Exposição em redes sociais e suas consequências

Quando o público se confunde com o privado — ou o contrário — há consequências sociais e até mentais para quem faz uso destas plataformas. Acompanhe a discussão.

A incansável difusão de informações nas redes sociais trouxe consigo aspectos positivos e negativos. Passaram a existir problemas que não estão presentes apenas no mundo virtual, mas também fora dele. O indivíduo submete-se a uma necessidade de exposição a todo momento, pela facilidade cada vez maior do acesso à internet, por meio de Smartphone, tablets e computadores portáteis. O tempo excessivo na frente das telas o pressiona a expor cada detalhe de sua vida, influenciado pelo comportamento da grande maioria dos usuários da internet. Em um período condizente ao cenário proposto por Guy Debord, o indivíduo passa a priorizar a exposição de tudo que lhe acontece. O espetáculo torna-se “o coração da irrealidade da sociedade real”, como descrito pelo autor em uma de suas obras, a “Sociedade do Espetáculo”.

Pensamentos são expressos em “textões” pessoais, fundindo o espaço público e o privado; uma viagem é expressada através de fotos e vídeos que podem desaparecer depois de 24 horas ou ficar exposto enquanto durar o perfil na rede social. Para a maioria é inevitável deixar de compartilhar cada instante da existência, exaltando uma perfeição ilusória e aceita socialmente. Os próprios comandos das redes sociais pedem aos usuários para que compartilhem suas experiências, ao serem questionados sobre o que estão sentindo, lendo, assistindo… Assim como são induzidos a fazer check-in de cada local frequentado. A interação que um colega pode fazer ou a quantidade de “gostei” em cada publicação impulsiona a vontade de mostrar-se para o outro, como se fosse um jogo no qual o vencedor é aquele que tem mais interatividade na sua postagem.

O ditado popular “a grama do vizinho é sempre mais verde” torna-se cada vez mais verídico com a ascensão das redes sociais. Acompanhamos as publicações alheias e vemos que o tom das postagens são sempre de felicidade e positividade, dando a sensação de que a vida do outro é sempre melhor do que a nossa, mesmo sabendo que ela é uma felicidade parcial ou manipulada. Essa situação tão comum na rotina de qualquer usuário é mostrada no curta“What’s on your mind?”, de Shaun Higton, retratada de forma polêmica, porém honesta. Para comprovar essa situação, foi feita uma pesquisa divulgada em 2017, pela Periódico Americano de Medicina Preventiva, apontando que a exposição e as representações idealizadas da vida de outras pessoas faz com que sintamos inveja delas, além de ressaltar que acessando sites como Twitter, Facebook e Snapchat por mais de duas horas por dia, a probabilidade de alguém se sentir isolado pode dobrar. Percebe-se então que quanto mais tempo uma pessoa fica online, menos tempo ela tem para interações no mundo real.

Perfil de Boris Bork no Instagram em 02/03/18.

O russo Roman Zaripov, consultor de marketing, teve uma ideia de campanha que exemplifica perfeitamente este cenário. Zaripov transformou o aposentado Boris Kudryashov em Boris Bork, um milionário fictício exibindo toda a sua ostentação em fotos do Instagram. A conta acumulou milhares de seguidores e chegaram até convites de empresas interessadas em possíveis parcerias com o personagem. Porém, o Boris real vive com uma pensão de pouco menos de 200 dólares e todas suas fotos foram realizadas pela agência em 3 dias, e cada postagem sua tem milhares de curtidas. Isso serve de exemplo do quanto a aparência é valorizada nas redes sociais, e, além disso, de como a ostentação ganha fãs mesmo sem um conteúdo aprofundado ou verdadeiro.

Existem algumas leis no exterior, principalmente na Europa, sobre o “direito de ser esquecido”, que é uma lei que permite que você entre na justiça contra uma plataforma, como o Google por exemplo, e o conteúdo que esteja ali não seja mais exibido. Algumas pessoas já ganharam — houveram casos na Espanha sobre isso, mas no Brasil não se tem uma lei parecida (Atualização: Há sim essa lei no Brasil, é o enunciado 531 do Conselho da Justiça Federal). As próprias plataformas apresentam alguns recursos de privacidade para que o usuário não tenha a exposição indesejada.

A própria sociedade tem a necessidade de receber as informações cada vez mais detalhadas para realizar alguma ação decisiva. A dúvida e a incerteza é uma das características da geração y, consequência da revolução tecnológica. Nos séculos anteriores por exemplo, não haviam tantas opções. As redes sociais eram conversas dentro de um grupo de amigos ou de uma comunidade, onde a exposição poderia ser ou não evitada, mas a disseminação das informações não eram de fácil acesso, tampouco globais.

O espaço público passa a ser associado à exposição, enquanto o privado, à intimidade. A necessidade de fugir da exposição causa um maior reconhecimento das ferramentas que valorizam a privacidade, fazendo com que grande parte dos usuários da internet se concentrem em aplicativos privados. O pós-graduado em semiologia, Diogo Bornhausen, ressalta que “exposição significa jogar ou colocar alguma coisa para fora, que não está no íntimo, está em público”. Para ele, o filósofo Walter Benjamin, no começo do século XX, já anunciava que, “após a reprodutibilidade a nossa sociedade passa a ter um valor de exposição e não mais de aura, ou seja, passa a valorizar somente aquilo que está exposto.”

Uma amostra disso são os “nudes”. Eles ganharam popularidade no cenário atual e digital. Ameaçada pelo namorado aos 12 anos, a jovem I. — nome fictício — conta em entrevista que foi pressionada a enviar fotos íntimas, caso contrário o relacionamento seria terminado. Devido ao medo de perdê-lo, acabou cedendo. Não satisfeito, o garoto pediu então um vídeo no mesmo tom e, diante da recusa, vazou as fotos dela na internet como retaliação. Atualmente morando em São Paulo, contou que se sente afetada por esse acontecimento até hoje: “uso todas as redes, como Instagram e Facebook, mas eu não posto mais como antes. Às vezes quero postar uma foto de biquíni na praia mas acabo não postando, porque eu sei que os olhares serão de julgamento”. Sobre o medo de como as pessoas possam reagir, descreve: “Vão olhar pra foto e lembrar do que aconteceu no passado. Pode até ser coisa da minha cabeça, mas isso me afeta muito, então prefiro evitar”.

Para tentar solucionar essas e outras invasões de privacidade, foi necessário criar uma organização não governamental e sem fins lucrativos denominada SaferNet, que reúne cientistas da computação, professores, pesquisadores e bacharéis em Direito com a missão de defender e promover os Direitos Humanos na Internet.

O filósofo e YouTuber Luiz Felipe Pondé considera a exposição como um risco passível de afetar a saúde da sociedade, assim como todos os outros: “Você deve começar a cuidar da exposição assim como quem cuida de não comer comida podre e não transar com uma pessoa que pode ter uma doença sexualmente transmissível”, contou em entrevista. Analisando possíveis consequências dessa exposição para o futuro, alega: “Ela vai se tornar uma variável de risco e as pessoas deverão tomar consciência”. Um problema encontrado é a desvantagem que o usuário tem de tomar essa “consciência”. Como se fosse um estimulante, a internet evolui a cada segundo para, justamente, a interação continuar acontecendo não importando o conteúdo. O Facebook por exemplo quer continuar evoluindo e aperfeiçoando a sua utilidade, acreditando em uma plataforma de realidade virtual que estará disponível e amadurecida nos próximos 10 anos. Mas isso só será possível se a ideia de necessidade de exibição continuar a crescer. Por hora esta necessidade se mantém, embora já existam pequenos focos de questionamento sobre esta ideia.

Contudo, a quantidade de postagens feitas e a coletivização da internet, faz com que todos possam ter acesso às redes sociais, para Pondé, “o fato de que você e todo mundo pode fazer isso, torna a sua exposição quase irrelevante, esse é o fato negativo”. Blogueiros, celebridades e influenciadores digitais, costumam ter os mesmos posicionamentos quando se trata de uma postagem, seja ela com intuito publicitário ou apenas rotineiro. Um selfie ou “look do dia” é visto incansavelmente durante inúmeras vezes ao dia, com isso o novo deixa de existir. O que deveria entreter acaba tornando-se apenas mais uma postagem. Ele ressalta uma possível solução: “uma pessoa pública pode ter o vínculo com as redes sociais, porque ela tem que ter, inclusive como marketing e divulgação, mas isso é uma tendência. Quanto mais público você é, mais você deve profissionalizar as suas mídias sociais”.

Não há indicativa de que redes sociais sejam extintas do nosso cotidiano, nem agora nem num futuro próximo. Por outro lado cria-se, pouco a pouco, a necessidade de que precisamos maturar a ideia de como usar estas ferramentas, pois elas são uteis socialmente e profissionalmente. O que não é útil e, principalmente, saudável para ninguém é uma exposição exacerbada nas redes da world wide web.