Escala de felicidade e respostas prontas

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“Numa escala de 0 a 10, o quanto você está feliz?”, ele perguntou.
Quando importava, eu respondi 6. 
E respondi errado.

“Só 6?”, ele disse numa mistura de surpresa e decepção. “6 é tipo neutro, em cima do muro, pode tanto ser feliz como infeliz com 6”, ele adicionou, afundando mais ainda minha expectativa de que a resposta ia ser aceita. “Eu estou 8”, ele completou; refutando o sentimento que crescia em mim desde que respondi sua pergunta.

Fiquei pensando nisso dias e noites (duas seguidas, pra ser assertivo) e busquei justificativas. Até apresentei algumas: a indecisão da empresa, ou a lentidão na decisão da empresa me desanima (“isso já está resolvido”, ele disse), a situação da saúde da minha mãe e sua constante negatividade sobre o tema (“ela sempre foi assim”, ele afirmou e eu concordei), a ausência de rotinas a parte do trabalho (“você precisa parar e olhar o que você quer fazer”, ele quase intimou). Mas no fundo, eu não sabia explicar o porquê do 6. Só sei que era 6. Ou ainda é, não sei.

Numericamente, 6 está mais perto de 10 do que do 0. Mas está do lado do 5, que é a saída simples e fácil para qualquer pontuação. Quando você se avaliava com uma nota de comportamento na escola, pra não parecer arrogante ou petulante, o caminho mais rápido era dizer que seu comportamento valia 5 pontos. E rezar para que a professora observasse essa modéstia com olhos comovidos e decidisse lhe recompensar com mais 5 pontos por conta dela. Ou talvez 3. Sair com uma nota 8 que você não se deu parecia mais honesto do que fingir que todos os deveres de casa que você não fez não entraram pra conta no fim do ciclo.

Talvez minha expectativa era receber 4 pontos na escala da felicidade por esforço, empenho e dedicação em ser feliz. Como se fosse minha recompensa por me contentar com menos do que preciso e considerar que esse menos é mais do que me permito ser. Talvez minha expectativa era que o que me falta para ser 8, como ele disse estar, fosse suprido pelo dia-a-dia que temos desde que tudo mudou na nossa vida. Como se a felicidade tivesse uma instantaneidade similar ao termômetro quando você está com febre: você percebe, você mede.

Mas a verdade é que não tem. A gente nunca sabe quando é ou está mais feliz, além do momento em que estamos. E pode ser essa clareza que me falta, ou que me escapuliu, nesse dia, quando ele me fez essa pergunta, no fim de um dia corrido, cansativo e bastante desgastante. Essa é uma das fases mais surpreendentes de um relacionamento: quando você não consegue esconder nem de você nem dele como os fatores do dia afetam suas respostas mais triviais sobre assuntos tão complexos.

Todo dia eu me pego pensando, em tom observador, sobre como chegamos onde chegamos, sobre o porquê estamos onde estamos e, principalmente, para onde vamos de onde estamos. Penso mil coisas. Hipóteses surgem, verdades emergem, medos afloram, mas o pensamento de que temos sorte de estar aqui como estamos não finda. E isso, no fundo, basta.

Mesmo que eu tenha respondido 6, quando importava. No café da manhã de domingo, que levanto cedo pra preparar; no jantar que invento fazer depois de um dia de horas extras; na frustração porque nossa gata ficou sem comida porque alguém esqueceu; no abraço rápido antes de pegar no sono; nos planos mirabolantes que terminam antes de tomar forma; na redecoração da casa que escolhemos morar; nas músicas que indicamos um pro outro; nas risadas descontroladas vendo TV; eu sei que quando vale a pena, eu estou sempre acima da média nesse tal escala de felicidade.

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