanhas publicitárias para convencer a população a acreditar em uma realidade virtual, a dos belos comerciais com cenas de escolas e postos de saúde de primeiro mundo, com atrizes e atores bem vestidos, bem alimentados; crianças felizes, bonitas e bem-educadas. A julgar pelo que mostra a metodologia do Comunitas, esse investimento desperdiça dinheiro público, pois o marketing não dá conta de atender ao que o cidadão gostaria de ver, mas apenas faz a louvação do governo e de seus programas, que não são os desejados pela sociedade, e, indiretamente, reforça a imagem do político gestor.

“A gente tem uma tendência cultural de governos 1.0. Isso não cabe mais, pois a sociedade não aceita esse modelo de gestão”, explica a diretora-presidente do Comunitas. Não é difícil identificar o governo 1.0 nas prefeituras, como a de Goiânia, no governo de Goiás e da União, onde a matriz principal continua a mesma, a troca de apoio por cargos públicos. O desequilíbrio das contas públicas, loteamento de cargos públicos entre os partidos, serviços de baixa qualidade e alto investimento em propaganda e marketing, comum a todos eles, não acontece por acaso.

Segundo Regina Esteves, a rejeição ao governo 1.0 não ocorre apenas no período de campanhas eleitorais. “Ele simplesmente não cabe mais”, diz. Aí, observa, ocorre o rompimento entre o político e a sociedade.

“Os políticos não sabem mais se comunicar, porque pensam seus programas de gestão de forma fechada. Elegem como prioridade o que acham que a sociedade quer, não o que de fato ela quer. O cidadão quer participar dessa criação. Se os governos não se abrirem para essa escuta, para essa participação, cada vez mais vão se distanciar da sociedade. E isso vale para os partidos e para os políticos. Não tem retorno, a sociedade não voltará para o marco 1.0. Ela vai, cada vez mais, exigir melhores práticas.”

Em pouco mais de 30 dias de governo (completados em 12 de junho), o presidente interino Michel Temer recuou de várias decisões. Seus recuos não ocorreram por sua capacidade de corrigir erros, conforme ele se vangloriou em discurso realizado em 23 de maio, durante lançamento das metas fiscais de seu governo, mas pela percepção de que o Brasil vive em processo de ebulição, momento propício a rupturas, como destaca Regina Esteves. A transição do modelo 1.0 de governar tem de ser rápida. Temer muda rápido de decisão, pois do contrário não sobreviverá.

“Na primeira discussão de composição de seu governo Temer queria manter o número de ministérios. A sociedade rapidamente reagiu e houve um recuo. E cada vez mais isso vai acontecer. A sociedade está sinalizando. Se você colocar um ministro puramente político e ele não conseguir, nos dias de hoje, fazer uma boa gestão ele não se sustentará. A sociedade não vai retroceder. Ela exigirá melhoria da saúde, da educação e se o líder principal se não tiver uma equipe que consiga oferecer essa qualidade não conseguirá se manter no governo. Ele não vai sobreviver e continuaremos com a mesma pressão de instabilidade de governantes.”

O Conselho de Desenvolvimento Sustentável e Estratégico (Codese) de Goiânia, formado por várias entidades da sociedade civil, reuniu todos os candidatos a prefeito da capital em um evento, em 16 de maio, para ouvir a palestra de Regina Esteves sobre essa metodologia de governo e sobre a urgência de os políticos liderem as mudanças que a sociedade requer. No caso dos candidatos, a urgência é ainda maior, pois eles terão de passar pelo teste das urnas em outubro, em meio a toda essa ebulição política.

Uma coisa é certa: quem não acertar o passo da comunicação entre o candidato e esse novo eleitor já nas suas campanhas eleitorais, que começam em 15 de agosto (a propaganda eleitoral gratuita no rádio de TV será entre os dias 26 de agosto a 29 de setembro) será reprovado antes mesmo da eleição.

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