Eu não preciso ser gay

Ilustração: Sébastien Thibault

— “O cara não aguenta dois copos que já fica soluçando, que viadinho! O que você acha Ulle?”

Não sei quantas vezes já ouvi o termo “viadinho”, sendo associado à algum tipo de frescura ou fraqueza. Numa dessas tantas vezes, sobre o contexto de bebida, ao ouvir alguém fazer a tão comum associativa: “viadinho” com “frescura/fraqueza/delicadeza”; meu cérebro saiu em disparada, montando a “rainbow list” dos meus amigos gays, e sem precisar de muito esforço de processamento, minha listinha resultou em ZERO amigos frescos, nada delicados e que beberiam o oceano se ele fosse de vodka ou cerveja.
Então o pensamento escapou na voz:

— Mas meus amigos gays bebem dois copos de boa.

Isso foi seguido da seguinte comoção:

— “Nossa! Aí você judiou do cara mesmo, hein. Está falando que ele bebe menos que viado?”

Provavelmente, há uns anos atrás eu teria entendido rapidamente o sentido de “judiou”. Mas por estar tão imerso na vida dos meus amigos gays, não via sentido no “judiar”. Apenas estava tentando dizer:

— “Meus amigos gays não são fracos para bebida, meus amigos gays bebem pra caralho, meus amigos gays não têm nada a ver com essa conversa” — E acabei dizendo.

Ainda que isso me fosse claro e transparente, demorei um certo tempo, para poder finalmente dar voz aquilo que aprendi. A orientação sexual deles não serve como parâmetro medidor de fragilidade, muito menos os torna uma subclasse masculina.

Não preciso ser gay para perceber que essa pré-definição de personalidade atribuída à orientação sexual não faz o menor sentido. Levei muito tempo para perceber que podia me espelhar nesses amigos, e tomá-los como espelho, sem que isso afetasse minha sexualidade, e se afetasse, não seria necessariamente um problema. Não preciso ser gay, para não me incomodar em parecer com um.

Não preciso ser gay para mostrar para as pessoas imerssas nessa cultura do preconceito, de que eles não sabem o que estão falando. Que eles não conhecem essas pessoas, e que a ideia deles não tem o mínimo de fundamento.

O mundo precisa se abrir para conhecer essas pessoas, e não julgá-los nessa forma idiota construída ao longo dos anos. Eu não preciso ser gay, para ser tão forte e corajoso e não me curvar ao insulto do preconceito.

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