A Árvore da Vida

Em 120 minutos, a eternidade

Filmes que narram não apenas uma vida, mas o infinito

“Espera mil anos e verás que será precioso até o lixo deixado atrás por uma civilização extinta.” — Isaac Asimov

O cinema é uma das formas de arte mais sublimes que existe. É fruto da união entre a literatura, a música, a dramaturgia, a fotografia e outras técnicas que a fazem uma obra única. Um filme é capaz de narrar a passagem de uma vida inteira ou apenas um momento que impacta a vida. Navegando por histórias jamais contadas ou recontando com novos olhares e novos pontos de vista o que já aconteceu e virou memória. Como uma viagem intergalática na profundidade da alma humana, o cinema usa o tempo como um suspiro criativo. Como em 120 minutos um filme consegue ir tão longe?

No cinema, o tempo é um advento volátil que está a mercê do roteiro. Se em alguns casos ele pode ser utilizado para mostrar a evolução física de personagens ou acelerar passagens corriqueiras, em outros, o tempo é relativizado para o real, naturalizando passagens como se elas ocorressem no mesmo momento que estamos assistindo. Entretanto, alguns filmes vão além.

2001: Uma Odisseia no Espaço

Stanley Kubrick fez o tempo dar um salto fenomenal que navega dos primórdios da civilização humana até os limites do universo, registrando um futuro inalcançável e filosófico. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o expectador é arremessado em uma viagem impactante sobre a busca pelo conhecimento e os mistérios da vida. O longa reflete em sua jornada as convicções humanas, discutindo a evolução tecnológica de forma tanto pessimista quanto otimista. Robôs descontrolados e humanos viajando na imensidão do universo. O tempo, na visão de Kubrick, é sem limites, psicodélico e relativo ao nascimento de um bebê.

Terrence Malick discute o tempo de forma ambiciosa em diversos filmes, porém, nenhum consegue ser tão profundo como A Árvore da Vida. Traçando paralelos sobre a imensidão da natureza e o milagre da existência, o diretor evoca desde a explosão que gerou o universo até o que se acredita que exista após a morte. O tempo, em A Árvore da Vida, é imenso e intenso, porém ainda assim, limitado. Como um sentimento humano.

Boyhood

Richard Linklater é outro diretor que usa o tempo como base fundamental da história. Exercitando a paciência de seus atores, ele relata como seus personagens podem sentir o peso do tempo como aquela pessoa que se senta ao seu lado no trem. Em sua trilogia Antes do Amanhecer, Antes do pôr-do-sol e Antes da Meia Noite, Linklater utiliza singelos encontros para apresentar ao expectador como estão os protagonistas naquele universo romântico e trágico ao mesmo tempo que a nossa realidade. Em Boyhood, obra prima do diretor, a produção do filme leva doze anos reais para narrar o crescimento turbulento de vidas ficcionais. Para Linklater, o tempo é real, mensurável e deve ser respeitado.

O tempo cinematográfico é um vislumbre da ansiedade humana em transformar sentimentos, ideias, reflexões e a vida em arte. E isso não é ruim. Nos dias de hoje, o tempo real também tem sido transformado, virando um produto de comércio. Nunca se vendeu tanto tempo como ultimamente. E quando falta tempo, deixa-se para depois. Olhamos para trás e tudo parece que foi ontem, mesmo que tenha sido há 20 anos. Nostalgias se transformam em um flashback emocional, como uma cena de um filme memorável.

Em 120 minutos não temos tempo para nada, apenas para a eternidade de uma boa história.

A Árvore da Vida

Agradecimento especial: Renato Conceição