Estamos a olhar de fora da TV ou da caixa?

Para quem é contra e a favor do impeachment, eis a questão!

Neste momento, algumas coisas importantes estão acontecendo, agradando ou desagradando. Embora ainda de forma pouco madura, as atenções tem se voltado para os problemas político institucionais da república brasileira, seja você favorável ou desfavorável ao impeachment. Há opinião sendo construída na perspectiva individual. Cada um cria a sua. Um ainda não escuta o outro, mas designar opinião já é um norte para se direcionar, e isto, de alguma forma, é bom.

Independente de conhecimentos, da compreensão, do contexto, ou da visão realista ou não que alguém tenha do problema complexo, a coexistência, que ainda é complicada por aqui, pode partir das percepções em comum no panorama acompanhado: primeiro, que os representantes não nos representam! Tanto Dilma, quanto todos os deputados e partidos, nenhum e ninguém é capaz de representar a sua palavra, a sua voz, a sua opinião como ser humano, como pessoa comum convivente na sociedade brasileira. Ninguém pode falar por você e ao dizer isto não estou me posicionando contra ou a favor do impeachment, estou esvaziando a parcialidade para convidar tanto as pessoas que são a favor, quanto as que são contra, quanto as outras (porque há outras posições) a reconhecerem que tendo uma ou outra opinião este é um ponto comum às opiniões: há políticos que não nos representam! Eles não tem condições hoje de nos representar.

Uma democracia não pode mais ser representativa ao modo como está. É preciso mais, é necessário ir além, encontrar uma forma com maior dinamismo, flexibilidade e sem tantos privilégios, defesas e margem de manobra para que o mal empregado (o eleito) não seja persistente, nem recorrente. Se quem foi contratado faz sozinho suas regras de trabalho, há algo errado nisso. Se quem foi contratado faz sozinho seu preço, há algo errado nisso. Se quem foi contratado faz o contrato à sua maneira, há algo errado nisso. Aceitação sem muitas condições favoráveis de negociar é complicado. Buscar por culpados não leva a solução e culpar como o dito, “o povo tem o governo que merece” também não é proveitoso a uma solução.

Sabe-se que está ao alcance das pessoas meios de questionar algumas decisões e sabe-se que dado o tamanho da população não é simples solucionar a questão da governabilidade de um país, mas também não faz isso do modelo atual o melhor modelo, pois há modos desconhecidos que estão a se descobrir e isto só será possível pelo início da procura de outro modelo.

Ficam claras as estratégias dos políticos posicionando-se como num programa de auditório e usando todas as poses como auto-propaganda, possivelmente já pensando na repercussão do olhar das pessoas nas próximas eleições, de ambos os lados. É evidente que estão ali defendendo interesses pessoais e embora todo aquele inútil e por vezes irritante discurso, de muito poucos pode se creditar a sensatez e o interesse coletivo. É um grande circo mesmo!

Com o que hoje ocorreu (embora falte o Senado), preciso é ser realista, tal resultado não elimina os incontáveis problemas mais graves do Brasil, mas já dá oportunidade e possibilidade de que alguma coisa aconteça.

Realista: bem provável que a panela de pressão vai agitar e ferver ainda mais. Novos problemas talvez apareçam, mais confusões e convulsões. Mas o que hoje se deu é positivo olhando de fora, sendo você contra, ou a favor. E isto é possível dizer, independente do resultado, pois o que é importante são as pessoas comuns, nós nos reunindo para tratar da política em alguma instância. Quer dizer, o simples fato de você estar presente e atento, independente da sua posição.

Os próximos passos seriam não se apegar aos uniformes e aprender a conviver com as perspectivas diversas sem dar-se a adjetivações, tais como “golpistas” ou “petistas”, pois esta é a construção do inimigo e a degradação do papel político próprio, quando se rotula a pessoa e se despreza sua qualidade humana de livre pensamento e de livre mudar. Há sim os que se engessam, as múmias modernas, ortodoxos congelados no tempo, sem mobilidade nas juntas, como robôs enferrujados ante situações já obsoletas (por exemplo, há ainda aqueles que defendem o nazismo e que aplaudiriam outro holocausto), mas sua opção pela decrepitude não mata sua condição humana, de forma que se ele não cultiva alguma esperança, que você seja a esperança para ele, isto é, que você não o exclua para que o caminho esteja aberto à decisão de mudar, quando esta decisão existir.

Não somos nós quem estamos decidindo diretamente sobre o impeachment (porque quem está votando são os próprios políticos, não nós). Mas o impeachment pode ser a voz de uma minoria que protesta nas ruas virtuais ou físicas, minoria que não deve ser de modo algum desprezada. A minoria de hoje é a maioria de amanhã e sua opinião não deve ser ignorada.

Existe uma estrutura há muito tempo (há muitas gerações) apodrecida no Brasil e, neste momento, alguns destes políticos vem perdendo suas posições, como a Dilma aproxima-se agora de perder. Que seja o começo, mas que todos se vão.

Falar de Golpe é por um lado contraditório, por outro verdadeiro.

  • Contraditório porque não há golpe quando se segue o rito prescrito na constituição.
  • Há golpe porque existe um complô para retirar o governo.
  • Não há golpe porque estas foram as regras criadas pelos próprios legisladores e nunca ocorreu nenhum tipo de manifestação política generalizada em torno de uma insatisfação às brechas (portas estratégicas) da constituição de 88 e, por inúmeras situações, ao longo de muitos anos e de décadas, todos (os partidos pelo menos), sem exceção, vem se utilizando (ativamente ou por mera conivência e omissão) das mesmas regras ao bel interesse. Um exemplo, quando interessa votar uma decisão longe do povo, joga-se o evento para a madrugada, quando interessa votar próximo, joga-se para as 14 horas de um domingo, além de outras tantas artimanhas. Por tantos anos este artifício é livremente utilizado, com a legitimidade da Constituição. Da mesma forma, tudo o que ardilosamente se constituiu hoje para provocar um impeachment é proveniente de uma regra há muito estabelecida e nunca dantes questionada, mas amplamente utilizada. Esta fundamentação sobre o incentivo midiático e tal manipulação pelas regras do rito se mostra assim contraditória pelo exposto e é como o jogo de futebol da criança em que, quando o dono da bola começa a perder, ele pega a bola e fala: “agora não brinco mais”.
  • Há golpe porque a eleição compreendeu uma maioria da população.
  • Não há golpe porque não se pode mais dizer que a maioria da população ainda existe, dos que protestam, ninguém mais pode garantir que lá não estejam alguns milhões dos que votaram pelo governo. Poucos milhões apenas, já representariam a mudança desta decisão transformando a maioria para minoria, e vale também para o vice-versa.
  • Há golpe porque quem está na retaguarda também são políticos corruptos.
  • Não há golpe porque não é por haver cem homicidas soltos na sociedade que soltaremos um que acabou de ser preso com a desculpa de que os demais ainda estão soltos. Seria humanamente impossível que alguma coisa se transformasse, considerando o quadro existente e a estrutura suja, que tudo fosse instantânea e simultaneamente revitalizado com a completa e total substituição e julgamento, à mesma hora, de todos aqueles que estão nos cargos com alguma irregularidade, alguma mancha ética. Semelhante bomba-atômica democrática é certamente a coisa mais desejada por nós brasileiros, seja você a favor ou contra o impeachment, mas ela não existe (pelo menos ainda). Na prática não conhecemos nenhum meio concreto de se fazer isso, a não ser efetivamente por meio de um golpe — que neste caso, não seria democrático. Por isso pra mim é um pouco estranha tal fundamentação, e contraditória, pois dá impressão justamente da intenção de se realizar um golpe dizer que o processo do impeachment (ainda que com todos os problemas) é golpe. E esperar por eleições provavelmente pode ser pior. Viria o resfriamento da situação e a acomodação poderia tirar a oportunidade de que algo aconteça, mesmo sendo improvável um impacto menos doloroso frente aos acontecimentos atuais, preciso é começar de algum lugar.
  • Há golpe quando há impeachment sem crime.
  • Não há golpe quando há obstrução de justiça caracterizando certa interferência do Executivo no Judiciário e quando uma pessoa no exercício de sua função pública a utiliza para seus interesses individuais. Valendo adicionar que é justo que quem contrata possa ter a liberdade de questionar e de rever sua contratação do serviço a qualquer momento, motivo pelo qual existe a possibilidade do impeachment.
  • Verdadeiro, por fim, porque tudo isto que estamos presenciando é um golpe ao sentido essencial de democracia, que significa “governo do povo”. A política estrutural e institucional tem, há muito, favorecido somente aos próprios políticos e aos grupos de interesse desfavorecendo as demais pessoas do mundo. A quem se preocupe com o coletivo, impossível não se incomodar com as regras como estão, permitindo foros privilegiados e demais regalias que indubitavelmente são imorais, inescrupulosas, anti-democráticas. Quem fale de democracia sem achar estranho esse tipo de blindagem, declarando o sagrado de uma constituição, que no fundo foi feita por homens (portanto falível), carece de olhar com mais atenção.

Não há algo a se comemorar neste momento, pois estamos todos no mesmo barco, todos sofrendo com este descaso político generalizado de que não pode partido nenhum se eximir, mas há um sentido positivo comum às duas posições também, sendo contra ou a favor do impeachment. É que todos os políticos corruptos ou comprometidos exclusivamente com seus interesses pessoais e não com o coletivo estão se enroscando em si mesmos. A imoralidade e a falta de ética está se entrechocando, algo que, se somos humanos conviventes de uma mesma terra, nos diz sobre o papel político, próprio e intransferível que cada um de nós tem e sobre as representações não representativas que precisamos refletir.

Certeza é que uma bomba-atômica democrática só pode ser construída pela convergência das visões, pelos pontos comuns, capazes de conviver e nos unir para construir soluções de bem coletivo e que não assassinem o bom senso pela divisão e exclusão no mundo.

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