Estava tudo lá, em 2013: Michel Temer, Marta Suplicy, Feira de Frankfurt, MinC, abaixo-assinado, Educação, Globonews, rua, golpe, pesadelo

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A notícia de que o MinC seria eliminado pelo presidente interino Temer, me levou imediatamente a outubro de 2013, quando o Brasil foi país-convidado da Feira de Frankfurt e o vice lá estava, ao lado de Marta Suplicy, então Ministra da Cultura.

Na época, a hipótese de que ela apoiasse um golpe ao lado de Temer e o desaparecimento da pasta nos pareceria um delírio. Pareceria? Preciso construir alguma narrativa com isso para organizar o pensamento. E lembrar de 2013. Tudo em 2013 foi decisivo para o que vivemos agora. Difícil era imaginar tamanho retrocesso. O pesadelo de agora.

Em 2013, o governo do PT, o PMDB, a oposição do PSDB e a grande imprensa estavam todos unidos em criminalizar as manifestações de rua.

Diversas vezes apontei a manipulação dessa narrativa pela mídia e o absurdo da violência policial, em debates, em textos e inclusive ao vivo na Globonews (https://youtu.be/p4UM5VsfidE?t=3m24s), dando um contraponto imediato ao que exibiam — o que hoje em dia, sinal dos tempos, me parece algo absolutamente impossível. (A impressão é que agora o massacre precisa ser total, sem nada que possa contradizer a narrativa hegemônica, nem mesmo por um minuto num canal a cabo.)

Na época eu andava bastante desgostoso com isso (https://www.facebook.com/jpcuenca/posts/10152293115768289) e resolvi levar o tema aos colegas em Frankfurt (https://www.facebook.com/jpcuenca/posts/10152295475288289).

Idealizei um abaixo-assinado apoiando professores em greve e denunciando a violência policial em manifestações:https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10152303042528289&set=a.68137873288.79443.685748288&type=3&theater.

Mandei traduzir o texto, redigido numa viagem de trem entre Colônia e Frankfurt com o Luiz Ruffato e o Paulo Lins. A Raquel Cozer, que na época trabalhava na Folha e hoje edita meu livro na Planeta, me ajudou clandestinamente a fazer cópias na sala de imprensa.

Distribuí os papéis na cerimônia de abertura da feira e do stand brasileiro. (Há um vídeo curioso disso aqui: http://www.srf.ch/…/video/brasilien-an-der-frankfurter-buch…)

Uns funcionários do cerimonial do Planalto, com medo de algum tipo de confusão, me procuraram oferecendo encontros com o vice-presidente Temer e com a então Ministra da Cultura, Marta Suplicy. Eles queriam a foto. E eu não queria sujar minha mão. Apenas mandei entregar o abaixo-assinado.

Na abertura da feira, o sempre repugnante Michel Temer nos presenteou com um discurso constrangedor que recebeu sonora vaia. Não lembro das platitudes que Marta disse quando inaugurou o stand brasileiro, apenas da cara de profundo desprezo que fez quando deparou-se com o abaixo-assinado que deixei no púlpito de onde ela discursaria.

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2013. 2016. Ontem, li no El País que Dilma passou seus últimos momentos no Planalto cercada pelos movimentos sociais e longe dos políticos (http://brasil.elpais.com/…/…/politica/1462926904_504785.html).

Demorou demais. As costas que o seu governo deu aos movimentos populares em 2013, preferindo criminalizá-los e ecoar o discurso do “vandalismo” ao lado da imprensa que depois a rifaria, foi decisiva para o que acontece agora. Com popularidade ainda em alta, Dilma poderia ter aberto um caminho de reformas e diálogo direto com o povo brasileiro. Era o momento decisivo para estender essa ponte e buscar apoio nas ruas. Mas ela não o fez.

E hoje o Ministro da Educação e Cultura é um representante do DEM, partido que entrou no STF contra cotas nas universidades públicas. A pasta é de Mendonça Filho, um investigado na Lava Jato que definiu, em recente entrevista, universidades como “guetos esquerdopatas e esquerdoides”.

Entre 2013 e agora, esse frustrado abaixo assinado mostra o que falhou, e o que amanhã falhará pior: nosso sistema de educação básica, a repressão policial apoiada pelo governo federal. Um projeto de cidadania que nos parece cada vez mais distante com o Ministério da Educação nas mãos desse sacripanta. A democracia que nos foi cassada.

E uma repressão ainda mais severa dos direitos de expressão e manifestação por um Ministro da Justiça, Alexandre de Morais, autoritário e antagonista das liberdades civis. Um sujeito que manda sua polícia bater em crianças e mulheres. E que terá como mais um instrumento para criminalizar movimentos e organizações sociais uma vaga lei anti-terrorismo sancionada pela própria Dilma. (Volto ao vídeo de 2013:https://youtu.be/p4UM5VsfidE?t=3m24s)

O Brasil dormiu e teve um pesadelo. Acordou num pior ainda.

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