Eu me sinto bem

Chega a ser engraçado. Subversivo, até.

As pessoas não estão mais muito acostumadas a falar isso. Ou de ver com bons olhos quem fala isso. Parece existir uma esquisita associação em nosso tempo entre bem-estar e necessidade de gerar culpa e mal-estar, de ocultamento. Como se, por empatia, por existir mal-estar no mundo, não se pudesse mais construir uma constatação simples de leveza numa experiência pessoal. O fato é que me sinto bem. Vejo caminhos alegres nos meus horizontes. Estou andando por caminhos belos já agora. Os caminhos feios já ficaram bastante distantes e a maioria de suas feridas já cicatrizaram. Boa parte delas sumiu totalmente.

Sei quão lamentável é que nem todos no mundo sintam leveza semelhante nem tenham acesso a este bem-estar. Eu não tenho mérito em diversos pontos desta sensação positiva: boa parte dela é composta de privilégios. Eu saio na rua com uma certa segurança. Isso é privilégio. Não tenho que andar de ônibus todo dia. Privilégio. Trabalhando, privilégio. Formado no Ensino Superior, privilégio. Trabalhando com escrita, algo que amo! Um privilégio gigante.

Algumas alegrias foram conquistadas, resultantes de escolhas com esforços e riscos envolvidos (como tentar trabalhar escrevendo), sendo que até mesmo poder escolher/arriscar/conquistar são privilégios, mas alguns privilégios foram simplesmente recebidos e pronto, como ter auxílio financeiro para me formar no Ensino Superior e ser homem. Eu não tenho como invalidar o bem-estar destes privilégios por existirem mal-estares no mundo. Empatia não é isso: até porque, se sentisse a mesma dor, não teria como ser a dor do outro (e não minha) com quem posso vir a ser empático.

Isso não quer dizer que não tenho sofrimento na vida, nem que não sofro pelo sofrimento alheio. Mas o sofrimento em primeira pessoa é diferente do sofrimento em terceira: é diferente o sofrimento de ver moradores de rua e de ser um deles. Eu tenho minha experiência de particulares dores e não é em absolutamente todos os aspectos que gozo de um privilégio. A existência de privilégios não anula a existência de sofrimentos. Queria eu mesmo ter mais bem-estar em certos aspectos, inclusive para sofrer menos (morar em um cortiço que não tem piso, por exemplo, não é algo que me agrada muito, mas até este sofrer é entendido de outra maneira ao recordar dos que nem isto possuem).

Queria eu, esperançosamente, que existisse sofrimento de forma mais igualitária no mundo, mas querer isso não é sinônimo de desejar sofrer: na verdade, o que eu queria era que outros tivessem mais acesso ao bem-estar. Nem sempre isso se controla. Vale ressaltar, às vezes certos privilégios são construídos e, em outros casos, são simplesmente recebidos. Gostaria que os outros gozassem de mais privilégios em ambos os sentidos. Gostaria que houvessem mais oportunidades de se receber e se buscar bem-estar para todos. Para ter logo de saída. Para escolher. Para arriscar. Para conquistar.

Mas negar meu bem-estar, ou tentar substituí-lo por mal-estar, não me parecem caminhos razoáveis. Eu me sinto bem hoje. Pretendo me sentir bem no futuro, mesmo ciente da existência de tempos mais duros do que os de hoje (como foram meus tempos baixos logo antes dos atuais). Hoje, estou em um bom dia. Esta semana, para mim, foi uma boa semana. Este mês, um bom mês. Esta época, uma boa época.

Eu me sinto bem. Eu me sinto bem em me sentir bem. Não é feio. Não é errado. É uma grande sorte, sim. É um estado frágil e transitório, também. Mas quando sorrio, nada disso importa. Hoje eu sorri olhando para o céu. Ontem eu sorri, ofegante, olhando os olhos de quem vive comigo e amo.

O mundo está doente e urrando de dores. Existem apocalipses acontecendo. Mas eu não preciso estar em apocalipse, doente e doído também. Eu posso estar simplesmente bem e, inclusive, a partir disso lamento mais pelos que não estão. A partir disso espero e tento, no que for possível, oferecer auxílio para que outros venham também a estar.

Sorrir não é feio. Não é crime. Tomara que meus sorrisos possam levar sorrisos aos outros também. Tomara que ao invés de só partilharmos prantos possamos, cada vez mais, sorrir juntos.

Está tudo bem em se sentir bem.