Entre os muros da metrópole
Por mais cliché que pareça, pode acreditar: os piores muros são os que não podemos ver

Há uma coleção de muros no nosso imaginário coletivo. Atire a primeira pedra quem não pensa logo no Muro de Berlim, na Muralha da China, no Muro das Lamentações ou no paredão que o empertigado Trump prometeu construir na fronteira com o México.
Os amantes do rock por certo lembraram do The Wall, do Pink Floyd, enquanto eu por meu lado, eternamente apaixonada por Machado de Assis, vislumbro o muro que separava os quintais de Bentinho e Capitu. Menos poéticos e mais complicados são os muros sócio-geográficos que estão em torno da gente.
Eu nasci e cresci em São Paulo, capital, e nela vivi a maior parte da minha vida até botar os pezinhos no mundo e sair por aí encarando outros muros. Vivendo ou não em Sampa, você talvez possa suspeitar que minha bendita/maldita metrópole exiba, além de uma imensidão de gente, um número enorme de muros.
E veja que não me refiro somente aos muros cada vez mais altos dos condomínios de luxo, das escolas, das casas que ainda resistem, transformando-se em pequenos fortes domésticos, prontos para enfrentar a violência que, espera-se, possa ser bloqueada com cercas eletrificadas, câmeras e parafernália de guerra urbana.
Nem me atenho tampouco aos muros dos viadutos, vias e pontes, que o prefeito mais votado da cidade quis cobrir de cinza. Não, não é deles que falo, mesmo que eles representem o lado mais perverso da nossa topografia.
Os muros visíveis, se por um lado enfeiam os horizontes, tornando palpável o mau gosto nosso de cada dia, pelo menos não nos iludem. São concretos, eletrificados, farpados.
Eu falo dos muros sociais, ainda mais cinzentos, que vão se estabelecendo e criando distâncias. Metaforicamente, são como os fossos dos castelos medievais.
No man's land
Sempre me lembro de uma foto aérea que circulou por aí em que a desigualdade da cidade ficava escancaradamente ilustrada, tendo de um lado um condomínio de apartamentos caríssimos e de outro uma favela bem precária, no Morumbi, bairro-ícone desse tipo de coisa. Tudo, se não me equivoco, separado por nada mais do que um muro.
Outra referência importante nessa conversa, o documentário Alphaville, de Luiza Campos, também reforça esse paradoxo mostrando, entre outras coisas interessantes, um fosso moderno e de fato: uma área que circunda todo um condomínio por trás de um primeiro muro , enquanto um segundo, externo e bem alto, assegura a invisibilidade da pobreza aos olhos dos moradores ricos e, supostamente, impede o ‘ataque’ das hordas de moradores pobres que vivem nos bairros ao redor.
A bola da minha infância caía sempre na casa da vizinha ranheta, mas no caso do documentário, as bolas das crianças pobres dormem no deserto de de uma infértil no man’s land .
Caquinhos coloridos
Quem vive fora ou atrás dos muros protetores acaba a eles se familiarizando e, pior, os naturalizando. Quando pequena, morando numa casa velha do Brás, lembro que o nosso muro tinha cacos de vidro coloridos. Olhando sob a perspectiva de uma criança, o muro parecia altíssimo. Não se podia vislumbrar nem um pedacinho do que se escondia atrás dele. Mas os caquinhos, com o reflexo do sol, a mim me pareciam divertidos. E tudo o que eu conseguia pensar era na habilidade dos gatos de rua que driblavam cada um desses caquinhos reluzentes com elegância e desdém.
Como os gatinhos malhados daquele tempo, desde que saí da perifa, anos antes de me aventurar na vida como expatriada, percebi que era preciso me equilibrar nas bordas dos muros e entre cacos de vidro.
Quando ainda vivia lá, estudando e trabalhando quase sempre longe de casa, comecei a perceber que para alguns paulistanos a cidade tinha alguns limites misteriosos e intransponíveis.
Quando era jornalista de revista, inúmeras vezes testemunhei colegas, diante das centenas de cartas de leitoras que recebíamos à época, confusos por nomes de bairros nos pontos mais extremos da cidade, que nem sabiam que existiam.
Enquanto nós do lado de lá da linha circulávamos incógnitas pelos recantos centrais e ricos da cidade, muita gente jamais tinha se aventurado a romper certos limites. E por que o fariam? Lá não havia nada para ver, para comprar, para fazer…
Espaços segregados
Tristemente, nossos bairros periféricos têm uma dinâmica histórica muito peculiar. E complexa, em essência. Enquanto nos bairros mais estáveis da classe média, as pessoas parecem ter os mesmos vizinhos por anos a fio, nas nossas quebradas, quem não consegue ter casa própria, sabe que vai ter de ir cada vez para mais longe sempre que os benefícios (como transporte público, por exemplo) chegam e os alugueis ficam mais caros.
Empurramos a pobreza cada vez mais para os limites da cidade e à medida que os pobres aumentam em número, mais expandidos ficam esses limites. Talvez por isso algumas comunidades, por mais desprovidas de tudo, resistem, defendendo seu espaço e o direito de ficar.
Até o ano passado, eu nutria o sonho que o plano diretor da cidade de São Paulo iria nos aproximar. Comecei a acreditar que cada bairro poderia ter vida própria e que a quebrada, com tanta gente jovem e talentosa, seria um núcleo em si mesma, com trabalho, comércio local de qualidade, praça, escola para as crianças grandes e pequenas, cineclube, biblioteca…
Claro que acordei com jato d’água fria molhando o cobertor. A vida aqui é dura como o concreto dessa metrópole ultrajada e as nossas leis, apesar de lindas em teoria, meio que nascem mortas.
Meus concidadãos, em sua maioria, escolhem uma São Paulo para sempre cheia de avenidas de alta velocidade, com muros cada vez mais altos e condomínios trancados em si, deixando a cidade à míngua ou como simples pano de fundo para os vídeos quase diários do novo prefeito.
Um relatório feito ainda sob a administração Haddad nos deu conta que estão lá nas bordas da cidade o maior número de negros (pretos e pardos) da cidade: na Zona Sul, as subprefeituras de Parelheiros e M'Boi Mirim e na Leste, Cidade Tiradentes e Guaianases.
Não por acaso, essas regiões estão também entre as mais pobres, assim como as subprefeituras mais ricas, de Pinheiros e Vila Mariana, são as que têm o maior número de moradores brancos.
Com a desigualdade aumentando, São Paulo vai erguendo mais e mais desses muros vergonhosos que, como esfinges, seguem, indecifráveis, devorando nossa esperança de uma cidade mais humana.

