Eutífron e a corrupção da juventude

Ventana. Imagem: Bom dia Luxemburgo;

Quando Sócrates – sábio de sua ignorância – consegue atingir voos mais altos que a militância mirim da modernidade


O homem, em seu âmago de construir um mundo melhor, tende a conceber todo passar do tempo — e as mudança de costumes aferidas com este — como “evolução”. De bom grado é evidente estarmos hoje inseridos em uma era mais próspera, onde há a possibilidade de melhores condições de existência em meio ao caos. Todavia – e aparentemente – isso não é suficiente.

Não é por acaso que ainda analisamos as obras de Michelangelo, ou que citemos os Gregos constantemente. Tais seres — presentes no imo histórico da humanidade — são sinônimos de uma construção intelectual pitoresca, arriscando concebê-los anos luz de evolução do homem “moderno”. Há um equívoco quanto a concepção do contemporâneo: em meio a tanta fragmentação inteligível acabamos por comprometer nosso ingênuo ideal de perpetuidade. Mesmo quando situados nos últimos suspiros do relógio do universo, ainda assim buscamos plantar o bem para as gerações vindouras.

Tudo que nos interessa. Foto: Dialético;

Se levarmos para o lado religioso, de forma rasteira, temos que estamos nesse campo mundano tentando (sobre)viver sem Deus, mesmo já estando escrito que todo império terreno cairá — seja o Romano, o Egípcio ou até mesmo o Ocidente — visto que viver sem a Verdade, o criador de tudo, é impossível e insustentável, restando apenas vazio e sofrimento. Por outro lado, Sócrates, mestre primogênito de Platão, em um dos seus diálogos denominados Eutífron, nos demonstra que seu olhar estava para além de todo o tempo, não apenas aquele em que se encontrava, restando somente o afago da cicuta após o cotejo de que o mesmo era um corruptor da juventude.

No respectivo diálogo, Eutífron encontra-se em um dilema moral ao estar acusando seu próprio pai de ter cometido um homicídio por injustiça, segundo sua concepção. Não custa lembrar que os tempos são remotos: todo o humanismo advindo do cristianismo estava distante. O castigo — e até mesmo o assassinato de criados, como é o caso — era algo comum; Todavia, a questão posta ainda faz relação profunda conosco: os pobres homens modernos. Sócrates, que buscava o conhecimento em tudo, em todos e acima de tudo por reconhecer o próprio mar de ignorância, convida o amigo a mergulhar nas profundezas de suas intenções e buscar a fundo as razões que consubstanciavam tamanha decisão.

Sócrates — Aquele que foi morto pelo teu pai é algum dos parentes? Mas, com certeza! Pois não acusarias o teu pai de homicídio por causa de um estranho.
Eutífron — É risível Sócrates, pensares que há alguma diferença em o morto ser um estranho ou um familiar e não apenas que há uma coisa pela qual é preciso zelar: ou o que mata, mata com justiça ou sem ela.

Temos em vista um ambiente comum: jovens, não só pela falta de maturidade, como também pela vontade de pertencer à algum lugar, tendem a querer uma eterna coerência, mesmo que lhes falte, buscando uma espécie de aceitação moral. Um ideal Looney Tones de um mundo onde todos devem ser felizes, mesmo que artificialmente, e a “justiça” deve ser feita, mesmo que contra sua própria família, em prol de ser bem visto e estar certo.

É essa moral artificial e estética que os jovens, assim como Eutífron, lançam mão hoje. Julgo e mato meu pai porque ele é machista, independentemente se dependi dele para sobreviver quando criança, mas não posso coadunar com opressão. Mato minha mãe porque ela é preconceituosa e racista, não levando em consideração as noites que ela passou em claro exclusivamente por minha culpa. Mato minha vó, meus tios, meus primos por meras convenções sociais, para pertencer a um grupinho descolado, para ser aclamado e considerado “justo” e correto.

No mais, o diálogo continua, e os dois tentam entrar num consenso do que seria um ato ímpio e um de justiça. Sócrates utiliza recorrentemente o exemplos dos deuses, mostrando possíveis incoerências até mesmo entre os conflitos divinos.

Sócrates — Por Zeus, Êutifron! Julgas conhecer assim tão exatamente as coisas divinas, de qualquer espécie que sejam, relativamente ao que é piedoso e ao que é ímpio? Procedendo desta maneira, não temes que ao entregares teu pai à justiça que, ao contrário, te suceda estares a cometer uma ato ímpio?
Eutífron — De nenhum préstimo eu seria Sócrates, nem diferiria da maioria dos homens se não conhecesse tais coisas exatamente.

Vemos aí uma certa soberba de Eutífron, em que mesmo tendo inúmeros dilemas na imensidão de sua alma, ainda assim tenta manter o orgulho e seu ego completamente descomprometidos. Algumas definições de piedade são propostas, como a de que piedade é perseguir os que cometem injustiças ou até mesmo que é o fazer aquilo que agrada aos deuses. Todavia, os dois encontram-se presos num círculo vicioso, pois não se consegue chegar ao átomo do que de fato é piedade, tendo em vista o paradoxo de cometer uma injustiça em prol de uma justiça. Sócrates parece encurralar o pobre homem em cheio.

20.
Sócrates: […] Pois, se não soubesses com clareza o que era a piedade e a impiedade, não vejo como explicar que queiras acusar de homicídio teu pai, homem mais velho, por causa de um servo. Mas, também, não é possível que não temas correr perigo de não agires corretamente para com os deuses ou que não tenhas vergonha dos homens. Mas agora sei bem que pensas saber claramente o que é a piedade e o que não é. Diz, portanto, excelente Eutífron, e não me escondas isso mesmo que pensas.
Eutífron — Em outra hora Sócrates, pois agora tenho pressa de ir para outro lado e é tempo de me ir embora.
Sócrates — Que fazes companheiro? Vais embora, derrubando-me da minha grande esperança? Como aprenderei contigo o que são e o que não são as coisas piedosas? Como irei me livrar da queixa de Meleto? Como mostrarei àqueles, que junto de Êutifron, me tornei sábio nas coisas divinas e que, nem por ignorância improviso, nem inove acerca das divindades, mas que viverei uma outra vida melhor?

Resta evidente que Eutífron não faz a mínima ideia do que está fazendo. Os argumentos rasos foram desmascarados e sua profundidade moral escancarada. É exatamente por isso que a esquerda não gosta de debater: seu pensamento não passa de uma carcaça bonita ou uma couraça de vaidade, mas no lado de dentro vemos tudo aquilo que é escondido: a grande lacuna da verdade que faz eco no interior. A ironia de Sócrates é algo louvável; mostrar as incoerências do outro sem precisar diretamente atacá-lo é de tirar o chapéu. É dessa forma que devemos agir com eles: deixar que a própria insensatez mostre a cara, a fim de vermos se eles se atrevem a olha-lá nos olhos ou se vão fugir, dando uma desculpa costumeira, como se os olhos fossem os de Medusa.