Eu, balzaquiana

Ou: a diferença entre envelhecer e amadurecer.

Você já ouviu falar em “retorno de saturno”? Não sou uma profunda conhecedora de astrologia e nem sei em quanto acredito, mas dizem que Saturno leva em torno de 28/29 anos terrestres para completar uma volta. O que significa que em algum momento entre os nossos 28 e 30 anos de vida, Saturno exerceria uma influência sobre nós, trazendo uma fase de autodescoberta. Seria um momento de pensar a longo prazo, se deparar com responsabilidades, traçar metas, começar a levar a vida a sério. Ou, como gostamos de chamar, a famosa “crise dos 30”.

A literatura também não ficou de fora dessa moda: entra em cena a mulher balzaquiana, vinda do livro “A mulher de 30”, de Honoré Balzac. Nas páginas, fala-se de uma mulher mais madura, pronta (segundo a Wikipédia) para viver o amor plenamente, muito diferente das moças românticas de 20 e poucos anos.

Preciso dizer: rolou uma identificação.

Photo by Ross Findon on Unsplash

Aos 20, eu era um furacão. Não tinha fome, frio, cansaço que me parasse. Queria estar com todo mundo, em todos os lugares, o tempo todo, mesmo que isso me custasse noites com poucas horas de sono, pular refeições e raciocinar muito pouco — ou quase nada — o que eu estava fazendo. Os dias pareciam passar em segundos porque eu estava pisando fundo pra viver tudo o que pudesse.

Olhando pra trás, fica muito claro que sabia muito pouco do que eu queria ou quem eu era, mas acho que isso é normal. Era uma fase de tantas possibilidades, de tanta experimentação para descobrir a si mesmo que parecia praticamente impossível não viver na intensidade máxima.

E se no início dos 20 fui potência, fui também tempestade. Era uma quantidade enorme de incertezas, inseguranças, típicas de quem se depara com escolhas demais. Traçava planos apenas pra riscá-los dias depois, não dava nem tempo de planejar a vida porque nunca sabia para onde ela estava indo (e, pelo visto, também me faltou a consciência que era eu quem ditava — aos trancos e barrancos — o caminho).

Acho que é aqui que a gente se depara com a diferença entre envelhecer e e amadurecer. Não me sinto, agora, quase aos 30, mais velha. Me sinto forte, sinto que meu corpo ainda tem vigor e pouca coisa mudou nesse sentido. Também sigo passional, desbocada, questionadora, ansiosa — desembestada! E, ainda assim, sou outra.

Amadurecer tem a ver com estar confiante, ou melhor ainda, confortável com quem você é. É sentir que está sendo você mesma, ainda que seja uma você diferente a cada fase da vida. É entender o que te faz bem, mesmo que isso mude a cada faixa etária, e priorizar isso a cada ciclo. É se sentir cada vez mais satisfeita na sua pele.

Isso não está ligado aos anos, não respeita aniversários. Ter mais idade não significa estar melhor ou mais equilibrada, necessariamente. É possível ser madura aos 20 ou imatura aos 50. Amadurecer é algo que só o autoconhecimento é capaz de trazer, mas que você precisa estar consciente para alcançar.

Não quero dizer que sou uma pessoa absolutamente bem resolvida comigo mesma ou que estou no total controle do que acontece na minha vida, não é isso. Mas, hoje, posso dizer que me conheço melhor do que quando a década dos 20 começou: sei dos meus erros, meus vícios, meus defeitos, do que eu tento melhorar, dos meus gostos e dos acertos. Não estou mais disposta a aceitar de braços abertos o que me faz mal, nem de abrir mão facilmente do que me faz sorrir.

A proximidade dos 30 me trouxe apenas tempo suficiente comigo mesma, para me sentir cada vez mais tranquila de olhar pro futuro e entender que, daqui pra frente, qualquer decisão que eu tomar vai ser 100%, real-oficial, fielmente minha.

Não dos meus “e se”, não dos meus “talvez”. Chega de dúvidas.

E não existe perspectiva de vida melhor do que encarar o mundo de peito aberto. Venha o que vier.