Quem quer ganhar a si mesmo e ter uma vida de qualidade neste século 21, precisa estar em constante movimento para baixo e para menos

Felipe Moreno
Jun 22 · 6 min read
(Adam Hale)

A escova de dentes que uso é de cerdas simples e sem sofisticação no design. Dizia na embalagem que era o modelo “Classic”. Limpa meus dentes melhor do que qualquer outra e, além do mais, custou barato e me faz feliz. Também a pasta de dente e o fio dental: simples, baixíssimo preço, boa qualidade. Por que eu deveria acreditar que deve haver uma hierarquia em preço, qualidade, desempenho e tecnologia — tecnologia! — num reles cordão fino que atravessa meus dentes? Penteio meu bigode e minhas costeletas com um daqueles pentes redondos que se encaixam na mão. R$ 0,95 centavos. É o mesmo há três anos. E é o melhor.

Guardo minhas economias dentro de uma garrafa pet de 600 ml. Serve perfeitamente e teve sua funcionalidade estendida. O dinheiro que eu economizei ao não ter comprado um cofre está dentro desse objeto que um dia foi uma garrafa de refrigerante e hoje, nas minhas mãos, se tornou, veja você, um cofre. Vejo minha garrafa-cofre, “gestando” algumas notas e moedas (economia para o aluguel do próximo mês) e isso me dá satisfação.

Minha bicicleta: comprei usada, por um preço excelente. Na falta de uma cestinha customizada para levar meus utensílios, um dia, oportunamente, pedi para um funcionário, que estava na área externa de um supermercado, uma dessas caixas que transportam frutas e legumes. Para a minha sorte, havia várias delas sobrando. E, dentre as tantas, o funcionário me disse: “Escolhe aí”. Me senti privilegiado. Minha cesta é espaçosa, firme e não pesa muito. Amarrei-a no bagageiro da minha bicicleta com alguns daqueles prendedores de plástico (em São Paulo, os chamamos de enforca gato). Foi, de longe, o melhor retorno custo-benefício (sem custo) que tive no mês.

Às vezes reviro o lixo atrás de coisas que, para alguém, já não serve, mas que, para mim, pode servir muito. Florianópolis tem lixos excelentes, cheios de surpresas. Em cada saco preto amarrado e jogado nas esquinas pode haver preciosidades, objetos inestimáveis. Minha prima, dia desses, nas proximidades de um condomínio de luxo, achou almofadas e travesseiros, com lindas estampas, em perfeito estado. Invejei-a.

Uma amiga, de passagem aqui em Florianópolis, ganhou na Mega-Sena dos aproveitadores e recicladores de lixo. Ao que parece, uma família se desfazia de sacolas e mais sacolas, cheias de pertences em ótimo estado, quando não intactos. Talvez fosse de alguém que morreu; talvez fosse o caso de uma separação entre casais. Fato é que era o caso de um desapego generalizado e massivo: havia lindas bijuterias, pedras e cristais de decoração, vasos, caixinhas e até uma besta (aquela arma que parece um misto de espingarda com arco) entre os objetos que simplesmente iam para o lixo. E agora minha amiga levará quase tudo para Porto Alegre, cidade onde vive.

Tais episódios me estimulam ainda mais o faro; me estimulam para o exercício e a prática de aprimorar ainda mais minhas técnicas de caçador exímio, farejador nato, reciclador-artista, livre, zanzando pelas ruas da região sul da capital catarinense, jovem paulistano exilado na Ilha da Magia, atrás do lixo perfeito.

Quando não estou nas esquinas, reaproveitando ou reciclando os lixos, estou nos brechós. Mas nunca mais estive dentro de uma loja comum, que vende produtos novos.

Aliás, falando em roupas, eu as tenho em pequeníssima quantidade. De um ano para cá, me desfiz, creio eu, de cerca de 70% do meu guarda-roupa. Tenho apenas cinco bermudas, três calças. Um apanhado de nove ou dez camisetas e camisas. E eu as utilizo, as aproveito e as amo muito mais do que antes. Porque agora, afinal, são as únicas peças que tenho.

Esse minimalismo vestuário também me facilitou muitíssimo na organização e na economia: por se tratarem de poucas peças, nunca as perco; gasto menos tempo e dinheiro ao lavá-las.

Digito agora este texto sentado numa cadeira de madeira, sem apoio para as costas — e talvez esse seja o único investimento necessário que devo fazer no momento: comprar uma cadeira nova e mais confortável. Meu notebook, muito bem preservado, vai completar três anos de uso. E, se não durar mais três anos, no mínimo, sei que se tratará de mais um caso de obsolescência programada. Pois meu celular, que comprei junto com o notebook, em junho de 2016, acaba de pifar. Um smartphone que me deu tanta dor de cabeça. Lentidão, superaquecimento, problemas com o display. Veio com defeito de fábrica — ou, em outras palavras, é mais um mero fruto da sorrateira e sórdida obsolescência programada. Não me fará falta. E, se tiver que ficar sem celular, ficarei.

Por falar em tecnologia e comunicação, tenho acessado cada vez menos as redes sociais. O Facebook, que já não acesso há semanas, desesperado, me manda notificações diárias — todas esdrúxulas, visivelmente apelativas, como “tal pessoa [que eu mal tenho vínculo real] adicionou um novo story”. Antes, o Facebook conseguia, como ninguém, fisgar minha carência. Hoje, porém, é o contrário: o Facebook quer me fisgar para suprir sua carência de me ter na sua rede de domínio emocional, de dopping mental, de ladroagem da atenção e do tempo alheio.


(Guy Catling)

Por fim, absolutamente convencido, repito para mim mesmo, diariamente: quem quer ganhar a si mesmo e ter uma vida de qualidade neste século 21, precisa estar em constante movimento para baixo e para menos. Para baixo, para menos: viver de maneira cada vez mais natural, buscar a fonte da alegria única e exclusivamente na simplicidade. Para baixo, para menos: que é o equivalente a lapidar o diamante das coisas essências e preciosas das quais você, com muito carinho, cuidado, atenção e consciência, fez gerar valor para si mesmo.

Não precisei ler nenhum livro da Marie Kondo para adotar esse estilo que beneficia o menos, o essencial, e a organização severa e restrita em relação a essas coisas em menor quantidade e essenciais. Mas quando digo às pessoas que é dessa maneira que me relaciono com os bens materiais (diferentemente do que pensam alguns religiosos do oriente, os bens materiais são muito importantes), essas pessoas me chamam de hippie. Me conhecem em superfície. Imagina, hippie. Eu, que não acredito que a salvação do mundo está no lema “paz e amor”; menos ainda no LSD e no sexo livre.

Alguns outros, bitolados, paranoicos, lunáticos, que, neste atual momento de Brasil, têm sofrido de uma espécie de síndrome de olavismo, me julgaram — advinha? — comunista. Respondi apenas que Marx foi e ainda é muito importante. E aí, enervados e ao mesmo tempo orgulhosos por terem tido a incrível sensibilidade de me identificar um comunista, relincharam: “Olha aí, falei! Comunista!”.

Digam o que quiser — darei risada das constatações alheias que têm sobre mim. Só eu, apenas e exclusivamente eu, sei que sou o que sou. E ser o que sou é muito, mas muito difícil de explicar em palavras — apesar da minha breve (superficial e, de certa forma, narcísica) tentativa de fazer isso neste texto.

Mas eu pergunto: e todas essas pessoas, o que são? Que tipo de ser é, por exemplo, um desses sujeitos que tanto me julgou e que não pode ver chegar no mercado um novo smartphone que agora tem dois megapixels a mais na câmera frontal que já joga fora o aparelho “antigo” e investe R$ 3 mil reais parcelados, até o próximo ano, na “grande novidade”; um tipo de pessoa que vive trancafiada dentro do seu automóvel de luxo, respirando ar condicionado a maior parte do tempo; trancafiada também dentro da sua fortaleza residencial, cercada por arames farpados e portões eletrônicos, tudo por questão (paranoia) de segurança?

Ser assim é ser uma pessoa normal? Se assim for, prefiro, então, revirar o lixo. E com orgulho. Já que a vaidade é indissociável de qualquer ser humano, prefiro ter orgulho de mim aqui, onde estou, catando lixo e usando a criatividade.

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Felipe Moreno

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Meio melancólico, meio alegre.

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