Encontre seu privilégio aqui

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“Eu nunca pude doar sangue”, eu disse um dia numa mesa de bar. “Eu acho isso um absurdo”, ouvi um dizer. “Isso logo vai mudar”, outro emendou, tentando tranquilizar. “Eu sempre faço doações quando tenho tempo”, mais um incrementou, “eu simplesmente digo que sou hetero”, completou. A ideia simples mas grandiosa de ajudar o outro, em tempos de necessidade deveria ser um princípio básico da natureza humana. Deveria, mas não é. O que esse princípio não deveria ser é precedido de abdicar sua verdade pra não ser discriminado. “Mas aí quem está doando não é você, né?”, perguntei. Fim de papo, chegou outra cerveja.

“Outro dia o motorista do Uber perguntou se eu era casado e eu menti que não”, eu contei num grupo de WhatsApp para alguns amigos. “Absurdo, né?”, o primeiro disse. “Não acho que você deve se esconder em tempos pós eleição”, o segundo me encorajou. “Mas se você teme pela integridade física sua e do seu marido, omitir talvez seja prudente”, ele mesmo me advertiu. “Mas se for pra ser assim, não sou eu quem vai estar andando de carro pela cidade”, conclui. Fim da discussão, alguém (eu) mandou um meme.

“Quando ele pegou na minha mão, meu coração disparou muito”, falei pro meu primo sobre o menino que me chamou pra ir no cinema. “Mas estava tudo escuro”, ele disse rindo. “Eu sei, mas fiquei muito receoso de alguém ver e fazer algo”, retruquei, sem perceber de imediato o que hoje é tão forte em mim quando vejo jovens gays de mãos dadas alegres e livres pela rua. Um misto de angústia e alívio de entender o trabalho e coragem que exige e que eu nunca tive quando era mais novo.

“Certa vez, eu passei pela revista policial na entrada do metrô sem ser parado por nenhum oficial”, eu falando de novo, mas em outra mesa de bar. “Mas você não tem cara de bandido”, alguém logo disse. “Você tava de crachá, né? Ninguém revista trabalhador”, outro ponderou. “Com certeza, você estava com aquela sua camisa cara da Lacoste”, alguém riu. E eu estava mesmo. De crachá, de Lacoste e com a mesma barba sem fazer de um outro cara que estava sendo revistado. “Quem sou eu sem as minhas roupas que inspiram diferença dos outros que têm a mesma cor que a minha”, dessa vez só pensei. Tinha muito mais assunto pra pautar nessa mesa nesse dia.

“Meu primeiro beijo num cara foi seguido de um soco na barriga”, escrevi nesse texto que vocês estão lendo. O garoto que eu me aproximei, que me deixou aproximar, que virou objeto do meu diário adolescente, que foi descoberto pela minha mãe, que me deixava nervoso só com o olhar, me deu um soco na barriga logo depois de me beijar. E me pediu para não contar para ninguém. “E pra quem eu contaria?”, perguntei. Era um segredo nosso e uma certeza solitária de que não havia ninguém além dele que me beijou e me deu um soco no mesmo dia que podia saber e talvez entender o que eu senti naquela hora.

Algumas privações que listei aqui estão na realidade de muita gente.Outras eu nem imagino qual dimensão e impacto tem na vida de muitos outros. Nenhuma é maior ou mais importante que a outra, afinal ela é de cada um para experimentar.

Um privilégio primário é esse que permite você ser quem você é desde muito cedo, seja qual for a sua cor, raça, orientação sexual, gênero. Quem usufrui dele frequentemente está imune de perceber o impacto para quem precisa esconder, esquivar e manobrar sua identidade todo dia.

E não precisa ir longe para notar isso. Os sinais estão por aí, nas mesas de bar, nos grupos de WhatsApp, nas conversas com confidentes e em textos de desabafo na internet (me desculpem!). Sinais claros como um dia sem nuvens e enraizados como aquela árvore no quintal da sua casa desde meados da sua infância quando a primeira gangorra foi pendurada para você se balançar e que hoje continua intacta lá.

Você só nunca reparou.