Ensaio sobre a diferença e a essência da liberdade

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Peter Carroll, em seu livro Liber Null, indica como a liberdade é intrínseca em todos os aspectos vivos de nossas existências, porém, seguindo sua visão caótica baseada em Austin Osman Spare, também é ela que nos traz a aceitação e negação perante nossa vida. A dualidade é parte de nossa relação mundana para com onde vivemos, e a independência é o entendimento consciente disso.

Sua citação:

“O segredo da liberdade é não ser atraído a situações nas quais o número de alternativas se torna limitado ou mesmo unitário”

Mas, até que ponto, consideramos isto um fator primordial, em nossa imersão cultural atual?

A influência tecnológica estaria mais alienando ou criando liberdade? Seria então a mesma criada por artifícios natos em natureza humana?

Podemos criar uma breve associação em valor imerso na cultura brasileira atual pelos sentidos de diferença e diferenciação. Dois fenômenos sociológicos. Para a socióloga Maria Stela Grossi Porto, a diferença no âmbito da democracia vêm como enfrentamento para a imersão e igualdade social. Sua hipótese defende que para membros de um segmento social que trazem à tona e explicitam uma diferença, por meio da qual se auto define, se torna um recurso que visa em última instância a inserção social, cultural, econômica, portanto, na própria eliminação da diferença.

Em sua tese Diferença e identidade como representação social, argumenta que inicialmente a diferença oriunda da demanda por reconhecimento, dentro do significado de ocupação do espaço social e simbólico, seria condição necessária para que, em um momento posterior, as diferenças se dissolvessem no conjunto da sociedade, simplesmente, por passarem gradualmente a deixarem de existir, se transformando em um elemento (in)diferenciado socialmente.

“[…] A afirmação identitária da diferença objetivaria à igualdade. ” Maria Stela Grossi Porto

Os sentidos de liberdade e diferença seriam os que regem todas as reivindicações. Assim como no Caoísmo, a liberdade sempre esteve mais imersa num sentido introspectivo mas também ideológico. O mundo do quanto você entende sua vivência e experiência.

Assim como trazendo a diferença e a autonomia num âmbito maior e sociológico, conseguimos entender que a estrutura sociopolítica vem correlacionada com os aspectos introspectivos do ser humano. Reivindicar sempre foi a luta perante uma adversidade,e a utopia sobre a igualdade sempre foi o nosso elixir sacral.

Nossa sociedade brasileira culturalmente sempre teve algo que agrada o mundo: Espiritualidade.

Nossa miscigenação cultural sobre este tema é plural e pagã. O cristianismo foi modificado e se transmutou para diversas religiões. Este é mais um dos aspectos que atrelamos nossa pluralidade tanto para com o ser introspectivo e o indivíduo social, como para nossas estruturas políticas. Sempre obtivemos o misticismo respingando silenciosamente em nossos hábitos. E junto a isso, o retrato de como está velado. O melhor exemplo de tudo isto é a lei constitucional de liberdade religiosa e a perseguição a religiões de matrizes de povos do continente africano. Sempre vestimos a roupa da pluralidade, mas por dentro mascarando o preconceito. E mais uma vez, a diferença é reivindicada exatamente por estar explicitada. A busca e conquista por espaços sociais de maneira digna é o que fomenta todos nós brasileiros.

“[…]O fato de que a sociedade brasileira não é uma sociedade democraticamente aberta à possibilidade da constituição de diferenças sociais substantivas e, ao mesmo tempo, participantes. O que expõe de modo dramático as dificuldades para que esta sociedade se desenvolva no sentido de se constituir como sociedade efetivamente pluralista que supere as desigualdades sem escamotear e mesmo destruir diferenças sociais que são repositórios de valores de afirmação da liberdade e da universalidade do gênero humano” Maria Stela Grossi Porto.

O ponto chave para conseguirmos entender como nossa sociedade vendida para gringos como da diversidade possui tão grave problema em constituir sua democracia para o espectro cultural e social é:

Ditadura.

Ainda carregamos o silêncio de uma ferida aberta. Jair Messias Bolsonaro e seus discursos perante um período histórico mascarado nos livros só nos mostra como uma história sobre uma nação não consegue acompanhar o dinamismo da globalização. Nossa cultura ainda carrega feridas do nosso passado sangrento, e a globalização foi apenas um dopante para com a educação.

Em seu livro, Bruxaria Apocalíptica, Peter Grey traz como manifesto a questão de conformismo e do esoterismo que sempre se mantém à parte sobre questões políticas.

É a política que permite a destruição da própria terra que o ser defende, o homem é um animal político, aqueles que dizem que estão fora ou acima da política são os esotéricos, cujas mãos limpas são lavadas no sangue daqueles que não tem escolha a não ser colocar as mãos na maquinaria.”
Peter Grey, Bruxaria Apocalíptica.

Agora, mais do que antes, devemos beber de todas as nossas reivindicações e diferenças, e trazer gritos e lamúrias para atos e cartazes. Sem individualismos, estamos na era da ruptura do egoísmo doentio de capital. A competição já não faz mais sentido.

“O que está bastante claro é que a caça às bruxas não começaram com as bruxas e, portanto, não podemos evitá-las tornando-nos inofensivos e integrados e vinculando-nos aos sistemas corruptos de governança. (…) as acusações são sempre as mesmas, o que conta é como reagimos a elas, que verdades escondem e podem ser usadas para nos revelar.”
Peter Grey, em Bruxaria Apocalíptica.

Faço de suas palavras nosso grito, e novo hino. Não podemos temer, e assim como governos anteriores, todos tiveram seus problemas. A grande reflexão que fica é as lições que são aprendidas.

Liberdade e diferença são uma ponte para o equilíbrio utópico.

A diferenciação que se salva e se mantém em tempos tão atuais quanto velhos. Os insanos nunca serão os tolos.

“Grandes pensamentos são contra todas as doutrinas de conformidade.”
Austin Osman Spare.