Escolha alguém que goste de você

(por Beatriz Leite | contato: beatriz.hmleite@gmail.com)

- Eu quero um cara que goste de Nick Cave, sabe?
- E um cara que goste de você?
Esse tapa na cara me foi dado quando eu tinha 15 anos.

É normal e muito comum fazermos idealizações do que as pessoas são ou deveriam ser a partir de características que nos agradam (ou achamos que nos agradariam). Criamos protótipos ideais do que esperamos em uma pessoa com quem venhamos a nos relacionar. Acontece que, às vezes, aquelas pessoas que parecem perfeitas através de uma descrição, no dia a dia, podem ser um pé no saco ou apenas incompatíveis conosco. É como ler um currículo perfeito e ter, na prática, um profissional meia boca, que vive chegando atrasado e faltando sem avisar.

Em outra ocasião, já adulta, me pediram, como um exercício, para listar todas as características que eu conseguisse pensar do Homem Ideal pra mim. Listei tudo que pensei, incluindo os requisitos básicos (ex.: não ser homofóbico) e coisas que me agradariam, mas não eram necessárias (ex.: gostar de cozinhar). Pouco depois desse exercício, por acaso conheci um rapaz que marcava absolutamente todos os itens da minha listinha, em um nível que chegava a parecer que eu o tinha inventado. Ele era um protótipo perfeito. Foi só me relacionando com ele e conhecendo melhor quem ele era que percebi que ser um protótipo perfeito não quer dizer nada. Isso não quer dizer que ele era uma pessoa ruim, mas, na prática, há uma série de outras coisas que contam também e, muitas vezes, chutam nosso castelinho.

Em primeiro lugar, quando pensamos no nosso protótipo de pessoa ideal, pensamos apenas nas qualidades. Esquecemos que ter todas ou a maioria daquelas qualidades não significa que a pessoa não terá outros defeitos que nem imaginamos a princípio. Além disso, uma coisa é aquilo que idealizamos; outra é como tudo funciona na rotina de um relacionamento. Às vezes, algo que imaginamos como perfeito simplesmente não bate. Em outras palavras, será que a Alanis Morrissette seria mesmo feliz se encontrasse alguém com todas as características que ela lista em 21 things I want in a lover? Será que ela estaria satisfeita só com aquilo? Será que o cara que possuísse todos esses vinte e um atributos seria mesmo perfeito pra ela? Será que 15 dessas qualidades bastaria? Que tal só umas 7?

Cresci lendo e relendo Alta Fidelidade do Nick Hornby e, talvez não só por isso, sempre relacionei gostos em comum com personalidades compatíveis. Ainda acredito que há algo de diferente entre você e a pessoa se você chora até secar vendo As vantagens de ser invisível e ela não entende o que tem de mais em um filme tão simples. Mas acho, hoje em dia, que importa mais se a pessoa te acompanha ao cinema e, mesmo sem entender, não minimiza o que você sentiu e te fez chorar tanto, do que se ela chora um rio também. Em tese, ter gostos em comum significa que temos algo em nossa estrutura em comum com a outra pessoa e, por esse motivo, buscamos pessoas que tenham gostos em comum conosco. No entanto, isso nem sempre se traduz dessa maneira e é mais uma questão de conexão, boa vontade e empatia com o outro do que de ter as mesmas preferências.

O melhor exemplo disso está no filme 500 dias com ela. Tom fica vidrado pela Summer basicamente porque ela também é fã de The Smiths. Quando começam a sair, eles não têm nada a ver um com o outro. Eles têm ideias diferentes sobre como deve ser a relação, têm expectativas diferentes quanto à relação, acreditam em coisas diferentes, não têm nem o mesmo tipo de humor. Só que Tom idealiza Summer. E é isso que costumamos fazer quando escolhemos uma pessoa apenas por gostos em comum. Adiantou de que ser fã de The Smiths se ela nem queria namorar com ele? Podia ter sido Molejo, mas ela estar mais aberta ao tipo de relação que ele queria — era essa abertura que ele queria de verdade, não que ela cantarolasse The Smiths no elevador.

Há, portanto, de se limitar que tipo de características merecem constituir o tal do protótipo. Hoje em dia, as características que considero básicas pra que eu me relacione com alguém são bem mais diretas: que não seja homofóbico, que não seja fanático religioso e que esteja disposto a ouvir e desconstruir machismo. Não ser homofóbico vai ser muito mais relevante em um relacionamento do que ser fã do Nick Cave, disso eu tenho certeza. Além disso, a pessoa pode gostar da mesma coisa que você, mas por outros motivos, outros princípios. Será que, ao assistir a um filme juntos, o filme que você está vendo é de fato o mesmo que a outra pessoa está vendo? Há um terreno comum, há assunto, mas não há necessariamente muito além disso.

No dia a dia de um relacionamento, não importa se vocês têm os mesmos gostos para músicas, filmes, livros. Não importa sequer se um gosta de ler e o outro não. O que vale, no fim das contas, é ter ao seu lado alguém que veja a vida e o mundo de maneira parecida com a que você vê; alguém que tenha os mesmos valores e objetivos que você; alguém que te admire, goste da sua companhia, te faça bem; alguém que escolha estar ao seu lado. Ao longo do relacionamento, coisas em comum acabam surgindo. Esse espaço para criação de um mundo só dos dois (ou mais pessoas se relacionando) é o que faz uma relação com amor ser tão legal e única.

A pessoa com quem você se relaciona não precisa entender por que você adora filmes de super herói. Ela pode achar Beatles a coisa mais chata do universo, enquanto você é beatlemaníaco/a. A pessoa com quem você se relaciona não tem que gostar do que você gosta; ela tem que gostar de você e te fazer bem. Escolha alguém que goste de você.


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