Escrita na prática: distribuição de roteiro, funções da narrativa e personagens
Tiaraju Sci Fi #2 — Roteiro
2) definições para roteiro em 3 atos, bremond e as oposições, introdução, desenvolvimento longo, (Clímax pontual) resolução.

Por enquanto, tenho definido para o conto que irei escrever:
Estrutura: CONTO em 3 Atos
Assunto Oculto: golpe, farrapos, guerra o uruguai, regionalismo, traição, …
Simbolismo (físico): rio, maternidade, água(?)
Limites: 10 páginas
Narrativa em três atos não é a forma correta para se classificar um conto tão curto. O importante aqui é a estrutura. Preciso separar o texto em três pontos-chave da narrativa. Um movimento de aceitação do desafio pela personagem principal, um movimento de tentativa de solução — geralmente com pioras e melhoras assimétricas — e um movimento de solução. Muita gente dá ênfase na solução com o famigerado plot twist, que, coitado, nem tem nada de ruim assim. Mas acaba levando a culpa pela falta de criatividade de nós escritores que não conseguimos surpreender e ser coerentes ao mesmo tempo…
Mas a ideia do roteiro em 3 atos também permite um truque baixo: usar o mesmo simbolismo nos três pontos de virada da narrativa. Eu, a princípio, vou escolher a água. Críticos literários adoram essa bobagem. Eu inclusive.
A função dessa repetição simbólica é dar coesão temática à obra. Claro que não basta escrever “água” três vezes. A água precisa ter significado dentro da trama. Mas uma coisa de cada vez. Quando for a hora a gente trata desse problema.
Elementos relevantes para a narrativa em 3 atos:
a) status quo & gancho
b) primeiro obstáculo & primeiros stakes
c) clímax: subplot & aumento da ação
d) tensão & plot-twist
e) resolução dos conflitos
Há diversas formas de separar o enredo do conto. Eu vou usar os nomes clichés de roteiros pobres que existem por aí. É mais fácil de entender para que servem, embora não seja a prática mais apropriada. Para contrabalançar, vou puxar uma carta acadêmica da manga: Bremond.
Claude Bremond foi um dos críticos da corrente dos estruturalistas. Não sei se ele gostava do título, mas está nos livros de teoria literária e história da literatura como tal. O modelo de funções da narrativa de Bremond permite encaixe de duas (ou mais) sequências justapostas ou opostas ou dentro uma da outra. Ou seja, eu posso fazer com que a resolução do conflito principal dependa da resolução de um conflito secundário.
Quando a simbologia se coordena corretamente, a gente pode chamar de mise-en-abyme e dar um ar cult pra coisa toda.
A ideia aqui é mais simples, é inserir elementos de narrativas secundárias, menos importantes, mas que completem o significado da história principal. No caso, posso inserir uma história anterior à narrativa principal, mas que ainda possua três atos ou, pelo menos, complicações e melhoramentos, dando certo tempero à trama. Ou posso inserir a narrativa da personagem do vilão. Segundo Bremond, o importante é lembrar que quando a história melhora para o herói, ela piora para o vilão. Ou seja, a história de vitória do protagonista é também a história de derrota do antagonista. A única diferença é o foco narrativo.
Pense assim, se estivéssemos acompanhando Apolo Creed e não Rocky Balboa, Apolo seria o herói, e Balboa só mais um zé mané no caminho de Creed para a glória. (Se vocês não sabem quem são Apolo Creed ou Rocky Balboa, vocês não devem ser o meu público. O que estão fazendo aqui?) Provavelmente, voltaremos aos enredos secundários em posts posteriores.

Definições para conto de 10 páginas com estrutura de 3 atos
a) status quo & gancho
Introdução do status quo começa na primeira linha e vai até o fim da primeira página. O gancho deve estar no fim da primeira página, sendo confirmado pelo herói, no máximo, na metade da segunda página. O gancho serve como uma promessa do texto para com o leitor, para que este aceite entrar na história.
Aqui são apresentados os Pampas, região onde o conflito ocorre, e Tiaraju, a personagem principal, defensor, guerreiro ou só líder rebelde nativo da região. Uma pincelada sobre a magnitude do conflito pode ser necessária.
b) primeiro obstáculo & primeiros stakes
Da primeira linha da segunda página até a metade da terceira página. A personagem principal deve encontrar o primeiro obstáculo. Esse obstáculo serve como confirmação de que a promessa será cumprida. Então, não pode ser excessivamente fácil de contornar. Também não pode ser tão difícil que torne os demais obstáculos pequenos em comparação. Em geral, o primeiro obstáculo é escrito na história como uma necessidade de o herói confirmar que sabe quais são os riscos e que vai buscar ativamente a solução do problema.
Aqui, planejo que Tiaraju tenha de caminhar até o exército inimigo, sabendo que será capturado.
c) clímax: subplot & aumento da ação
Neste conto, começa na metade da terceira página e vai até o fim da quinta página. Traz uma complicação secundária. Serve para aumentar a tensão, mas também é útil para elaborar a complexidade de uma segunda personagem ou de um segundo elemento simbólico da narrativa.
Confronto direto entre Tiaraju e o comandante das tropas inimigas. O confronto em si será verbal, Tiaraju argumentará contra a posição do exército. Ambos têm argumentos de que o lado oposto é o invasor. O pano de fundo será inspirado (ok, roubado na cara de pau) das disputas pré-Revolução Farroupilha.
d) tensão & plot-twist
Mais ou menos na metade da sétima página. Esgotados os argumentos do conflito secundário, resta ao comandante ordenar a execução de Tiaraju. Tiaraju escapa. Isso vale como “plot twist”? O que valeria?
A questão aqui é o protagonista tomar rédeas da própria vida. Isso ocorre através de uma peripécia. No grego Περιπέτεια, uma interrupção dos sucessos de uma linha narrativa, de uma personagem ou de um caminho para o qual o enredo parece estar se dirigindo. No original, qualquer mudança de direção da história é “peripécia”, mas essa palavra tem adquirido sentido e importância do tal “plot twist”.
Eu já tenho do que vai ser e de como vai ser. Também é adaptação de uma das lendas de Sepé Tiaraju. O índio escapa jogando-se no rio amarrado e sobrevive. De quebra, insiro o elemento água para a consistência temática de que vou precisar no fim.
e) resolução dos conflitos
Na décima página. O conflito resolvido no texto não é o da captura de Tiaraju, mas o conflito interno sobre o que fazer sobre o exército inimigo. Então, embora a luta termine sem solução, Tiaraju e seu exército terão uma decisão sobre sua postura.
Faltam ainda elementos do mundo narrado. No próximo artigo veremos isso, e já começaremos a escrever partes da história.

