M.
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Aug 9 · 3 min read
TURKEY. Istanbul. 2001. Outside the Hagia Sofia — Alex Webb

É muito comum pegar-se fazendo muitos planos para o futuro, principalmente quando se é jovem como eu. Todos os dias admito para mim que é contraprodutivo passar tanto tempo planejando, mas eu o faço de qualquer jeito. Faz tudo ficar mais interessante, me dá uma sensação de estabilidade. Mas, na verdade, a situação é bem delicada.

Todos sabem o quão difícil é passar pelo ano de vestibular. Me sinto uma veterana de guerra ao falar "eu já passei por isso" ao ver qualquer menção ao assunto, e todos sabem que não devia ser assim. Sempre fui uma assídua crítica do fato de que esperam que, como mágica, aos dezessete anos já saibamos o que queremos fazer da vida, e a exigência é que seja pelo resto dela. Depois da tempestade e depois de ter entrado na universidade e tido a experiência de ser uma caloura, fiquei de férias por um mês, o que me deu bastante tempo para refletir sobre a minha escolha de curso. Não no sentido de duvidar que seja algo que eu queira estudar, porque escolhi minha faculdade baseando-me no fato de que é algo que eu sempre gostei; mas sim no de pensar no que fazer com esse tempo limitado antes de entrar no mercado de trabalho.

Não é culpa minha que eu veja uma necessidade de planejar as coisas, a responsabilidade tornou-se, de um dia para o outro, estritamente minha: eu monto minha grade horária, esperam que eu escolha eletivas relacionadas à alguma especialização no meu bacharelado, esperam que eu faça atividades extras para ganhar créditos. A palavra chave é essa: "esperam". Exigem de mim que eu tenha certa seriedade para tratar de assuntos que para mim, há muito pouco tempo, eram irrelevantes. Até o ano retrasado me diziam que minha única responsabilidade era passar de ano.

Durante esse mês de férias eu tive bastante tempo livre, e acabei assistindo a maior quantidade de filmes que já assisti nesse período. Dois se destacaram: Quero Ser Grande e Bee Movie. Sim, Bee Movie. Eu poderia fazer uma análise dos dois filmes para tentar explicar o porquê de uma animação e uma comédia terem chamado minha atenção dentre os milhões de documentários ou dramas que podiam ter feito o mesmo e com muita intensidade, mas eu não quero.

A verdade é: talvez eu sofra de algum tipo de Síndrome do Peter Pan, ou talvez eu só seja uma garota normal de dezoito anos. Há uma dicotomia aqui porque depende muito de quem me vê: os adultos que querem me ensinar sobre o mercado de trabalho acham que eu não quero crescer, quem já esteve na minha pele sabe que, infelizmente, é o curso natural das coisas.

Não me entendam mal, adultos do mercado de trabalho. Eu quero aprender tudo que vocês têm a ensinar sobre Finanças, sobre Negócios, sobre Matemática Financeira e sobre Estatística, Desenvolvimento Sustentável, Análise de Balanços e Marketing e todos esses termos que soam tão sérios e — para mim — interessantes, mas eu ainda sinto que vocês não me deram tempo o suficiente para processar as outras coisas.

O peso da escolha que vocês querem que eu sinta que tenho machuca as minhas costas, porque eu ainda gosto tanto de ver desenhos e não dou a mínima para notícias. O mundo de vocês é muito cinzento: vocês querem que eu me vista de determinada forma e que me maquie para parecer ter mais de vinte, e saiba o que falar na hora certa, que eu saiba de tudo sobre a vida adulta, abra uma conta bancária e que eu já me preocupe com casamento. Mas no fundo eu só sou o Barry Bee Benson no início do filme Bee Movie, que tem que escolher um emprego na colmeia e percebe que a escolha é séria demais, ou o Josh de Quero Ser Grande que um dia acordou no corpo de um homem adulto.

É tentador, de fato, deixar o tempo passar, mas planejar ainda me dá o privilégio do encanto, do brilho nos olhos, do sonhar enquanto se está acordado e me recuperar do choque que, por causa da falta de tempo, tempo que eu quero criar, que tirou de mim mais algumas chances de ser criança.

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Amante de todas as artes que escreve no tempo livre

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