Eu tenho medo

Eu tenho medo de tudo isso.

http://www.hercampus.com/ — acesso em 13/06/16

Eu vejo noticiários, falas de pessoas públicas, falas de autoridades. Eu vejo pessoas de mãos dadas na rua sofrendo por isso. Por que fazem isso? Eu vejo pessoas morrendo simplesmente por serem quem são. E eu tenho medo disso. Eu sou homem e sou branco. Eu sou uma elite privilegiada. Tenho ciência disso. E isso é triste. Por mais besta que isso possa parecer.

Somos todos

Eu sou eu. Somos todos únicos. Existem padrões, existem incidências maiores de tais comportamentos, aparências, jeitos. Existem diferentes religiões, crenças, gostos. Em um grupo de 100 pessoas, não temos um indivíduo que seja igual ao outro. Variamos em pequenos pontos, e até aí é aceitável. E existem pessoas que não admitem algo diferente. Existem pessoas, guiadas cegamente por convicções, por figuras públicas, líderes, que negam e repudiam outras. Repudiam a diversidade natural do ser humano.

Não quero citar nomes, estereótipos, religiões. Quero tentar me abster de tudo isso pra tentar te dar uma visão muito mais simples de tudo isso.

Somos mais de 7 bilhões de pessoas na face da terra. Temos grande parte (cerca de 60%) de nosso mundo vivendo em situação de pobreza ou miséria. E isso tudo é muito longe de nós. Temos uma lista de atuais conflitos em certas partes do mundo, a quantidade de mortos em uma guerra, com pouco sentido, que já dura décadas, e temos uma lista de conflitos causados por uma nação. Uma única nação. Acho que são bastante números se você quiser se aprofundar.

Somos todos um grande mundo interconectado por uma rede, na qual ocorrem trocas de informações, conhecimento, notícias, empatia. Mas só 40% do mundo tem acesso a tamanha grandeza que é essa rede. E esses outros 60%? Vivemos num mundo onde 10% dele passa fome, enquanto você não come toda a comida no prato e acaba tendo que jogar no lixo. Temos um mundo em que a taxa de extinção de espécies dos 5 reinos do domínio Eucariota é de 100 a 1000 vezes maior do que as outras extinções que já tivemos (todas de causas naturais, como a era do gelo).


Somos um grande mundo, uma nação global .

“Pessoas estão muito relutantes em admitir que homofobia foi um fator porque isso significa que elas compartilham um mesmo traço que alguém que matou 50 pessoas”

Menos você

50 pessoas foram mortas. 319 pessoas mortas em 2015. 5 milhões (estimativa mais baixa) de pessoas massacradas, torturadas. Até hoje, mais de 130 pessoas morreram no Brasil por ter um gênero ou sexualidade diferente. Só em 2016. 5 milhões de pessoas morreram torturadas, queimadas, foram tratadas como lixo por séculos, pelo simples fato de que certas pessoas acreditavam que eram superiores. Sempre pregamos uma humanidade em todos nós. Seja gentil, seja generoso.

Até você ouvir que algo é errado. Mas o que é errado, e quem disse que é? Acima disso, qual o meu direito de interferir nisso? Eu gosto de banana, mas tem pessoas que não gostam de forma alguma. Isso me dá um direito de chama-la a herege, espalhar boatos, falar pelas costas? Até que um belo dia alguém mata essa pessoa. Proteja seus semelhantes.

E no meio disso tudo existe você. Ser humano, indivíduo, singular, único. Rebeca, José, Thiago, Marina. Temos muitos nomes e sobrenomes, datas de nascimento diferentes. Por um lado somos todos números estatísticos. Roberta é mais uma negra lésbica morta por correção, José mais um homossexual morto por intolerância. Marina é mais uma mãe só, porque o pai o abandonou. E Thiago mais um jovem negro morto na periferia do Rio. São pessoas marginais, fogem ao padrão imposto como normal. É o princípio que rege a sociedade: não a diferença (famoso status quo). E eu não falo isso da boca pra fora.

E existem, claro, pessoas como você: acesso a internet, comida na mesa, um teto onde morar. Vivo. Paulo Freire tentou definir essa relação como opressor e oprimido, e a essas relações chamou relações de poder.

Se você quiser saber mais sobre opressor e oprimido, checa esse infográfico que ele te explica certinho quem é quem e como que isso funciona!

Existe o oprimido: Aquele que não se encaixa, não tem privilégios, luta por direitos, pisado pelas elites.

Existe o opressor: Aquele que detém todo o poder e privilégios, está por cima, batalha para manter seus privilégios.

Por exemplo: a elite econômica e política brasileira X o negro pobre da favela do Rio. Não existe o que defenda a meritocracia nesse caso: ninguém é melhor que ninguém ou mais digno por determinado motivo. São oprimidos como os 5 milhões de mortos no século passado. São opressores os que levaram nosso mundo ao caos nesses últimos tempos. O interesse da elite em detrimento dos outros 99%.

Além de uma luta de classes, se luta por direitos. Um dos principais é o de ir e vir livremente. E o de não ser morto.

Relações de poder

E são essas relações que mantém esse estado de “equilíbrio” da sociedade. São pequenas ações que tornam um sistema opressor para as minorias, como impedir pequenas tarefas, como LGBTQ+ de doar sangue. São nesses pequenos momentos que o oprimido se vê enquanto menor, menos digno, e são nesses momentos que o opressor se aproveita e ganha seus privilégios.

Indo além, podemos perceber uma elite política, no Brasil, se emancipando sob a figura de um golpe político, na qual a militarização se faz como arma. A polícia, protetora dos oprimidos e quem aplica as leis, se vê enquanto detentora de certos parâmetros: o negro é bandido, o rico é inocente, o viado merece apanhar. A travesti (que fique claro, travestis são do gênero feminino) que fica na rua merece apanhar, mas ninguém vê que a própria sociedade marginalizou essa pessoa. Pelos seus meios, negadas oportunidades de trabalho pela questão de gênero, a travesti vê espaço nas ruas durante a madrugada. Você também é responsável por isso, quando diz que tem nojo de travestis.

Você perpetua uma relação de inferioridade quando diz que prefere que seu filho seja morto em acidente a ser gay.

Temos um impacto muito direto sobre a sociedade que vivemos, só não percebemos isso ainda. Temos voz e temos voto. Essas são nossas armas. Quando algo não te contenta, saia as ruas. Quando algo te prejudica, saia as ruas. Indique seu voto com a qualidade que você visa em seu representante, e não simplesmente vote no menos pior como forma de não deixar o Brasil “pior do que já tá”. O que eu pessoalmente abomino é o ato, de forma egoísta, de sempre tentar se garantir privilégios. Uma política pública que implica em você pagar menos impostos, mas que também reduz o financiamento de programas sociais como o minha casa minha vida, um programa tão chamado de “sem escrúpulos”, ou “que financia bandidos e vagabundos”, pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades que você e que por isso são menos favorecidas e precisam sim disso. É o direito à moradia, à qualidade de vida. E não um imposto a menos pra você poder ir para Miami.

Uma palavra sobre a Africa

E está mais do que na hora de falarmos sobre a África, mas não sob uma ótica Estado Unidense que visa vitimizar a população.

Não quero dar uma aula de história, então vamos a nos ater a simples fatos: a África é colônia desde a era moderna (século XVI/16). Qualquer cultura que antes havia na África foi arruinada. Não há voltas para isso. Tribos dizimadas. Houve colonização Asiática antes de 1500, mas não como a europeia. Como um quintal da Europa, monarquias como o Reino Unido, Holanda e França fizeram daquela um campo de trabalho, experimentos.

O negro africano que não fizesse seu trabalho bem feito era morto. E que isso servisse de lição aos outros. Não havia piedade ou empatia. Eram escravos, material de trabalho, redução máxima da humanidade.
Especulação bizonha: os negros foram selecionados como os melhores corpos para trabalho, corpos que aguentem mais peso e esforço. Tecnicamente os negros possuem uma vantagem evolutiva perante brancos.

Nunca houve momento algum para que o continente se recuperasse de diversos massacres e colonizações. Apenas no século 20 que todas as colônias foram libertas e se fundaram os países.

Há uma problemática muito grande pois nunca se respeitaram as hierarquias das tribos, ou questões socio-culturais inerentes a esses povos. Como em um desenho, riscou-se limites para cada pais baseado na área da colônia. Tribos foram divididas no meio, chefes exonerados. Existe muito sobre a Africa que não se fala. E os EUA, enquanto potência global, tem ciência disso tudo e soube lidar de uma forma pragmática: trabalho voluntário, vitimização do africano enquanto carente, incompetente e necessitado.

PORRA VELHO, os africanos sofreram muito, mas não é esse o caminho e nunca será!

Não havia necessidade alguma dessa intromissão americana, este assunto era com a Europa e a Africa. Somente. A partir do momento que se coloca um continente inteiro sob esse espectro, ninguém consegue levar nada a sério. Como considerar a Africa uma futura potência global se a fome no país supera 50%? Como levar a sério quando o único país forte política e economicamente, no continente todo, é a Africa do Sul, palco de um dos movimento racistas mais prejudiciais para a humanidade: o Apartheid (que emancipou uma elite branca no poder, que persiste até hoje)?

Por conta de um simples aspecto, uma política de bom grado, de empatia, de falsa generosidade (como Paulo Freire denomina). Ela é a arma mais potente do opressor, porque gera um sentimento de empatia nos oprimidos ao mesmo tempo que mantém o status quo; ou seja, engana trouxa.

E por que isso não nos incomoda?

se perguntou o porquê disso? De você se preocupar com um massacre e logo em seguida ver um vídeo fofo de filhotes para amenizar o clima, levantar o humor e seguir com a vida, porque, afinal, não temos tempo para nos preocupar com tudo que acontece no mundo, certo? Muito embora sempre tenhamos preferência para acontecimentos na Europa e Estados Unidos, porque, afinal, é o que importa.

Lembram dos números, virar estatística e tudo mais? Vivemos isso todo dia, não é algo de vez em quando. Todo dia você se depara com números e mais números. Falta só perceber que, por trás desse número, existem pessoas. As vezes mortas. Números acabam virando objetos, e por consequência pessoas também.

50 pessoas morrem em boate nos EUA, dizem autoridades.
50 pessoas comparadas com 7,2 bilhões dá… 0.000000007% da população mundial. Acho que não foi tanta gente assim. E foi nos EUA, eu to no Brasil, meio longe, nem conheço essas pessoas, nem seus nomes, nem rostos. Por que vou me preocupar? Eu tenho que ver como vou passar esse mês porque o aluguel aumentou. — Pensou alguém

Não é porque você é menos humano ou tem menos empatia por certas causas, é porque você não tem motivos aparentes para se importar com isso. Afinal, todos lutamos nossas próprias lutas (sem esperar, nunca, que alguém as lute por nós). Essa é a realidade de um oprimido. LGBTQ+ não querem pena, não querem que você demonstre seu afeto e compaixão. Queremos uma posição, uma conscientização. Queremos que você veja que não estão em passeatas ou massacres as verdades, e sim nos pequenos gestos do dia-a-dia, de não poder segurar a mão do seu namorado em público, ou de não poder trabalhar porque seu chefe acha que o jeito que você se veste afasta clientes (quando você é alguém trans).

E onde vai o medo nisso tudo?

Meu medo é sobre nós mesmos. Eu percebo reações de espanto quando uma notícia dessa vem ao ar, como se isso nunca fosse possível em 2016. Sendo que ainda sim, tanto no Brasil como lá, homossexuais representam grupo de risco (herança longínqua de estudos falsos que demonstram que gays são maioria perante portadores do vírus HIV) e que por isso não podem doar sangue.

Gays não podem doar sangue para gays que sobreviveram ao massacre. Isso é nojento e ridículo.

Meu medo é de que supremacias fundamentalistas tomem conta e acabem por colocar minorias na categoria de objeto e estatística, que pessoas virem coisas distantes, que não mereçam nossa compaixão, como é o caso dos inúmeros assassinatos por parte da PM nos morros do Rio. Qual veículo de notícias quer cobrir isso? Quem assume nas costas carregar uma vanguarda, na qual jovens negros não mais serão bandidos, e sim vítimas?

Eu vejo pessoas socando e chutando alguém com camiseta vermelha durante passeatas. Eu vejo meninos e meninas de classe baixa nas ruas sem ter o que comer e ainda sim tem alguém que vai lá e atira fogo nelas. Eu vejo um mundo cada vez mais doente, no qual a morte será banalizada meticulosamente, de acordo com os interesses de quem manda. Eu tenho medo de andar na rua e ser morto a qualquer momento por ser gay, ou por gostar de banana. Eu tenho medo de continuar vivendo porque eu sei que algum dia eu posso ser morto por uma pessoa que acredita que um livro mandou homens matar aos outros por discrepâncias de opiniões, ou por afinidades sexuais. Eu tenho medo de morrer nas mãos de alguém que infelizmente não sabe o que está fazendo.

Cultura do medo

E eu tenho medo de ter medo. Eu tenho medo de que em algum momento eu tema o inimigo errado. Eu tenho medo de ser manipulado a achar que os problemas estão em determinado grupo, pessoa, nação, sendo que os verdadeiros estão mascarados na minha frente a todo momento.

Um grande exemplo disso é o atirador que massacrou 50 pessoas em uma boate. Um cidadão americano que matou 50 pessoas, e o culpado é personificado em um grupo religioso, fundamentalista, que muito não tem a ver com nada disso. Não foi o estado islâmico, não foi uma nação islâmica, muito menos crenças religiosas que o fizeram atirar em quaisquer pessoas que se movesse. Foi algo muito mais incorporado, permeando por diversas religiões, fundamentalismos ou nações: a homofobia. E é difícil de ver o contrário quando o inimigo mundial (considerado por apenas um país em detrimento de interesses econômicos) é o culpado aparente. É fácil colocar a culpa em um grupo de pessoas que sequer se tem notícia da existência do que admitir o erro. É mais fácil afastar os problemas do que traze-los pra perto. Admitir que foi a homofobia significa admitir que você pode compactuar com as crenças de um homem que matou 50 pessoas. E isso é inaceitável, porque não somos ele (mas até que ponto?).

Ele era cidadão americano. Ele cresceu sob convicções de um estado hegemônico culturalmente, economicamente e politicamente. Ele sabia de tudo isso. Mas também sabia que ele tinha o direito de comprar uma arma e atirar em quem ele quisesse. Ou pelo menos achou. A vontade dele pode somente ser especulada, e isso é problemático, pois abre margem para qualquer um colocar a culpa como bem quiser, e ninguém está errado porque não existe o certo. E nessa abertura grande de mais, certas pessoas ganham mais voz. E essa voz é seguida por muitas outras pessoas. Vivemos em um mundo em que a verdade não importa muito mais, importa saber o que é lazer e o que temer. O que, no nosso caso, o maior medo é temer com T maiúsculo.

Like what you read? Give Rodrigo Moon a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.