Escolha trabalhar com o que você não gosta

rawpixel, Unsplash

Não, eu não estou dizendo com esse título tendencioso que você precisa estar em um emprego que não lhe dá satisfação, seja por razões salariais ou familiares. Até porque esse posicionamento seria totalmente contrário ao fluxo da nossa geração.

Gosto da ideia de ver o trabalho como uma fonte de prazer além do pagamento no final do mês. Sou designer de uma rede de hotéis e o dia do pagamento, que no caso foi hoje, é um processo muito mais mecânico, destes preciso pagar as contas X, Y e Z e guardar o restante do que um momento de motivação. A tão esperada recompensa depois de incontáveis horas de stress, sofrimento e chá. Sou um designer que largou a cafeína, então talvez você não devesse confiar em mim.

Lendo isso, provavelmente, faz parecer que meu trabalho é o emprego dos sonhos, que todo dia é super proveitoso, com verba infinita, todos os projetos aprovados de primeira e tudo isso recebendo uma fortuna mensal, certo? Pois a realidade não é bem assim. Existem problemas, existe desvalorização do setor (trabalho dentro do marketing), gente que “acha” que fazendo de tal forma vai funcionar melhor do que a que tu está fazendo. Às vezes pensa-se em um belo projeto; conversa com um profissional da área, ele vem, faz o orçamento e chega na hora… "façam vocês pois a grana está curta."

Isso começa a nos trazer ao tema desse texto: nem tudo no seu emprego vai te dar prazer. Muitas tarefas e funções que você tem vão ser absurdamente chatas e tediosas, ou requerirão habilidades que você não possui. Às vezes, e isso é muito comum no mundo dos negócios, nem sua função vão ter. E acredite em mim, se isso ainda não aconteceu, vai acontecer, ninguém passa ileso disso na vida profissional.

Meu emprego anterior, foi em uma gráfica. Então, a minha vivência era muito mais próxima do design gráfico; produção de peças visuais sempre foi uma das bases da minha rotina diária. Quando mudei de emprego, no começo foi só isso mesmo, mas depois de um tempo surgiram necessidades de ambiente (mudanças na sinalização da rede), de produto (um empreendimento do grupo que trabalha com laticínios de ovinos queria refazer as embalagens dos produtos), e cada uma dessas mudanças me pegou totalmente de surpresa.

O caminho mais simples seria aceitar minha inabilidade, dizer que sou do gráfico e que teriam que contratar uma empresa ou terceiro que soubesse fazer isso. Mas eu resolvi aceitar o desafio e ir atrás, tirar algumas horas vendo tutoriais, buscando informações, até o processo de produção da embalagem (maquinário, formas e legislação) eu vi um pouco. Esse ganho profissional vai além das necessidades da empresa, melhora não só meu currículo/portfólio como meu potencial de crescimento.

Mas até ai, nada de novo, existem centenas de textos que falam sobre buscar coisas novas ou aprender sobre áreas que você não domina dentro da sua especialização. Mas aquela parte que você não gosta, vai pesar cada vez mais na sua rotina diária, e aqui eu falo por experiência própria.

Assim como um jogador de futebol, chutando a bola em direção ao gol, qualquer habilidade pode ser desenvolvida se dedicarmos tempo a ela. Quando você não domina um software que não gosta, você cria atalhos, dando um jeitinho de fazer as coisas para terminar aquilo o mais rápido possível. Você acaba não melhorando muito por não fazer aquilo do modo correto, não importando a função ou ferramenta que você use, alguém pensou e elaborou um caminho muito mais simples, se for atrás de pesquisar.

Pegando o Photoshop por exemplo, se você não quer recortar uma foto, vai simplesmente usar a função varinha mágica, sendo que existe ferramentas melhores para isso, como a caneta por exemplo. Às vezes não é a caneta a melhor ferramenta para o recorte, como no caso dos cabelos (e se você é da área de criação/edição de imagem, admita, também já sofreu com isso), mas a função “refinar arestas” realiza o trabalho de forma muito mais simples. Coisas que você, gostando ou não, só saberia dedicando uma parte do seu tempo a isso.

Quando o serviço não é sua função, fica um pouco mais complicado, sabemos que isso é ilegal, mas você não tem escolha a não ser fazer, pois sejamos honestos, o mercado muitas vezes te vê como uma engrenagem fácil de substituir, mas isso é assunto para um outro texto. Nessa situação, conhecer a função, conversar com quem trabalha e pegar dicas e sugestões podem tornar o processo menos complicado para você.

No meu caso isso acontece em relação aos eventos, como já disse antes, sou parte da equipe do marketing, e nessas ocasiões precisamos fotografar ou dar algum tipo de suporte. Sou filho de fotógrafos, isso me deu, desde pequeno, a certeza absoluta do quanto não gosto da fotografia em minha vida. Mas como isso pode influir em minha permanência — ou não — no meu emprego, eu não tenho escolha a não ser aceitar.

Nesses casos, eu vejo o básico do básico da fotografia, para as fotos serem minimamente aproveitáveis. Fora que esse tipo de conhecimento não é de todo inútil para minha área de atuação, como sou eu que vou utilizar as fotos, saber escolher ângulos, enquadramentos e afins, vai tornar meu trabalho um processo mais prático e produtivo.

O ponto é: não existe nenhuma área onde o conhecimento seja autossuficiente. Um médico pode viver uma situação onde conhecimento de direito pode ser útil; um mecânico pode tirar proveito sobre entender o básico de inglês ou um padre pode ajudar alguém de uma forma muito mais ampla, sabendo um pouco de psicologia. Isso falando apenas da sua vida profissional, as possibilidades aumentam absurdamente se você incluir no processo a parte pessoal também.