Entre os anti-heróis das séries, Tony Soprano ainda é rei

Quase 10 anos depois, A Família Soprano ainda é relevante e impactante

“Sim, senhor, a Máfia. Às vezes o estado não tem outro remédio que arranjar fora quem lhe faça os trabalhos sujos.” — José Saramago, “As Intermitências da Morte”

Lendo uma matéria da colunista Patrícia Kogut, sobre a onda de remakes de seriados nos Estados Unidos, me deparei com a informação de um estudo da Comcast Xfinity dizendo que a série A Família Soprano (The Sopranos), exibida entre 1999–2007 pela HBO, está entre as mais populares hoje em dia no serviço on demand. Me veio a pergunta: o que faria uma série tão datada (mesmo sendo aclamada pela crítica e público) em meio a tantos lançamentos dessa ‘era de ouro’ da teledramaturgia mundial, conseguisse se sobressair? A resposta está sete temporadas depois de assistir a série. Trata-se de um verdadeiro clássico, que permanece relevante, moderno e não perde nada em qualidade do que está sendo oferecido hoje, aliás, muito pelo contrário.

A impressão que se tem a cada episódio da série dramática cujo apresenta o mundo da máfia como plano de fundo, é de se tratar de uma rica experiência não somente com a linguagem da televisão, mas também do cinema. São diversas referências aos clássicos do cinema, passando pelo óbvio O Poderoso Chefão e Os Intocáveis, até a estética que remete ao cinema noir, seja no estilo obscuro, pessimista, até seu protagonista solitário, um anti-herói nato.

Tony Soprano e sua família

A construção dos diálogos, a metáforas e o aprofundamento dos personagens, são dignos de qualidade cinematográfica, que consegue não apenas construir uma ponte de interesse entre o espectador e a obra, como também desencadeia fascínio, reflexões e entretenimento, tudo ao mesmo tempo.

A série consiste em apresentar o ponto de vista do líder mafioso Tony Soprano (James Gandolfini), sobre como ele articula e lidera sua poderosa gangue de Nova Jersey e, nos tempos livres, tenta ser o patriarca ideal da família. O que ele não esperava é que um ataque de ansiedade o causasse desmaios e crises em momentos rotineiros. Eis que ele busca ajuda com a psiquiatra Dra. Jennifer Melfi (Lorraine Bracco).

A vida de Tony Soprano é um turbilhão de adrenalina dia após dia. Precisando lidar com crises de grupos rivais, tentativas de traição e os impulsos de seus aliados (sua outra família), o mafioso ainda precisa lidar com a esposa Carmela Soprano (Edie Falco), que apesar de cúmplice, coloca sempre o bem-estar da família acima de qualquer questão - mesmo da autoridade do marido -, além dos dilemas existencialistas e rebeldes dos dois filhos, Meadow Soprano (Jamie-Lynn Sigler) e Anthony “AJ” Soprano Jr. (Robert Iler).

Tony Soprano e sua outra família

A construção das temporadas é prato cheio para desvendar quem é Tony Soprano. Enquanto nas sessões de terapia e com a família o espectador é convidado a conhecer o homem sensível, cheio de falhas, contraditório e confuso, na vida paralela Tony é frio, violento, calculista e adúltero. Sempre buscando auto-afirmação nos dois âmbitos (principalmente para manter o respeito de seu grupo criminoso), o personagem sente aos poucos a necessidade de assimilar as mudanças culturais, políticas e sociais de um mundo pós 11 de setembro, período em que ‘valores tradicionais’ estão em constante decadência (até mesmo no mundo da máfia).

Tony Soprano e outros anti-heróis das séries

A cultura popular (re)encontrou na figura do anti-herói uma fonte inesgotável não apenas de dilemas e reflexões como também de carisma, muito carisma. Hoje em dia, uma boa série que se preze, precisa desconstruir o velho protagonista cheio de virtudes e do estilo mocinho. Tony Soprano é um sociopata de primeira grandeza. Consegue apenas se sobressair como um elemento simpático por estar rodeado de personagens piores que ele.

Walter White de ‘Breaking Bad’ é mau, mas o adoramos!

No capítulo Simpatia pelo Diabo, do livro A Família Soprano e a Filosofia, o autor Nöel Carrol disserta sobre a naturalidade de das pessoas se familiarizarem pelo protagonista que possui tanto moral controversa quanto uma ‘ética’ que o permite cometer os atos mais cruéis possíveis. Tentando encaixar a explicação em conceitos como ‘realizamos desejos por meio desse personagem tão livre e poderoso’ ou que ‘é possível se identificar com a humanidade de Tony perante seus problemas cotidianos’, o autor acaba chegando numa resposta mais sólida: nos tornamos um aliado do personagem.

A figura do sociopata nas séries tem se repetido trocando apenas profissões, cenários e dilemas. Na série Dexter, por exemplo, nos afeiçoamos com um serial killer que segue um código para manter a sua loucura: matar apenas criminosos. Em Mad Men, o protagonista Don Draper é menos sanguinolento, mas possui seus pecados morais, que são apenas maquiados pela sua imagem (falsa) de publicitário bem sucedido — que todos compram. Na série Breaking Bad, o professor de química frustrado e doente encontra no tráfico de drogas algum motivo para sua existência — ou para fugir dela. Em House of Cards, a figura do político principal é tão sombria como qualquer um desses, mas ainda assim, quando ele pisca para o espectador, quase (ou é) respondido com outra piscadela.

Todos esses personagens possuem suas vozes interiores questionando, duelando, divagando e explodindo em contradições e desejos. Os demônios de cada um estão lá, prontos para enganar o necessário e seduzir, seja por pena ou seja pela liberdade que eles parecem ter. Poderosos, justiceiros, acima de qualquer moralidade ou da lei. Seus códigos são sempre baseados em questões banais que qualquer um se identificaria: “matar apenas criminosos”, “ser o american dream sem fazer mal a ninguém” ou “buscar um sentido de vida”.

Essa cena sintetiza a série, parece que tudo está bem, mas não está

Mais do que se identificar com os objetivos, o espectador acaba se tornando um aliado, torcendo em planos arriscadas, se frustrando com seus fracassos, sentindo pena das derrotas na vida pessoal e se desesperando quando quase são descobertos. Nas séries e filmes, odiamos quando os anti-heróis são cruéis demais, mas os amamos quando vemos um traço de humanidade, de justiça ou código éticos que concordamos.

Tony Soprano é uma junção de todos esses e muitos outros protagonistas que estão vivos agora na cultura pop. Todos eles carregam sua sede pelo poder, seu amor patriarcal pela família, seu ódio pelos inimigos piores que ele, sua inteligência e carisma que o ajudam a vencer desafios, sua decadência e tragédia que ficam perceptíveis a cada temporada. Isso faz de A Família Soprano uma série que ao mesmo tempo é perturbadora, brilhante, relevante, especial. Uma joia rara que será sempre descoberta, não importa a época.

Referências: “Como ver um Filme” de Ana Maria Bahiana, “A Família Soprano e a filosofia” de vários autores.