Em tempos sombrios, Infiltrado na Klan é essencial para debater o racismo

Spike Lee é um provocador nato. O diretor se consagrou numa época em que os negros não tinham quase representação em Hollywood. Desde então, se tornou um dos grandes ícones do cinema, com filmes que colocam o dedo na ferida e abordam questões raciais e sociais. Não à toa é um dos caras que mais briga por inclusão dentro do cinema, como por exemplo quando, nos anos 90, protestou contra a escalação de Norman Jewison, um homem branco, para a direção de Malcom X. Na ocasião, sua manifestação deu resultado e a direção caiu em suas mãos.

Quando perguntaram a ele sobre essa questão, ele foi enfático na resposta.

Até que tenhamos muitos diretores negros trabalhando em filmes, e minorias trabalhando em filmes, a ponto de isso não ser mais uma questão, temos de tratar o assunto de maneira diferente.

Agora, depois de alguns anos sem lançar algo novo, Spike Lee volta chutando a porta num dos filmes mais importantes para o momento em que não só nosso país vive, como o mundo todo.

Baseado no livro Black Klansman, Infiltrado na Klan conta a história de Ron Stallworth (John David Washington), um jovem policial americano, que leu um anúncio de jornal sobre a Ku Klux Klan e respondeu o anúncio com a intenção de conseguir uma investigação e impulsionar sua carreira de detetive. Tudo poderia dar muito certo, não fosse o fato de Stallworth ser um homem negro querendo se infiltrar no grupo mais conhecido de suprematistas branco dos EUA. Por isso, ele conta com seu companheiro de trabalho Flip (Adam Driver) para se infiltrar e conseguir identificar possíveis ataques.

O ponto mais forte do filme é exatamente seu tom provocador e sua habilidade de dialogar com duas épocas diferentes com muito dinamismo. É possível identificar frases e acontecimentos semelhantes aos dias de hoje e diversas metáforas ao longo da trama. Os diálogos, diversas vezes ácidos, as vezes se assemelham aos discursos de chefes de estado, como Donald Trump e até mesmo, coincidentemente, daquele candidato eleito por aqui. São diálogos que fazem a plateia soltar uma risada amarela, quase que de nervoso. Tão cômico se não fosse trágico.

Ainda assim, é sempre bom lembrar que todos aqueles absurdos em tela aconteceram e acontecem até hoje, seja racismo velado ou escancarado. A discussão, inclusive, toma outras proporções nos EUA principalmente pelo movimento Black Lives Matter. Dentro disso tudo, há também discussões sobre como a própria Hollywood encara os debates raciais em sua história, citando O Nascimento de uma Nação (1915) e também o gênero Blaxploitation, esse muito criticado pelo diretor desde sempre.

Não, essa não é uma cena do filme. Ela foi tirada em 2017.

Do lado dos racistas, há uma certa tensão em retratar não só a supremacia branca, como também o antissemitismo. Lee sabe bem a hora de falar sério e a hora de tornar os personagens parte de uma comédia pastelão. David Duke (sim, aquele), interpretado por Topher Grace, carrega um ar ameaçador e idiota ao mesmo tempo, com cada uma dessas características aparecendo na hora certa, do mesmo jeito que os outros personagens membros da Klan. Claro, sempre proporcionando um misto de graça e raiva na plateia.

No entanto, John David Washington e Adam Driver são os grandes trunfos do filme. O primeiro por se adaptar facilmente nos trânsitos entre os gêneros e também guiar a trama de acordo com essas nuances. O filho de Denzel Washington parece ter um grande futuro. Já Driver mostra que pode ser um ator versátil em qualquer circunstância. Ainda é um ator que se parece consigo por conta de suas peculiaridades, mas ainda assim realiza um bom trabalho. Laura Harrier também surge como uma surpresa, sendo ela o núcleo mais sério e reflexivo do filme.

Embora o filme seja pesado em sua maior parte, o final caminha para um certo alívio. Porém, obviamente Spike Lee só dá uma pequena chance para dar aquela última respirada. Já não bastasse todas as retratações da realidade que falavam por si, ele decide finalizar com acontecimentos reais, principalmente durante as manifestações neonazistas em Charlottesville, em 2017.

Infiltrado na Klan é Spike Lee na sua melhor forma. É importante, essencial, e bate forte, sem dó, para que o público saia do filme sem qualquer riso no rosto, feito para digerir, refletir e debater sobre tudo aquilo por semanas.

Definitivamente, e infelizmente, esse filme chegou tarde. Para eles e para nós. Mas a luta é sempre constante.


Filme visto na Mostra de São Paulo. Sua estreia está prevista para 22 de novembro.