Heresias modernas

Porque precisamos do politeísmo

É importante pensar sobre quem se beneficia do tal “estado laico”. Idealmente, um estado laico evitaria que qualquer religião fosse prejudicada em benefício de outra. Na prática, o totalitarismo ideológico de uma só religião abafa a voz das demais sob a falsa promessa de separação e não interferência estado-igreja.

O problema do monoteísmo

O monoteísmo, como o conhecemos hoje, vem da herança do totalitarismo religioso. Se o catolicismo não é religião oficial no ocidente, vem sendo religião de fato. Precisamos desaprender a conviver com isso.

Católico é universal

A palavra “católico” vem do grego καθολικός, significa: universal. Uma “religião católica” seria a religião que abrange a totalidade das pessoas, do mundo, tudo.

Uma das dúvidas do cristianismo ao longo dos séculos foi saber se, por exemplo, os indígenas da Américas teriam alma e, tendo alma, seriam salvos pelo sacrifício de Jesus. Eventualmente, decidiu-se que sim.

O conceito não é tão inovador.

Os alienígenas também têm uma Torah

No judaísmo, houve uma dúvida moderna. “Existem alienígenas em outros planetas?” A resposta foi mais fácil. “Não sabemos se existe.” O sentido de “outros mundos” na Torah não é necessariamente literal. “Mas, se existirem, eles têm uma Torah”. Para o judaísmo, Torah é “verdade” e, se os alienígenas existem, eles são submetidos à mesma “verdade” do nosso mundo.

A ideia aqui também é de que há uma verdade “original”, universal. Uma verdade que rege a totalidade da experiência humana e, no caso, alienígena também.

A reversão ao Islam

Essa verdade original aparece também no Islam. Para os muçulmanos, todos já nascemos muçulmanos, mas somos afastados da fé pelos nossos pais ou pela sociedade. A pessoa não se “converte” ao islamismo, mas se “reverte” à verdadeira fé.

Os novos Acher

Acher foi um rabino importante registrado no Talmud. Acher desistiu do judaísmo. Ainda assim, o judaísmo não desistiu completamente de Acher.

Para Acher, aprender uma segunda religião é como escrever em palimpsestos.

Para Acher, era demasiado difícil aceitar o judaísmo como segunda língua para decifrar mitologias. Ninguém que estudasse mais de uma religião poderia aceitar uma só delas tão facilmente. É quase impossível aceitar cegamente uma fé depois de ter conhecido outra — nada mais pode ser absoluto, nada pode ser final. Depois de crescer conhecendo os deuses gregos, Acher não conseguia ceder ao totalitarismo de IHVH.

Se os rabinos do Talmud decidiram que isso era péssimo para o judaísmo do primeiro século E.C., digo que isso é ótimo para a sociedade atual.

O estado laico

Um estado que desconhece religião é ingênuo e manipulável.

Escuto e leio propagar-se a ideia de que um estado laico, leigo, sem religião, é a forma ideal de lidar com essas diferenças. Espera-se que o estado recuse-se a enxergar religião — seja religião oficial ou religião de fato. Quando alguém se utiliza de sua religião como argumento, o estado faz de conta que não viu. Não tem liberdade para contra-argumentar, sob o falso princípio de liberdade religiosa.

Para o estado laico, o mundo religioso é um papel em branco. Precisamos de mais palimpsestos.

Pensem comigo: o Estado precisa supor que há ao menos duas religiões. E precisa supor que essas ambas as religiões possuem ao menos uma lei cada diametralmente oposta a da religião alternativa.

Se o Estado abster-se de falar em preceitos religiosos, a religião com maior representatividade vence. Ponto. A outra religião “menor” precisará se submeter à lei da religião “maior”. Isso fere a liberdade muito mais do que se o Estado questionasse as leis religiosas abertamente.

  • O papel do estado é proteger aquele que sacrifica animais e aquele que tem receio de colocar plantas na água quente para fazer chá
  • O papel do estado é proteger aquele que batiza o recém-nascido e o que espera o filho ter idade para decidir
  • O papel do estado é proteger o que precisa trabalhar todos os dias menos no domingo, o que trabalha todos os dias menos no sábado e o que trabalha todos os dias menos na sexta-feira
  • O papel do estado é proteger aquele que protege o feto e o que defende a pena de morte
  • O papel do estado é arbitrar

Dois deuses é melhor que nenhum

Precisamos aceitar que o deus dos judeus não é o mesmo deus dos católicos e não é o mesmo deus dos muçulmanos — também não é a mesma entidade suprema da kimbanda, umbanda ou catimbó; e o Satã luciferiano não é o mesmo que testou o Jó hebreu. Não existem verdades totalizantes entre essas religiões.

Aceitar a existência de pelo menos dois deuses significa permitir que se parta de dois princípios distintos e igualmente inquestionáveis. Não precisamos de um novo catolicismo universal, de uma nova fé totalitária. Muito menos de um ateísmo totalitário. Precisamos aceitar a fé diferente, a ideologia enraizada em princípios estrangeiros. Precisamos aceitar que, em uma mesma sociedade, nós todos nos sustentamos sobre alicerces diferentes. E está tudo bem assim.

Precisamos aceitar a fé diferente, a ideologia diferente, aceitar que, felizmente, nos sustentamos sobre fundações diferentes.

Melhor seria que Atena e Apolo julgassem em tribunais separados, claro. Mas, na nossa sociedade, precisamos que os tribunais sigam leis específicas às necessidades da própria sociedade e não que decidam se Atena ou Apolo estão certos. O fiel a Atena, estando legalmente apoiado nas decisões da sociedade, e só após estar legalmente apoiado nessas decisões, deve ir até Atena pedir sua opinião.

Conciliação

Os motivos de permitir ou proibir um aborto não pode obedecer a fé dessa ou daquela religião, mas leis próprias ao funcionamento da sociedade. Não nos cabe aceitar as leis da bíblia católica assim como não aceitaríamos leis dos Estados Unidos.

Em suma: não precisamos esconder os crucifixos nos tribunais, precisamos colocar uma estátua de Oxalá ou de Forseti — quando o juizo preferir uma dessas denominações.

Não é sobre permissividade. É preciso que as leis do Estado permitam o sacrifício de animais nos mesmos termos que permite que sejam mortos para consumo; assim como proíbe o assassinato de humanos apesar de uma ou outra religião ainda insistir na pena de morte.

Dizem que, quando os hebreus chegaram à Canaã, seguiram longa discussão sobre qual deus cultuar. El, Baal ou Ishtar. Deveriam manter as leis do deserto ou se adaptar a leis agrícolas ou a leis de uma cidade? Decidiram-se pelas leis do ermo e pelo expurgo dos demais deuses. Uma pena.