Escrita na prática: da ideia ao outline ao texto à publicação

Tiaraju Sci Fi #1 — Motivação

1) motivação ou por que usar cada um dos esquemas principais, definições: 10 páginas, conto, scifi, revolução farroupilha, guerra do uruguai, narrativa em 3 atos, sinopse geral

Teclado e papel em branco com lapiseira.

Motivação

Faz algum tempo eu quero organizar um passo-a-passo sobre os elementos importantes na construção de uma boa história. Meu objetivo é experimentar aqui a construção de uma narrativa literária. Por “narrativa literária” quero dizer uma história que possua níveis de emaranhados de escrita e de interpretação. Mas em vez de explicar, vou tentar fazer.

Comecei há alguns dias a escrever uma história por enquanto intitulada de “Taraju Sci Fi”. Normalmente, penso a história do todo para a parte. Penso primeiro as estruturas extratextuais e paratextuais: tamanho, referências, títulos, subtítulos ou outras divisões necessárias, imagens ou respiros do texto. Depois começo elaborando palavras-chave que me indicam o assunto de cada sessão ou parágrafo. Eventualmente, um nome de personagem surge. Uma frase. Finalmente, o texto se constrói em torno disso até ocupar os espaços planejados nas estruturas extratextuais.

De fato, este texto está sendo escrito da mesma forma. Os dez artigos da série. Eu não sei como estará o conto “Tiaraju Sci Fi” quando chegar ao terceiro artigo. Mas já sei quais são as subdivisões do terceiro artigo, seu assunto e seu título. Essa organização, ao invés de tolher o processo criativo, ajuda a abrir espaço para que a narrativa cresça. Tomando emprestada a metáfora do escritor-jardineiro, não é só deixar o texto crescer. É preparar o terreno para que as flores cresçam bem estruturadas.

Definições

Como disse, já comecei a escrever esta história há alguns dias. E por “escrever” quero dizer que tomei decisões sobre como a narrativa deve se desenvolver. São essas decisões que trago para este primeiro texto.

Pois, para contar uma história, é importante decidir, por exemplo, qual o gênero literário (será ficção científica), qual o formato da narrativa (será um conto), qual o tamanho da história (10 páginas).

Rascunho, definições, 10 páginas, sci-fi, Uruguai e Farrapos, 3 atos, peripécia, narrativas justapostas.

Um conto é estruturalmente uma narrativa curta com baixa complexidade narrativa, considerando quantidade de personagens e trama, não necessariamente qualidade da trama e das personagens. A teoria do conto nos diz que há duas leituras principais, uma literal e outra nas entrelinhas. Não é necessariamente uma metáfora, pode ser que a história seja também “literal”, ela só não é explicitada pela narrativa. A ideia é poder apresentar alguma surpresa ao leitor mesmo em poucas páginas. Também já escolhi adaptar a estrutura de 3 atos, tanto pelo valor didático da brincadeira quanto pela oportunidade de usar pelo menos uma peripécia dentro das 10 páginas do conto.

Bati o martelo no número exato de páginas, porque, planejando agora estabelecer uma forma didática para a apresentação dos artigos, o número 10 é mais “calculável”. Dez porcento do texto é a marca final da primeira página. Vinte e cinco porcento do texto é a marca da metade da terceira página. Falarei mais sobre a distribuição dos elementos da narrativa dentro do roteiro no segundo artigo.

No terceiro artigo, falarei sobre o mínimo de worldbuilding — as ideias para o mundo dentro da narrativa — e sobre o quais elementos podem fazer do texto uma conto de ficção científica. Já sei que usarei elementos “emprestados” da Guerra do Uruguai e da Revolução Farroupilha. Entendo que sejam próximos de mim, ao mesmo tempo em que são heróicos suficientes para dar certa grandeza ao conto.

No quarto artigo, eu devo falar sobre a relação entre as vozes dentro do texto. Personagens em conflito e como elas podem apresentar ideias opostas ou complementares umas às outras.

No quinto artigo, a ideia é já propriamente começar a escrever partes do conto. Transformar as ideias elaboradas nos primeiros artigos nos nomes, palavras e frases que introduzem o ambiente da história e suas personagens.

No sexto artigo, teremos elementos suficientes para separar início e fim de cenas ou, pelo menos, indicar a sequência crítica de ações e o que deve ocorrer em cada momento da narração. Agora digo “narração”, pois o texto não é mais só algo que acontece, mas é algo que é narrado por alguém. O narrador deve existir mais ou menos por aqui.

No sétimo artigo, serão tomadas decisões sobre esse narrador. É preciso planejar a ação do narrador na história: se ele pertence ao mundo narrado, se ele faz parte dos eventos, se ele está distante física, temporal ou emocionalmente da ação, se ele sabe mais do que o leitor, se ele quer contar a história com este ou aquele determinado viés.

No oitavo artigo, vou escrever a primeira versão completa do conto e indicar minhas próprias impressões sobre o que precisa ser melhorado. Imitando o desenvolvimento de software, vou chamar de leitura alfa.

Para o nono artigo, vou precisar de ajuda de terceiros para que leiam meu conto e discutam suas impressões. A partir dessas impressões de leitores externos, os hoje chamados de leitores beta, vou tentar elaborar a forma final do texto.

O décimo e último texto vai ser a versão final do conto utilizando todos os elementos planejados e discutidos, incluindo as adaptações do conteúdo a partir dos leitores beta. Se tudo der certo, quase todos os elementos do texto terão justificativas e estarão amarrados entre si, o que vai permitir uma boa qualidade interpretativa para o conto.

Rascunho de assuntos para esta série de posts no Medium.

Tudo dando certo, vou submeter este conto para alguma revista ou concurso literário e ver quais resultados consigo obter.

Outline, canetas azul, verde, vermelha, preta, conto, 10 páginas, três atos, separado por numeração esperada da página de cada trecho. Veremos isso mais tarde.

Sinopse

Pra não dizer que estou só enrolando no primeiro texto, vou deixar uma sinopse para o conto. Sei que a sinopse também vai se modificar ao longo dos artigos.

Tiaraju, guerreiro nativo do planeta Terra, separa-se do seu regimento para enfrentar sozinho um destacamento de tropas invasoras. O conflito, enquanto coloca em risco sua vida, o faz questionar seu amor pela Terra onde cresceu através das memórias reavivadas de seus antepassados, cujas almas ainda habitam a região. No fim, somente Tiaraju poderá garantir sua própria liberdade e uma chance de vitória para seus aliados.

Muito cliché? Bom. Ainda há mais nove artigos para fazer melhor.